Cotovelo de tenista: por que 9 em cada 10 casos não têm nada a ver com tênis
O nome sugere que é lesão de quem joga tênis, mas a maioria dos diagnósticos vem de pintor, cozinheiro e digitador. Reuni os números da AAOS e de dois estudos epidemiológicos pra explicar por que o amador de clube corre mais risco que o profissional - e o que fazer antes que a dor pare o jogo.
Marcelo tem 44 anos, joga tênis de clube às terças e quintas há oito anos e nunca fez uma aula de técnica na vida. Numa tarde de duplas, bateu um backhand mais forte que o normal pra salvar um ponto e sentiu uma fisgada na parte de fora do cotovelo direito. No dia seguinte, não conseguia segurar a xícara de café sem dor. O ortopedista confirmou o diagnóstico mais famoso do esporte - epicondilite lateral, o tal cotovelo de tenista - e Marcelo fez a pergunta óbvia: exagerou no saque? A resposta do médico foi mais interessante que a pergunta em si: a maioria dos pacientes que ele atende com esse diagnóstico nunca pegou numa raquete.
O nome engana desde que foi cunhado. Segundo a American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS), a lesão atinge sobretudo pintores, encanadores, cozinheiros, digitadores - qualquer ocupação que repete o mesmo giro de pulso milhares de vezes por semana. Só que, dentro do universo restrito de quem realmente joga tênis, o quadro se inverte de um jeito que nenhum amador de clube espera.
O paradoxo que dá nome à lesão
Comecemos pelos números que raramente aparecem juntos. Na população em geral, a epicondilite lateral atinge só 1% a 3% das pessoas - e mesmo essa fatia pequena vem caindo: um levantamento populacional citado pela revista Annals of Translational Medicine mediu 144 mil pessoas ao longo de 13 anos e viu a incidência recuar de 4,5 para 2,4 casos a cada mil habitantes entre 2000 e 2012, segundo a revisão publicada na PMC.
Agora o outro lado da conta: entre quem joga tênis com regularidade, a mesma lesão afeta 40% a 50% ao longo da vida - praticamente metade de qualquer grupo de clube que treina duas ou três vezes por semana há anos. Um estudo transversal de 2025 publicado na Musculoskeletal Care foi além e mapeou onde dói em jogadores recreativos: o cotovelo apareceu em 34,9% dos relatos de lesão, atrás só do tornozelo, segundo o levantamento de Akdoğan e colegas na Wiley Online Library.
Junte as duas pontas e a ironia fica clara: quem dá nome à lesão é minoria entre quem sofre com ela, mas é maioria absoluta dentro do próprio esporte que a batizou. E o detalhe que a AAOS registra e quase ninguém repete - o braço dominante está envolvido em cerca de 84% dos casos, e o pico de idade fica entre 30 e 50 anos, exatamente a faixa que domina as quadras de clube num sábado de manhã.
A técnica de amador dói mais do que a de profissional
Por que o jogador recreativo sofre tanto mais que o profissional de circuito, se os dois batem a mesma bola? A resposta não é sobre talento - é sobre cadeia cinética. O golpe de tênis nunca deveria ser resolvido só no antebraço: a força sai da rotação do tronco e da perna, passa pelo ombro, e chega no punho já dissipada. Quando a técnica falha - corpo parado, braço tentando gerar toda a potência sozinho -, o tendão extensor radial curto do carpo (ECRB), que se prende bem na região externa do cotovelo, absorve um impacto repetitivo que nunca foi desenhado pra receber.
Três fatores de equipamento entram direto nessa conta, e a maioria do jogador de clube nunca ajustou nenhum dos três. Primeiro, o tamanho do cabo da raquete: pegada errada obriga a mão a se fechar com mais força do que deveria pra manter controle, e isso já apareceu em comparações de como escolher peso, grip e tamanho de cabeça de raquete certos pro próprio jogo. Segundo, a tensão da corda: corda muito esticada transmite mais vibração de impacto pro braço a cada bola, o mesmo raciocínio que explica por que profissionais trocam de raquete e ajustam tensão de corda com frequência que nenhum amador replica. Terceiro, a técnica do backhand: quem bate de uma mão só, sem o apoio da outra na preparação, concentra mais estresse no cotovelo do que quem usa duas mãos - é um dos motivos que torna a escolha entre backhand de uma mão e de duas mãos mais que estética, principalmente pra quem já sente dor.
Tem ainda o fator que a AAOS lista sem meias-palavras: aquecimento. Jogador de clube costuma alongar perna e ombro antes de entrar em quadra e esquecer o punho e o antebraço inteiramente - a mesma lacuna que aparece quando se olha o que realmente decide o condicionamento físico em Grand Slam: preparo físico não é só perna correndo atrás de bola, é o corpo inteiro pronto pra receber impacto repetido.
O que fazer com isso agora
Não existe fórmula mágica, mas a AAOS resume um caminho que reduz risco e, se a dor já apareceu, também trata:
- Ajuste o equipamento antes de qualquer outra coisa. Grip do tamanho certo e corda um pouco mais frouxa cortam a vibração que chega no cotovelo a cada tacada - é o ajuste mais barato e mais ignorado do circuito amador.
- Aqueça punho e antebraço, não só perna. Rotação de punho e alongamento leve dos extensores antes de entrar em quadra levam menos de dois minutos e mudam a resposta do tendão ao primeiro impacto forte.
- Revise a técnica do golpe que dói - geralmente o backhand. Um professor consegue identificar em minutos se a potência está saindo do tronco ou só do braço; a correção costuma valer mais que qualquer equipamento novo.
- Ao primeiro sinal de dor, pare e trate cedo. Repouso relativo e gelo nas primeiras 48 horas evitam que uma irritação vire lesão crônica - continuar jogando “mesmo assim” é o erro mais comum que os ortopedistas relatam.
- Procure avaliação se a dor passar de duas ou três semanas, ou vier com perda de força de pegada. A notícia boa: entre 80% e 95% dos casos respondem bem a tratamento sem cirurgia, e operação só entra em discussão depois de seis a 12 meses de tratamento conservador sem melhora, conforme o resumo clínico da AAOS.
Minha leitura depois de anos vendo gente de clube jogar sem nunca ter feito uma aula: cotovelo de tenista quase nunca é sobre idade nem sobre força - é sobre décadas de repetição sem um único ajuste no meio do caminho. Corrigir grip, corda e técnica custa uma tarde com um professor. Ignorar os três custa meses fora de quadra.
Fontes
- American Academy of Orthopaedic Surgeons (OrthoInfo) - Tennis Elbow (Lateral Epicondylitis): orthoinfo.org
- Annals of Translational Medicine (via PMC) - The epidemiology and health care burden of tennis elbow: a population-based study: pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- Musculoskeletal Care (Wiley Online Library) - Musculoskeletal Injury Patterns and Associations With Potentially Modifiable Factors Among Recreational Tennis Players (Akdoğan et al., 2025): onlinelibrary.wiley.com
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


