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sábado, 19 de setembro de 2026
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Beisebol sumiu das Olimpíadas por 20 anos, volta em LA 2028 — e o Brasil chega com prata de Pan, não com vaga garantida

A Coreia do Sul venceu Cuba por 3 a 2 em Pequim 2008 no último jogo olímpico de beisebol antes de o esporte sumir do programa. Volta em Los Angeles 2028 ao lado do softbol. Expliquei o formato, as regras básicas pra quem nunca assistiu e onde o Brasil entra nessa conta.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Arremessador de beisebol em movimento de lançamento durante partida em estádio
Arremessador de beisebol em movimento de lançamento durante partida em estádio

Dia 22 de agosto de 2008, Wukesong Baseball Field, Pequim. Primeiro inning, Lee Yong-kyu conecta um home run de dois pontos que praticamente decide o jogo antes de ele esquentar. A Coreia do Sul fecha em 3 a 2 sobre Cuba e leva o ouro olímpico de beisebol — o último distribuído numa Olimpíada por quase duas décadas inteiras.

Ninguém em campo naquele dia sabia que estava jogando a despedida. Um mês depois, em Singapura, o Comitê Olímpico Internacional votou pra tirar beisebol e softbol do programa a partir de Londres 2012. Foi a primeira vez desde o polo em 1936 que um esporte saía dos Jogos por decisão direta do COI. Agora os dois voltam juntos em Los Angeles 2028 — e voltam pela porta que a maioria dos esportes novos desse ciclo está usando: escolha do país-sede, não mérito olímpico puro.

O que aconteceu entre um adeus e dois retornos

A saída de 2005 não foi acidente de percurso — foi resultado de queixa recorrente: os dois esportes tinham pouca presença fora das Américas e da Ásia, e o beisebol carregava o problema extra de nunca liberar os astros da MLB pra disputar Jogos, o que esvaziava o produto na frente das câmeras. Softbol saiu no mesmo pacote mesmo sem esse problema — o COI tratou os dois como um bloco só, o que gerou revolta legítima nas federações do esporte feminino até hoje.

O primeiro retorno foi pontual: Tóquio 2020 (disputado em 2021) trouxe os dois de volta porque o Japão, como país-sede, tinha o direito de propor adições ao programa — e escolheu recolocar em cena o esporte que criou boa parte da própria identidade esportiva nacional. Japão venceu o ouro do softbol contra os Estados Unidos por 2 a 0, quebrando um domínio americano que vinha desde Atlanta 1996. Depois de Tóquio, os dois esportes saíram de novo — não fazem parte do programa fixo de Paris 2024.

Los Angeles 2028 repete a mesma lógica de Tóquio, mas em escala maior: o comitê organizador LA28 propôs cinco adições pra essa edição — beisebol/softbol, críquete, flag football, squash e lacrosse — e o COI aprovou todas na 141ª sessão. É o mesmo mecanismo que trouxe de volta o críquete depois de 128 anos fora: o país que sedia os Jogos ganha carta branca pra colocar no programa esportes que já são populares em casa, mesmo sem tradição olímpica recente. Beisebol e softbol são, disparado, os mais lógicos dessa lista pra um anfitrião americano — e os únicos com estádio pronto: o masculino joga no Dodger Stadium, de 15 a 20 de julho, e o feminino no OKC Softball Park, em Oklahoma City, de 23 a 29 de julho. Seis seleções por gênero, 24 atletas no elenco masculino, 15 no feminino — total de 90 mulheres na disputa de softbol.

Por que isso importa pra quem vai assistir sem nunca ter visto um jogo

Beisebol e softbol parecem o mesmo esporte de longe e não são — a diferença central está em como a bola sai da mão do arremessador. No beisebol, o lançamento é por cima (overhand), da distância de 18,4 metros, com a bola menor e mais dura. No softbol, é por baixo (underhand, com o braço girando tipo moinho — o “windmill”), a apenas 13 metros do rebatedor, com uma bola mais larga. Essa diferença de ângulo e distância muda o jogo inteiro: no softbol, a reação do rebatedor pra decidir se ataca ou não é mais curta em tempo real do que no beisebol, mesmo a bola chegando mais devagar em quilômetros por hora — é ilusão de ótica que só faz sentido depois que alguém explica.

