Grand Slam em 5 sets: por que o masculino joga mais e o que isso muda no resultado
Masculino joga melhor de 5 sets nos Grand Slams; feminino joga melhor de 3. A diferença existe há décadas e muda quem tem vantagem — e por que isso importa mais do que parece.
Roland Garros, 2022. Rafael Nadal leva um set dos dois primeiros contra Novak Djokovic, vira, vence o quinto. Final de 4h21. É o tipo de partida que o tênis masculino oferece como produto principal: exaustão física visível, reviravolta dramática, desfecho que ninguém antecipa no intervalo do segundo set. Agora imagine a mesma partida em melhor de 3. O resultado seria o mesmo? Talvez. A tensão seria a mesma? Não.
Existe uma diferença de formato entre o tênis masculino e o feminino nos Grand Slams que faz parte da estrutura do esporte desde os anos 1980 — e que boa parte dos torcedores aceita sem questionar o motivo. Masculino joga melhor de 5 sets. Feminino joga melhor de 3. Mas por que? Quando foi decidido? E o que isso muda de verdade no resultado, no físico e na carreira de quem joga?
O critério que importa: o que cada formato premia
Antes de entrar no histórico, três variáveis definem o que o formato de sets muda concretamente no jogo.
Margem de virada. No melhor de 5, um jogador pode perder os dois primeiros sets e ainda vencer. Isso já aconteceu em finais de Grand Slam — o tie-break e super tie-break, como detalho em como funciona o tie-break e super tie-break no tênis, dão mais valor à consistência ao longo das horas. No melhor de 3, perder o primeiro set é uma pressão imediata: qualquer erro no segundo e acabou.
Desgaste físico acumulado. Um quinto set de Grand Slam pode durar mais de 90 minutos sozinho. Isso muda quem tem vantagem — jogadores com mais fôlego e resistência física encontram no formato longo uma recompensa que o formato curto não dá. No masculino, atletas com mais de 30 anos costumam se dar melhor contra favoritos mais jovens justamente porque sabem gerir o esforço ao longo de cinco sets.
Peso da especialização de superfície. No melhor de 5, o especialista de saibro em Roland Garros tem mais tempo para impor o ritmo lento que o favorece. No melhor de 3, um adversário mais rápido pode vencer num sprint antes que a partida canse. Como explico na análise sobre saibro, grama e quadra dura, o saibro premia quem tem fôlego — e o formato longo amplifica essa vantagem.
Por que o formato é diferente: o que se sabe e o que não está escrito em lugar nenhum
| Masculino (ATP) | Feminino (WTA) | |
|---|---|---|
| Format em Grand Slams | Melhor de 5 sets | Melhor de 3 sets |
| Format em outros torneios | Melhor de 3 sets | Melhor de 3 sets |
| Duração média de partida em Grand Slam | ~2h05 (ATP, 2024) | ~1h20 (WTA, 2024) |
| Virada de 0-2 para 3-2 possível? | Sim | Não |
| Decisão de format | Tradição + consenso ATP/Grand Slams | Tradição + consenso WTA |
A resposta honesta sobre a origem: não existe um documento histórico único que explique a escolha. O melhor de 5 no masculino é anterior à era profissional — era a norma em Grand Slams já no século XIX, quando o tênis era amador e masculino quase exclusivamente. O feminino competiu por décadas em melhor de 3 e nunca houve pressão institucional forte para mudar.
O que existe são dois argumentos que aparecem repetidamente no debate dentro do circuito:
Argumento da tradição: os Grand Slams preservaram o melhor de 5 no masculino como parte da identidade do evento. É o que distingue Roland Garros, Wimbledon, o Australian Open e o US Open dos 1000-pontos do calendário — onde homens e mulheres jogam o mesmo melhor de 3.
Argumento da igualdade (e os dois lados): desde os anos 1990, vozes dentro do WTA defendem que o feminino deveria jogar melhor de 5 também. O argumento é que isso valorizaria o produto e eliminaria a assimetria de formato. O contra-argumento — dito em voz baixa, mas presente — é que a duração maior de partidas masculinas é um dos fatores de diferença na exposição televisiva e, consequentemente, na receita dos torneios.
