Criquete volta aos Jogos Olímpicos depois de 128 anos - e o Brasil nem tem federação forte pra sonhar com vaga
Em 1900, uma partida de dois dias entre Grã-Bretanha e França decidiu o único ouro olímpico da história do criquete. Em 2028, o esporte volta em formato T20 de 3 horas. Expliquei o formato novo, a disputa de vagas e por que o Brasil está fora dessa conta.
Dia 19 de agosto de 1900, Vélodrome de Vincennes, Paris. Um time chamado “Devon and Somerset Wanderers” - na prática, um combinado britânico de expatriados - enfrentou uma seleção francesa formada majoritariamente por outros ingleses que moravam na França. Foram dois dias de jogo, terminando com vitória britânica por 158 corridas de diferença, conforme o histórico oficial do Comitê Olímpico Internacional. Ninguém sabia, na hora, que aquela seria a única partida de criquete disputada numa Olimpíada por mais de um século inteiro.
Em 2028, em Los Angeles, o criquete volta. E volta irreconhecível pra quem lembra da versão de 1900 - inclusive pra quem só conhece o esporte pelas partidas de cinco dias que ainda dominam o imaginário de quem nunca assistiu.
O que aconteceu: de dois dias pra três horas
A diferença entre o criquete de 1900 e o de LA 2028 não é de regra pontual - é de formato inteiro. O criquete tradicional (Test cricket) pode durar cinco dias. A modalidade escolhida pra LA 2028 é o T20, que limita cada equipe a 20 overs (turnos de seis lançamentos) por entrada e faz a partida inteira durar cerca de três horas, segundo o guia oficial do evento. É o mesmo salto que o vôlei de praia representou pro vôlei de quadra: formato mais curto, mais tevê-friendly, pensado pra caber num calendário olímpico apertado.
O torneio vai ter seis seleções masculinas e seis femininas, com 90 vagas de atleta por gênero - suficiente pra cada equipe levar elenco de 15 jogadores, sendo 11 titulares e 4 reservas por partida. As disputas acontecem em fase de grupos (dois grupos de três times cada), com os dois primeiros de cada chave avançando pra semifinal. As partidas serão realizadas no Fairgrounds Stadium, uma arena temporária em Pomona, a cerca de 50 km do centro de Los Angeles - e o torneio começa em 12 de julho de 2028, dois dias antes até da cerimônia de abertura oficial dos Jogos.
Por que isso importa pra quem nunca ligou pro esporte
A parte mais interessante do formato de LA 2028 não é o T20 em si - é como as seis vagas de cada chave vão ser decididas. O sistema usa um modelo continental: uma vaga garantida por continente olímpico, mais uma vaga por qualificatório global, de acordo com o mapeamento do próprio site oficial. Os Estados Unidos entram automaticamente como país-sede. As outras cinco vagas por gênero vão para as seleções mais bem ranqueadas de cada continente, usando o ranking T20I da ICC (International Cricket Council) numa data de corte em 2027.
Isso é relevante porque muda a régua de “quem é favorito”. Num esporte onde a força está concentrada quase toda no subcontinente indiano (Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh) e em ex-colônias britânicas (Austrália, Inglaterra, África do Sul, Nova Zelândia, Caribe), o corte continental garante presença de seleções de fora desse eixo - o que teoricamente abriria espaço pra América do Sul brigar por vaga.
Onde o Brasil fica nessa conta
Teoricamente é o continente sul-americano que teria a vaga. Na prática, o Brasil está longe de brigar por ela: a Argentina lidera o ranking regional sul-americano, com estrutura de liga amadora mais antiga que a brasileira, puxada por comunidades de imigrantes anglófonos no século 19. O criquete brasileiro existe - tem federação registrada na ICC - mas roda em escala amadora, sem liga profissional, sem calendário de TV, sem base de jogadores comparável ao que qualquer seleção competitiva de T20I precisa pra treinar formato de três horas contra defesa de padrão internacional.
Isso não é muito diferente do caminho que o flag football também precisou percorrer pra entrar em LA 2028 - esporte novo na Olimpíada não significa vaga fácil pro Brasil só porque o esporte é novo pra todo mundo. A vantagem de “começar do zero junto com o resto do mundo” só vale quando o país já tem alguma base histórica pra construir em cima - o que o Brasil tem, por exemplo, em hipismo e não tem em criquete.
O que fazer com essa informação agora
Se você é do tipo que gosta de acompanhar esporte “antes de virar mainstream”, o T20 masculino e feminino de LA 2028 é uma aposta de baixo custo: partida de três horas, regra relativamente simples de acompanhar assistindo (rebater, correr, lançar, pegar), e um campo de seis seleções por gênero que ainda não está fechado - o corte por ranking ICC de 2027 só vai definir os classificados no ano anterior aos Jogos. Vale acompanhar o ranking sul-americano nos próximos dois anos: se a Argentina consolidar a vaga continental, o torneio de LA 2028 vai chegar ao Brasil sem seleção própria em quadra - o que, para um país de tradição zero no esporte, ainda assim seria a curiosidade de assistir de fora um jogo que o mundo inteiro vai redescobrir junto.
Fontes
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