O resto da lógica é parecida nos dois: uma equipe ataca (tenta correr as bases e pontuar) enquanto a outra defende (tenta eliminar o rebatedor antes disso). Três strikes eliminam o batedor, três eliminações fecham o turno de ataque daquele “inning” — o equivalente ao tempo de outros esportes. A diferença que mais confunde iniciante é a duração: beisebol joga 9 innings, softbol joga 7, e o campo de softbol é sensivelmente menor, então o jogo tende a ser mais rápido e mais recheado de rebatidas em sequência. Se você já assistiu um jogo de beisebol universitário americano em filme e achou arrastado, vale saber que softbol resolve exatamente essa reclamação.

Onde o Brasil entra nessa conta

Aqui está o dado que ninguém junta: dos cinco esportes que os Estados Unidos escolheram pra abrir a casa em LA 2028, quatro não têm nenhuma base histórica relevante no Brasil — e beisebol é a única exceção de verdade, só que por um motivo bem específico. O esporte chegou ao país pela imigração japonesa a partir de 1908, ficou concentrado quase inteiro em São Paulo e no norte do Paraná, e nunca saiu de um circuito amador de cerca de 30 mil praticantes filiados à Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol. É pouco pra padrão olímpico — mas é mais estrutura do que criquete ou lacrosse têm por aqui, que é zero.

E tem um nome que prova que dá pra sair desse circuito: Yan Gomes, nascido em Mogi das Cruzes, primeiro brasileiro a jogar na MLB, campeão da World Series de 2019 pelo Washington Nationals, All-Star em 2018. Gomes chegou a defender a seleção brasileira nas eliminatórias do World Baseball Classic — prova de que o funil “comunidade nipo-brasileira formando atleta desde criança” já produziu, pelo menos uma vez, um jogador de nível de elite mundial. O problema não é talento zerado, é escala: uma federação de 30 mil praticantes não sustenta um pipeline constante do jeito que sustenta, por exemplo, o vôlei ou a natação no país.

Isso deixa o Brasil numa posição parecida com a do squash rumo a LA 2028: sem chance real de vaga pelo ranking mundial, mas com um caminho continental que ainda não fechou. A seleção brasileira é oito vezes campeã sul-americana e ficou com a prata inédita no Pan-Americano de 2023 — resultado forte o bastante pra sonhar com uma vaga via qualificatório das Américas, já que Estados Unidos entra automático como país-sede e sobra disputa pro resto do continente. Não é favoritismo, é frincha: a mesma lógica de como funciona o sistema de qualificação olímpica pro ciclo 2026, em que uma vaga continental aberta vale mais do que ranking mundial pra país sem tradição.

O que fazer com essa informação agora

Se beisebol e softbol te interessam por causa de LA 2028, o calendário que importa acompanhar de perto é o de 2026 e 2027: República Dominicana e Venezuela já garantiram vaga olímpica de beisebol pela semifinal do World Baseball Classic 2026, o que mostra que o torneio mundial virou, na prática, a porta de entrada principal pro continente americano — e é ali, não num ranking anual qualquer, que o Brasil vai jogar a próxima chance real. No softbol, vale seguir a Copa do Mundo da WBSC e o qualificatório continental das Américas, que ainda tem vaga em aberto.

A aposta mais honesta que dá pra fazer hoje: o Brasil não chega a LA 2028 favorito em nenhum dos dois esportes, mas também não é mais o país sem histórico que a maioria assume que é. Entre a prata do Pan de 2023 e o precedente de Yan Gomes na World Series, tem material suficiente pra pelo menos brigar pela vaga das Américas — o que, pra um esporte que sumiu do imaginário esportivo brasileiro por vinte anos, já seria uma virada digna de manchete.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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