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quarta-feira, 5 de agosto de 2026
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Backhand de uma mão ou de duas: qual aprender e por que o circuito quase abandonou o clássico

A decisão entre backhand de uma mão e de duas define anos de treino e o teto do seu jogo. Um comparativo honesto de alcance, potência, bola alta e superfície — com o que os dados do circuito mostram.

Camila Bertoldo 7 min de leitura
Tenista executando backhand de uma mão com braço estendido e raquete em arco baixo
Tenista executando backhand de uma mão com braço estendido e raquete em arco baixo

Quando Roger Federer se aposentou, o circuito perdeu mais do que um jogador — perdeu a vitrine mais assistida de um gesto em extinção. Faça a conta: no top 20 masculino de meados de 2026, você conta nos dedos de uma mão quantos jogam backhand de uma mão. No feminino, é ainda mais raro. Se o backhand de uma mão é tão bonito e tão elogiado, por que quase ninguém o adota mais?

A pergunta que quem começa no tênis realmente digita no Google não é essa. É a versão prática: eu devo aprender backhand de uma mão ou de duas mãos? E a resposta honesta não é “depende” jogado no ar — é uma lista curta de critérios que decidem por você.

O que realmente decide entre um golpe e outro

Antes de qualquer preferência estética, cinco fatores mudam de peso conforme quem você é. Ignorar um deles é como escolher raquete pelo desenho do cabo.

1. Alcance. O backhand de uma mão tem o maior alcance de todos os golpes de fundo. Braço estendido, você chega em bolas que o jogador de duas mãos precisa correr para alcançar — a segunda mão encurta o raio. Em bola larga, puxada para fora da quadra, o de uma mão devolve o que o de duas mãos deixa passar.

2. Estabilidade sob potência. Aqui a balança vira. A segunda mão é um estabilizador. Contra saque pesado e bola vindo forte, o backhand de duas mãos absorve o impacto com menos tremor na face da raquete. É por isso que o devolvedor moderno — que precisa neutralizar saques de 200 km/h — quase sempre usa duas mãos.

3. Bola alta. O ponto fraco crônico do backhand de uma mão. Bola que quica acima do ombro obriga o braço a golpear numa altura desconfortável, com pouca alavanca. Um kick serve bem colocado no backhand de uma mão em saibro é quase uma sentença — e não por acaso. Se você entende como o kick serve sobe no corpo do adversário, entende exatamente onde o backhand clássico sangra.

4. Rotação e variação. O de uma mão produz slice de fundo mais natural e um topspin com curva mais acentuada — a mecânica do braço solto favorece as duas coisas. O de duas mãos é mais “reto”, mais previsível na rotação, mas mais fácil de controlar direção. Vale entender como topspin, slice e bola chapada mudam o comportamento da bola antes de decidir qual variação você quer no seu arsenal.

5. Curva de aprendizado. O de duas mãos é mais fácil de aprender. Ponto. A segunda mão perdoa erro de tempo, de posicionamento de pé e de altura de impacto. O de uma mão exige preparação mais cedo, footwork mais fino e timing quase perfeito — erre a preparação e a bola sai fraca ou fora.

Comparativo direto

CritérioUma mãoDuas mãos
AlcanceMaiorMenor
Estabilidade vs bola forteMenorMaior
Bola acima do ombroFracoBom
Slice naturalExcelentePrecisa soltar a mão
Facilidade de aprenderDifícilMais fácil
Disfarce (a favor da rede)MelhorBom
Exigência de footworkAltaMédia

O que a tabela não diz — e é o que importa — é o contexto histórico por trás dela. O tênis ficou mais rápido, mais potente e mais dominado por bola alta com topspin. As três coisas em que o backhand de uma mão é mais frágil. Não é que o golpe piorou; foi o jogo que mudou de terreno debaixo dele.

A escolha e por quê

Vou ser direta, porque é isso que você veio buscar.