Nenhum Grand Slam mudou o formato nos últimos 40 anos.
O que os dados mostram sobre viradas
Na era profissional (1968 em diante), viradas de 0-2 para 3-2 em finais masculinas de Grand Slam são raras mas existem. O caso mais lembrado é Nadal em Roland Garros — e é exatamente por isso que a superfície e o formato andam juntos. Saibro lento + cinco sets = o melhor físico ganha mais do que o melhor artístico.
No feminino, uma virada começa com o segundo set. Não há margem para sair perdendo dois. Isso comprime a narrativa da partida — e também comprime o espaço para o jogador “encontrar o jogo” após um set de ajuste. Tenistas que precisam de tempo para calibrar o ritmo (típico de quem veio do saibro europeu, com quique alto e ponto longo) sofrem mais no melhor de 3 do que sofreriam em cinco sets.
O único ponto de equilíbrio: fora dos Grand Slams, homens e mulheres jogam o mesmo formato. Nos Masters 1000 — como explico em o que é o ranking ATP/WTA e como funcionam os pontos — a partida é melhor de 3 em todas as rodadas, inclusive finais. Então o melhor de 5 é uma exclusividade dos quatro Grand Slams masculinos.
Minha escolha: qual formato entrega melhor produto
Vou me posicionar porque acho que o debate é legítimo.
O melhor de 5 entrega o produto mais completo para o Grand Slam masculino. Não porque homens são “mais fortes” — mas porque a duração longa testa algo diferente do que o melhor de 3: consistência sob cansaço, ajuste tático entre sets, gestão emocional durante horas. É um teste diferente, não superior. E o tênis masculino de Grand Slam está construído em torno desse teste.
Para o feminino, o melhor de 3 não é um rebaixamento de formato. É um ritmo de jogo diferente — mais intenso por ponto, com menos margem para erro e menos capacidade de recuperação depois de um set mal jogado. Algumas das partidas mais intensas da história do tênis feminino foram em melhor de 3, justamente porque a pressão de cada ponto é maior quando não há quinto set pra recuperar.
O que seria sensato mudar? Se algum Grand Slam quisesse unificar, o caminho razoável seria o melhor de 5 também no feminino — não cortar o masculino para 3. Mas isso teria um custo real de programação (jornadas mais longas, mais pressão sobre jogadoras em torneios de sete dias consecutivos) e nenhum dos quatro Grand Slams sinalizou apetite para essa mudança no horizonte próximo.
Perguntas que aparecem direto
Por que nos outros torneios ATP o formato é melhor de 3, igual ao WTA? Logística e calendário. Um torneio Masters 1000 tem 96 jogadores no chaveamento principal e precisa cabem em uma semana. Com melhor de 5, a programação quebraria. O melhor de 5 só sobrevive nos Grand Slams porque eles têm duas semanas de duração e infraestrutura para absorver partidas longas.
Houve algum movimento recente para mudar o formato nos Grand Slams femininos? Sim. Em 2016 e 2022, o tema voltou ao debate dentro do circuito WTA, com apoio de algumas jogadoras de elite. A WTA considerou um projeto-piloto de melhor de 5 em pelo menos um Grand Slam, mas nenhum dos quatro eventos aceitou implementar. O status é: debate existente, sem mudança prevista.
O formato muda o número de pontos do ranking que uma jogadora pode acumular? Não diretamente. Os pontos por rodada são iguais independente de quantos sets a partida teve. Mas indiretamente sim: jogadoras que se especializam em saibro lento ganham mais pontos em Roland Garros do que em qualquer outra superfície — e o formato de sets influencia quem vai mais fundo nesse torneio.
Fontes
- ATP Tour — Grand Slam Regulations e format overview — base para o formato oficial de sets nos torneios do circuito masculino
- WTA — Official Rules and Regulations — base para o formato oficial no circuito feminino
- ITF — History of Tennis — referência histórica sobre a origem das regras de Grand Slam
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


