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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Olimpíadas

Ana Marcela Cunha levou 20 anos para o ouro olímpico — e a maratona aquática é o único esporte em que isso faz sentido

Em 2008, aos 16 anos, Ana Marcela Cunha nadava sua primeira Olimpíada e terminava em 5º. O ouro só veio 13 anos depois, em Tóquio, e ela mira LA 2028, aos 36, como despedida. Defendo a tese de que a maratona aquática é o raro esporte olímpico em que a curva de desempenho sobe com a idade — e explico onde essa tese quase quebra com os resultados dela em 2025.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Nadadora de maratona aquática competindo em águas abertas ao amanhecer
Nadadora de maratona aquática competindo em águas abertas ao amanhecer

Dez horas e meia nadando no escuro. Foi assim que Ana Marcela Cunha treinou, em pleno inverno paulistano, dentro da represa Billings — sem ver o sol se mover, sem outra referência de tempo além da própria braçada. “Para mim, o tempo não passava, porque você não vê o sol se mexer”, contou ela depois. O treino não era um capricho: era preparação pra nadar os 42,9 km do Canal da Mancha, o que ela completou em 8h25min29s, recorde sul-americano entre homens e mulheres. Ela tinha 34 anos.

A maioria dos esportes olímpicos trata isso como exceção heroica — o veterano que ainda aguenta. Na maratona aquática, eu acho que é a regra: é o raro esporte em que a curva de desempenho não desce com a idade, ela sobe até um pico tardio, porque o que decide a prova é leitura de mar, gestão de posição e cabeça fria em 2 horas de nado em massa — coisa que só se aprende competindo, ano após ano. É essa lógica que sustenta a aposta de Ana Marcela em LA 2028, aos 36 anos, como Olimpíada de despedida, e não como teimosia de quem não sabe a hora de parar.

A tese: experiência é a moeda desse esporte, não velocidade de estreante

Repare na trajetória dela em quatro Olimpíadas. Em Pequim 2008, aos 16 anos, na estreia olímpica, terminou em 5º lugar — resultado bom pra idade, mas sem pódio. No Rio 2016, aos 24, com mais oito anos de prova nas costas, caiu pra 10º. Só em Tóquio 2020 (disputada em 2021), aos 28 anos, veio o ouro, com 1h59min30s8. Em Paris 2024, aos 32, ficou em 4º, a poucos segundos do pódio. O melhor resultado da carreira dela não veio na juventude explosiva da estreia — veio treze anos depois, no meio da curva, quando o corpo ainda aguentava e a cabeça já sabia ler a prova.

Três evidências que sustentam essa leitura

1. A curva olímpica dela mesma. Quatro Olimpíadas disputadas — Pequim, Rio, Tóquio, Paris —, dezesseis anos de intervalo entre a estreia e a mais recente, com o pico exatamente no meio da carreira, não no início nem no fim. Ela nem chegou a Londres 2012: ficou fora da vaga por menos de um segundo no Mundial de 2011. Se a maratona aquática fosse um esporte de explosão física pura, o resultado normal seria o oposto: melhor cedo, pior tarde.

2. O que a prova cobra tecnicamente. Numa largada em massa de até 25 nadadoras batendo braço lado a lado, sem raias, com contato incidental permitido, o que separa quem termina no pódio de quem termina exausto no meio do pelotão é posicionamento: onde ficar no “trem” de nadadoras pra economizar energia, quando atacar, como ler a correnteza do trajeto. Isso não dá pra simular em piscina — só se aprende competindo em água aberta, prova após prova, ano após ano.

3. A travessia do Canal da Mancha. Aos 34 anos, num esporte historicamente dominado por travessistas mais jovens buscando recorde de tempo, Ana Marcela nadou 42,9 km em 8h25min e cravou o recorde sul-americano — não uma prova olímpica, mas uma amostra de que o corpo dela, naquela idade, ainda produzia resultado histórico em resistência extrema. Ela mesma resumiu o cálculo: “ou você faz muito jovem, quando não entende do mar e só cai na água, ou você precisa ter experiência e maturidade pra chegar no momento certo”.

Onde a minha tese quase quebra

Aqui vai o contra-argumento honesto, porque ele existe e é forte: se experiência sempre vencesse, Ana Marcela devia estar melhorando ano a ano depois do ouro de Tóquio — e não foi isso que aconteceu. No Mundial de Esportes Aquáticos de 2025, em Cingapura, ela terminou em 6º nos 10 km, 8º nos 5 km e foi eliminada na semifinal do sprint de 3 km, sem nenhuma medalha. Depois da prova, ela mesma admitiu a dúvida: “sempre foi um sonho ganhar essa medalha [de ouro nos 10 km], mas ainda não foi e não sei se terá outra chance.”

Isso não derruba a tese — mas mostra que ela tem prazo de validade. A curva de experiência sobe até um pico e depois estabiliza ou cai, como qualquer curva de carreira; ela só demora mais pra cair na maratona aquática do que em esportes de explosão pura, tipo o boxe olímpico, onde reflexo e potência de socos deterioram mais cedo. Aos 33 anos em 2025, Ana Marcela já estava do lado descendente dessa curva. A pergunta real pra LA 2028 não é “a experiência ainda ajuda?” — é “ela ainda ajuda o suficiente pra compensar três anos a mais de idade?”

Onde isso leva o Brasil

Enquanto isso, Viviane Jungblut — companheira de Ana Marcela nas águas abertas e, até 2024, também nadadora de piscina nos 800 m e 1.500 m livre — vivia a melhor temporada de águas abertas da carreira dela no circuito mundial daquele ano, com dois pódios individuais e uma inédita medalha no revezamento misto 4x1.500 m, fechando em 3º lugar geral do ranking do circuito — atrás só da alemã Lea Boy e da própria Ana Marcela, líder disparada. Na Olimpíada de Paris 2024, Jungblut terminou em 11º, atrás da veterana. Se a leitura de mar realmente pesa tanto quanto eu defendo aqui, o intervalo entre as duas brasileiras deveria diminuir com o tempo — e é esse o número que eu vou olhar primeiro quando o ciclo classificatório de LA 2028 entrar na fase decisiva, em 2027.

Minha aposta: Ana Marcela chega a Los Angeles sem favoritismo de ouro — isso ficou pra trás em Tóquio —, mas com chance real de pódio, porque o traço que ela mais tem é justamente o que essa prova mais cobra. É um cálculo bem diferente do que vale, por exemplo, na natação de piscina, onde detalhe técnico de virada em fração de segundo pesa mais que quilometragem de carreira, ou no tênis, onde resistência aeróbica pura nem é o que decide um Grand Slam. Na maratona aquática, resistência acumulada — de corpo e de prova — ainda é rei. Só não é mais garantia de ouro.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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