Troca de bolas no tênis: por que sempre depois do sétimo game (e não do oitavo)
Toda partida profissional troca a primeira bola depois de sete games, nunca seis ou oito. Em agosto de 2026 o ATP testou mudar esse número pela primeira vez em décadas - e a resposta de Taylor Fritz resume o problema que a regra nunca resolveu de verdade.
Em agosto de 2026, um Challenger em Lexington, no Kentucky, testou uma coisa que nenhum torneio do circuito principal tinha mexido em décadas: trocar as bolas depois de cinco games, e não sete. Taylor Fritz resumiu o motivo numa frase, direto pra imprensa que cobria o teste: “sete e nove é demais”. Ele não estava reclamando de regra por reclamar - estava descrevendo o que sente em quadra nos dois últimos games antes da troca, quando a bola já perdeu metade do que era no tubo.
A versão de 30 segundos
A regra padrão do circuito - Grand Slams, ATP, WTA - é trocar a primeira bola depois de sete games, e depois disso a cada nove games. O número sete existe porque o aquecimento antes da partida conta como o equivalente a dois games de batida forte; somado aos sete games reais, dá nove games de desgaste real de feltro até a primeira troca. Da segunda troca em diante, o ciclo já é limpo: nove games sem esse ajuste. Só que “sete e depois nove” não é universal - challengers, futures e torneios de altitude seguem números e materiais diferentes, e foi exatamente ali que o ATP decidiu testar mudança em 2026.
Conceito 1 - por que sete, e não seis ou oito
O erro mais comum de quem assiste tênis casualmente é achar que sete é um número escolhido por acaso, tipo “meio de um set”. Não é. Antes de qualquer partida em nível profissional, os dois jogadores batem bola por alguns minutos pra aquecer - e esse aquecimento desgasta a bola quase tanto quanto dois games completos de rali. Quem definiu a regra fez a conta ao contrário: se o ciclo ideal de desgaste é nove games de uso real, e o aquecimento já consome o equivalente a dois, sobram sete games de jogo pra completar o primeiro ciclo. Da segunda troca em diante não tem mais aquecimento pra descontar, então o número vira nove games cheios, sem ajuste. É basicamente a mesma bola sendo tratada com uma régua diferente na primeira rodada porque ela já nasceu “usada” antes do primeiro ponto oficial.
Conceito 2 - o que realmente estraga uma bola de tênis
Feltro não é decoração - é a peça que determina velocidade, quique e capacidade de gerar efeito. Cada batida na corda e cada quique na quadra arranca fibra microscópica dele, e o resultado que os jogadores descrevem como bola “morta” ou “bola-maçã” (a expressão que Daniil Medvedev já usou mais de uma vez, em Dubai e depois em Xangai, pra descrever como a bola incha e fica felpuda demais nos últimos games antes da troca) é o feltro perdendo densidade ao mesmo tempo que a pressão interna cai. São dois processos separados acontecendo juntos: o feltro que engorda e freia a bola no ar, e o ar interno que escapa e reduz o quique. A regra do sétimo game ataca só uma consequência combinada dos dois - não resolve nenhum dos dois problemas na origem, só limita quanto tempo cada bola fica em uso antes de virar outra.
Isso explica por que ATP e WTA nem usam a mesma bola: o circuito masculino joga com “extra-duty felt” (mais fibra, pensado pra quadra dura, que resiste mais mas também amortece diferente) e o feminino usa “regular-duty felt” (camada mais fina, padrão de quadra de saibro e grama). Rafael Nadal já chamou a bola oficial do Australian Open, a Dunlop AO, de “qualidade pior” por perder pressão rápido demais; Marketa Vondrousova e Ons Jabeur atribuíram dor no cotovelo e no ombro ao peso das bolas extra-duty em temporadas recentes. A mesma regra de troca, aplicada a bolas de peso e feltro diferentes, produz sensação de desgaste completamente diferente - o que já é um problema parecido com o que muda quando um tenista troca de raquete e tensão de corda: o equipamento envelhece de um jeito que o olho não vê, mas a mão sente cedo.
Conceito 3 - a regra muda (bastante) fora do circuito principal
O “sete depois nove” que a maioria conhece vale pra Grand Slam, ATP e WTA Tour. Descendo um degrau, o ITF World Tennis Tour - onde jogam os futures e boa parte dos challengers - usa outro ciclo: no mínimo quatro bolas novas trocadas a cada nove games, e depois disso a cada onze. É mais bola aguentando mais tempo em quadra, reflexo direto de orçamento menor: bola de torneio custa dinheiro, e um evento de premiação de US$ 25 mil não tem o mesmo caixa pra reposição que um Masters 1000.