Se você está começando agora e tem menos de 14 anos, aprenda de duas mãos. Curva mais suave, resultado mais rápido, e é o padrão do jogo competitivo atual. A grande maioria dos técnicos de base ensina assim por um motivo prático: entrega vitórias mais cedo, e vitória cedo mantém a criança na quadra.

Se você é adulto começando por lazer e não vai passar horas no footwork, também vá de duas mãos. Você não terá o volume de treino que o de uma mão exige para não virar um ponto fraco crônico.

Se você já joga, tem preparação sólida e sente que sua bola de fundo é reativa demais, aí o de uma mão faz sentido — desde que você aceite treinar a bola alta com obsessão. O de uma mão premia quem sobe à rede, quem varia com slice, quem gosta de tomar a iniciativa. Não é golpe defensivo; é golpe de quem ataca. E ataque de rede depende de o footwork te colocar em posição a tempo — sem pés, o backhand de uma mão não existe.

Uma nota pessoal que não vejo em quase nenhum guia: o backhand de uma mão envelhece pior. Perda de força de core e de mobilidade de ombro com a idade afeta mais o golpe de braço solto do que o de dois braços. Se o seu plano é jogar até os 60, isso pesa.

Por que ainda vale defender o backhand de uma mão

Não vou fingir neutralidade total — o golpe tem virtudes que o comparativo frio esconde.

Ele produz o melhor slice de fundo do tênis, e slice ainda é uma arma subestimada: quebra ritmo, força o adversário a levantar a bola, abre a quadra para o próximo golpe. Num circuito onde quase todo mundo bate topspin pesado de duas mãos, o slice baixo de uma mão vira uma pergunta que muitos não sabem responder.

E ele tem alcance e disfarce superiores na aproximação de rede. Stan Wawrinka construiu uma carreira de três Grand Slams em cima de um backhand de uma mão que era, provavelmente, o golpe mais forte do circuito no seu auge — prova de que o teto do golpe segue altíssimo. O ponto nunca foi que o de uma mão é ruim. É que ele é menos perdoador, e o tênis moderno castiga o que não perdoa.

O que fazer com isso agora

  • Iniciante ou adulto casual: duas mãos, sem hesitar.
  • Jovem competitivo com técnica em construção: duas mãos como base, e experimente o slice de uma mão como golpe complementar.
  • Jogador de nível médio-alto querendo mudar de estilo: só migre para uma mão se puder treinar bola alta e footwork 3× por semana. Caso contrário, você troca um golpe sólido por um ponto fraco.
  • Qualquer um com dor recorrente de punho ou cotovelo: converse com fisioterapeuta antes — a biomecânica dos dois golpes carrega estruturas diferentes.

Perguntas que aparecem antes de decidir

O backhand de uma mão é melhor no saibro ou na grama? Na grama, onde a bola quica mais baixa e o slice rende, ele brilha. No saibro, onde a bola sobe alto e lento, ele sofre com a bola acima do ombro — a mesma bola que o kick serve produz. Se você quer entender essa dinâmica a fundo, o comparativo entre saibro, grama e quadra rápida mostra por que a superfície muda o veredito.

Dá para trocar de duas mãos para uma mão depois de adulto? Dá, mas é um projeto de meses, não de semanas. Você reaprende preparação, ponto de impacto e footwork. A maioria dos adultos que tenta desiste no meio — e volta pior nos dois. Só encare se tiver tempo e paciência de treino.

Por que tantos profissionais femininas usam duas mãos? Estabilidade contra potência e facilidade de gerar força bimanual são vantagens grandes num circuito de trocas de fundo intensas. O de uma mão exige alavanca e força de braço que o modelo de duas mãos contorna — o que o torna a escolha estatisticamente dominante no WTA.

O backhand de uma mão dá mais lesão? Não há consenso de que seja “mais perigoso”. Ele distribui carga de forma diferente — mais no punho e no ombro do braço dominante, menos no dividido entre dois braços. Quem já tem histórico de tendinite no cotovelo costuma se adaptar melhor com dois braços, mas isso é individual e caso de avaliação clínica.


Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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