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sábado, 19 de setembro de 2026
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Lacrosse virou outro esporte pra voltar às Olimpíadas — e o Brasil entrou nessa corrida em 2025

Depois de 120 anos fora do quadro de medalhas, o lacrosse retorna em LA 2028 num formato reinventado do zero: o Sixes. Expliquei como funciona, por que foi criado assim, e como uma confederação brasileira com dois anos de história internacional já disputa a vaga.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Jogadora de lacrosse em movimento durante partida, segurando o stick com a rede
Jogadora de lacrosse em movimento durante partida, segurando o stick com a rede

Faz 120 anos que nenhum homem disputa medalha olímpica de lacrosse — a última vez foi em Londres 1908, quando só duas seleções entraram em quadra e o Canadá goleou a Inglaterra por 14 a 10. Faz sempre que nenhuma mulher disputou: lacrosse feminino nunca esteve no programa olímpico, em nenhuma edição, em nenhum século. Os dois recordes caem juntos em Los Angeles 2028. E o esporte que vai ocupar aquele lugar quase não existia até 2021 — foi reinventado, praticamente do zero, pra caber numa Olimpíada moderna.

A versão de 30 segundos

O que chamam de “lacrosse” em LA 2028 não é o jogo que aparece em filme de faculdade americana. É o Sixes: 6 contra 6 (cinco jogadores de linha mais o goleiro), quatro tempos de 8 minutos e um relógio de posse de 30 segundos que obriga o time a atacar rápido. O Comitê Olímpico Internacional aprovou a entrada do esporte em outubro de 2023, dentro do mesmo pacote que trouxe criquete de volta depois de 128 anos fora e devolveu beisebol e softbol ao programa, ao lado de squash e flag football. E enquanto isso acontecia do outro lado do mundo, uma confederação brasileira fundada há pouquíssimo tempo entrava, pela primeira vez, numa quadra internacional — dezembro de 2025, Porto Rico, sem nenhuma medalha de Olimpíada no currículo, mas com um resultado que valeu mais do que o placar mostra.

O Sixes: o mesmo nome, outro jogo

O lacrosse de campo tradicional — o que se joga em faculdade americana, com 10 atletas por lado, tacos longos pra defesa e um jogo que pode passar de duas horas — nunca foi um bom candidato olímpico. Caro de montar, difícil de explicar pra quem nunca viu, e distante da lógica de “abrir e fechar em uma tarde” que hoje domina o calendário dos Jogos. O World Lacrosse resolveu isso anunciando, em maio de 2021, uma versão inteiramente compacta do próprio esporte, batizada de World Lacrosse Sixes.

A diferença não é só no número de jogadores. No Sixes não existe posição especializada — todo mundo ataca e todo mundo defende, o que elimina o custo de formar um time completo de titulares fixos. Bola-ao-alto (faceoff) só acontece no início de cada tempo; depois de gol, o goleiro simplesmente retoma o jogo puxando a bola de dentro da própria área, sem parar a partida pra reorganizar formação. E não há tacos longos — todo o time joga com o mesmo tipo de stick, o que também simplifica o quesito equipamento pra federação que está começando do zero, caso do Brasil.

Aqui vai o comparativo que a cobertura de lacrosse raramente faz, porque quem cresce assistindo ao esporte nos EUA nunca precisou explicar a diferença pra ninguém:

Sixes (olímpico)Lacrosse de campoBox lacrosse
Jogadores por time6 (5 + goleiro)106 (5 + goleiro)
Campo70m x 36m~100m x 55mPista coberta, tipo hóquei no gelo
Duração4 x 8 min corridos4 x 15 min3 x 20 min
Shot clock30 segundosSem shot clock fixo (varia por liga)30 segundos
Posição especializadaNãoSim (ataque, meio, defesa)Parcial

O Sixes puxa a velocidade do box lacrosse (que já existia há décadas, jogado em pista fechada no Canadá) e o espaço aberto do lacrosse de campo — só que espremido pra caber num fim de semana de transmissão de TV, exatamente como o rúgbi fez ao criar o rugby sevens pra voltar às Olimpíadas em 2016.

Onde o Brasil entra: dois anos de história internacional

A Confederação Brasileira de Lacrosse (CBL) virou membro do World Lacrosse em maio de 2023 — o mesmo ano em que o COI aprovou a entrada do esporte em LA 2028, coincidência de calendário que deu à entidade brasileira pouquíssimo tempo pra amadurecer antes de a corrida olímpica começar valendo. Em dezembro de 2025, a seleção feminina brasileira estreou em competição internacional na PALA Sixes Cup, em Humacao, Porto Rico, ao lado de potências regionais como Haudenosaunee Nationals — a seleção da nação indígena que, tecnicamente, inventou o lacrosse séculos antes de qualquer federação existir, e que compete como país à parte dentro do circuito mundial do esporte, um detalhe que não se repete em nenhum outro esporte olímpico.

O time feminino terminou em 4º lugar entre sete seleções, perdeu a vaga do pódio numa prorrogação apertada de 9 a 8 contra a Argentina, mas bateu o México por 7 a 5 — primeira vitória internacional da história da seleção. A goleira Mackenzie Souza fechou o torneio com 37 defesas. O masculino terminou em 5º, com goleada de 26 a 18 sobre o Peru no meio do caminho. Não é resultado de quem chega pra brigar por medalha. É resultado de quem, dois anos atrás, nem tinha seleção pra colocar em quadra.

O próximo degrau já está marcado: o Campeonato Pan-Americano de Sixes de 2026, em Ontário, no Canadá, funciona como classificatório regional rumo ao Mundial de Sixes de 2027 — que, por sua vez, é o funil que decide quem entra nas seis vagas por gênero disponíveis em Los Angeles. É a mesma arquitetura de qualificação em cascata que expliquei em como funciona o ciclo classificatório olímpico pra LA 2028: campeonato continental primeiro, mundial depois, vaga olímpica só no fim da linha.

Onde essa corrida pode falhar pro Brasil

A honestidade aqui importa mais do que o entusiasmo. Seis vagas por gênero, no mundo inteiro, é pouquíssimo espaço — e Estados Unidos, Canadá e Haudenosaunee Nationals chegam a essa disputa com décadas de estrutura, enquanto o Brasil chega com uma confederação de poucos anos e um orçamento amador. O caminho mais realista não é medalha em 2028: é sobreviver ao próprio ciclo, aparecer no Pan-Americano de 2026 sem tomar goleada disparada, e usar o resultado como base pra crescer a base de praticantes dentro do país — o mesmo cálculo que outros esportes recém-chegados ao programa de LA 2028 estão fazendo enquanto tentam converter uma vaga na Olimpíada em estrutura permanente depois dela.

Tem ainda um risco que nenhuma federação nova controla: esporte-teste em programa olímpico às vezes desaparece na edição seguinte, se a audiência não aparecer ou se o país-sede seguinte não tiver interesse em bancar de novo. Lacrosse ficou de fora dos Jogos por mais de um século inteiro depois da última aparição — não é garantia nenhuma de permanência só porque voltou uma vez.

Ainda assim, o dado que fica é este: em 2023 o Brasil não tinha lacrosse organizado o suficiente pra fazer parte de nada. Em 2025, já perdeu uma prorrogação por um gol pra uma seleção estabelecida como a Argentina. Não é o roteiro de quem vai brigar por ouro em 2028. É o roteiro de quem constrói o próprio lugar na fila, um torneio de cada vez.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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