Em altitude, a lógica muda de vez. Cidade do México e Bogotá, tradicionalmente, adotaram bola sem pressão interna (pressureless) em vez de mexer no ciclo de troca - a regra da ITF libera esse tipo de bola pra jogo acima de 1.219 metros, desde que ela tenha passado por pelo menos 60 dias de aclimatação na altitude do próprio torneio. O motivo é físico, não estético: ar rarefeito oferece menos resistência, então uma bola pressurizada comum voa rápido demais e praticamente inviabiliza o jogo. Sem pressão interna pra perder, a bola de altitude também não sofre o mesmo tipo de desgaste que motiva a regra do sétimo game - o problema que a troca resolve em Paris ou Nova York simplesmente não existe do mesmo jeito em Bogotá.
Refiz a conta - e o número de Wimbledon não bate com o que a regra sugere
Se um set de simples costuma ter entre seis e oito games, e o primeiro ciclo de troca fecha no sétimo game, uma partida de três sets - algo perto de 22 a 26 games - passa por duas trocas oficiais na maioria dos casos, três se for pra cinco sets e demorada. Cada troca solta quatro bolas novas em quadra. Fazendo a conta simples: 8 a 16 bolas por partida, dependendo da duração.
Só que Wimbledon, sozinho, usa cerca de 54 mil bolas por ano - torneio que soma pouco mais de 650 partidas de simples e duplas nos quadros principais entre os dois naipes. Dividindo, dá uma média de 83 bolas por partida - de cinco a dez vezes mais do que a conta da regra de troca sugere. A diferença não é erro de conta: vem de aquecimento anterior à partida, sessões de treino dos jogadores na quadra reservada, bolas de reposição quando uma sai de linha ou vai pra arquibancada, e o consumo dos quadros de qualifying e categorias júnior que nem aparecem na estatística de “partida do quadro principal”. A regra do sétimo game controla o desgaste dentro do jogo oficial - mas é uma fração pequena do que realmente sai do estoque de um Grand Slam em duas semanas.
Onde a regra falha
O ciclo de sete-depois-nove trata cada game como unidade igual de desgaste, mas um game de quatro pontos secos não gasta bola do mesmo jeito que um game de doze pontos com rali longo e disputa de vantagem - a regra conta games, não tempo de bola em jogo. Some a isso que cada Grand Slam escolhe fornecedor próprio (Dunlop no Australian Open, Wilson em Roland Garros e no US Open, Slazenger em Wimbledon), então “trocar depois de sete games” não garante a mesma sensação de um torneio pro outro - só garante frequência parecida. Foi exatamente esse ponto cego, mais queixa recorrente de lesão associada ao peso da bola extra-duty, que levou o Player Advisory Council a aprovar o teste em Lexington com ciclo de cinco-depois-sete. Se o resultado convencer o suficiente pra virar padrão do Tour inteiro - o que ainda não é garantido -, será a primeira mudança real no número desde que a fórmula “aquecimento conta como dois games” foi fixada. Até lá, a bola muda de mão no sétimo game porque sempre mudou, não porque alguém tenha provado ser o intervalo ideal pra cada tipo de quadra que compõe a temporada.
O episódio também conecta com um debate que já cobri aqui: boa parte da queixa recente de jogador sobre bola pesada anda de mãos dadas com a discussão sobre o que realmente decide o desgaste físico numa maratona de Grand Slam - corpo e equipamento envelhecendo juntos, na mesma partida, no mesmo game.
Fontes
- Tennis.com - “The lingering debate on tennis balls used at ATP and WTA tournaments is a ball of confusion”: tennis.com
- Tennis Now - “ATP to Trial More Frequent Ball Changes at Upcoming Challenger in Lexington”: tennisnow.com
- Tennis Majors - “Medvedev claims Sinner, Alcaraz ‘benefit’ from tennis balls used at Shanghai Masters”: tennismajors.com
- EssentiallySports - “What Are The Tennis Balls Used at Grand Slams and Masters Tournaments?”: essentiallysports.com
- Bolavip - “Why do tennis players change balls every few games? A deep dive”: bolavip.com
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


