Copa Davis: por que a reforma bilionária que prometia salvar o torneio quase o matou
Em 2019, a ITF trocou o formato casa-e-fora da Copa Davis por um contrato de 25 anos e US$ 3 bilhões com a empresa de Gerard Piqué. O acordo não durou nem cinco temporadas. Reconstruí por que o modelo errou o alvo e o que muda na reforma de 2025.
A Copa Davis sempre vendeu a mesma promessa: nação contra nação, jogo em casa, torcida lotando arquibancada que não vê tênis o resto do ano. Em 2019, a Federação Internacional de Tênis (ITF) trocou essa promessa por um contrato de 25 anos e US$ 3 bilhões com a Kosmos, a empresa de investimentos de Gerard Piqué. A ideia era juntar tudo numa semana, numa cidade só, com pacote de TV padronizado - o modelo que funciona pra Champions League funcionaria pro tênis. Não funcionou. O próprio dinheiro que prometia salvar o torneio virou o motivo pelo qual ele quase morreu de arquibancada vazia.
A tese: dá pra vender pacote de TV ou dá pra vender identidade nacional, não as duas coisas juntas
Acompanhei as sete edições do modelo Kosmos e minha leitura é direta: a Copa Davis tentou empacotar rivalidade de país como se fosse um Masters 1000 qualquer - sede neutra, melhor de 3 sets, calendário fechado numa semana só. O mercado respondeu com a mesma opinião, do torcedor ao próprio jogador em quadra: perdeu-se justamente o que separava o torneio de qualquer outro evento da temporada.
Evidência 1 - o contrato de US$ 3 bilhões não durou nem um quinto do prazo
A Kosmos assinou 25 anos de exclusividade com a ITF em 2018, prometendo uma revolução comercial parecida com a que Piqué já tinha ajudado a desenhar no futebol. Cinco temporadas depois, o acordo desmoronou por problemas financeiros da própria empresa, segundo o levantamento da Bolavip sobre os planos seguintes de Piqué pro tênis. Vinte e cinco anos prometidos, cinco entregues - a conta fecha em exatamente um quinto do combinado, e a ITF teve que retomar a organização do torneio que tinha acabado de terceirizar.
Evidência 2 - o formato perdeu o que diferenciava a Davis Cup de qualquer ATP de terça-feira
Antes de 2019, cada eliminatória acontecia na casa de um dos dois países, em melhor de 5 sets - o mesmo formato que hoje só os Grand Slams masculinos ainda usam, como já expliquei no comparativo entre o formato masculino e feminino. O modelo Kosmos concentrou tudo numa cidade só (Madrid, na maioria dos anos) e reduziu as partidas pra melhor de 3 sets, o mesmo formato de qualquer torneio de nível ATP 250. Saiu o fator caseiro - torcida gritando pelo time local, quadra escolhida pelo anfitrião pra favorecer seu próprio estilo de jogo. Saiu também o desgaste físico que dava peso à vitória. Sobrou uma semana de tênis competente, mas sem nada que a distinguisse de qualquer outro torneio de equipes do calendário.
Evidência 3 - quando capitão, ex-número 1 e top 5 em atividade pedem a mesma coisa
Lleyton Hewitt, capitão da Austrália e ex-número 1 do mundo, John McEnroe e Stan Wawrinka criticaram publicamente a concentração da Copa Davis numa fase de grupos de sede única, segundo o resumo da 10sBalls sobre as mudanças de formato. Alexander Zverev, hoje um dos cinco melhores do circuito, foi mais direto: chamou o formato de errado e pediu explicitamente a volta das eliminatórias em casa e fora. Quando um capitão histórico, um comentarista lendário e um jogador em plena atividade concordam no mesmo ponto sem precisar se combinar, não é ranço de nostálgico - é sintoma de produto que errou o alvo.
O contra-argumento que eu levo a sério
Nem tudo no modelo antigo era perfeito, e seria desonesto fingir que sim. O formato pré-2019 espalhava a Copa Davis em fins de semana isolados ao longo do ano, competindo por atenção com Grand Slam e Masters 1000 - boa parte das eliminatórias de fase inicial acontecia em cidade sem cobertura internacional nenhuma, contra times sem chance real de avançar. Reunir os melhores jogadores do mundo na mesma semana resolve um problema real de calendário: o circuito já reclama de excesso de compromissos obrigatórios, e o desgaste físico que decide quem chega inteiro ao fim de um Grand Slam não perdoa quem soma semana extra de viagem só pra jogar uma eliminatória de primeira fase num país qualquer. Sede única também facilita vender um pacote de TV fechado pra uma emissora só, receita que sustenta parte da premiação coletiva - o mesmo tipo de dinheiro que, como mostrei ao recalcular quanto ganha quem cai cedo num Grand Slam, mantém viável a carreira de quem está fora do top 20.
Onde isso te leva: o meio-termo de 2025 não devolve os 5 sets
A reforma que entrou em vigor em 2025 tenta equilibrar as duas pontas. Em setembro, sete eliminatórias acontecem em casa ou fora, disputadas ao longo de dois dias - a torcida local volta a ter jogo pra ver de perto, conforme o anúncio oficial da ITF replicado pela 10sBalls. As sete seleções vencedoras se juntam ao país-sede em novembro, num Final 8 de sede única, formato que segue valendo pelos próximos dois anos. A Billie Jean King Cup, torneio equivalente do circuito feminino, migra pro mesmo desenho de oito times pra alinhar as duas competições sob o que o presidente da ITF, David Haggerty, já chama de “World Cup of Tennis”.
É melhor do que o modelo Kosmos puro - devolve ao menos uma fase inteira de jogo em casa, com torcida decidindo o resultado como sempre decidiu. Mas ainda não é o formato pré-2019: continua em melhor de 3 sets, e a fase decisiva segue concentrada numa sede só, sem a torcida do finalista derrotado presente pra empurrar o time até o fim. Minha leitura é que a ITF encontrou o meio-termo que o calendário moderno do tênis permite, não o que a nostalgia pede - e isso é, ao mesmo tempo, uma vitória parcial e a admissão de que o produto original não cabe mais inteiro na temporada atual.
Fontes
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


