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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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ATP Finals: como o round robin decide quem avança (e por que 2-1 pode ganhar de 2-0)

O ATP Finals não é mata-mata: são dois grupos de quatro e uma lista de desempate que quase ninguém lê. Com o regulamento oficial de 2026 na mão, um exemplo calculado de empate triplo e o motivo de o confronto direto às vezes não valer nada.

Camila Bertoldo 6 min de leitura
Quadra dura coberta vazia sob iluminação de arena, pronta para uma partida de tênis
Quadra dura coberta vazia sob iluminação de arena, pronta para uma partida de tênis

Imagine três tenistas empatados com uma vitória e duas derrotas, o primeiro venceu o segundo, o segundo venceu o terceiro e o terceiro venceu o primeiro. Um triângulo perfeito, sem ponta pra puxar. Quem passa pra semifinal? Esse cenário pode acontecer em novembro, em Turim, e o regulamento tem uma resposta escrita pra ele. O problema é que quase ninguém no sofá sabe qual é.

A versão de 30 segundos

Oito jogadores, dois grupos de quatro. Cada um enfrenta os outros três do próprio grupo, sempre em melhor de três sets com tie-break em todos eles, inclusive no terceiro. Os dois primeiros de cada grupo vão pra semifinal. O vencedor de um grupo cruza com o segundo do outro, e daí em diante é mata-mata. O torneio está marcado para 15 a 22 de novembro, na Inalpi Arena, em Turim, de acordo com a página do torneio na Wikipédia.

A composição dos grupos não é sorteio puro. Pelo regulamento da ATP, o cabeça de chave 1 vai pro Grupo A e o 2 pro Grupo B. Os demais caem em pares (3 e 4, 5 e 6, 7 e 8), e o primeiro nome sorteado de cada par vai pro A. É a mesma ideia de proteger os melhores que explico em cabeça de chave no tênis, só que numa chave que nem existe ainda.

E a vaga em si? Vem do Race (o placar da temporada corrente), não do ranking de 52 semanas: os sete primeiros colocados depois do Masters 1000 de Paris, com exceções para campeões de Slam bem posicionados. A diferença entre as duas listas está no texto sobre Race vs Ranking.

A lista de desempate, na ordem

O regulamento manda aplicar o primeiro critério que resolver o empate:

  1. Maior número de vitórias.
  2. Maior número de partidas disputadas.
  3. Confronto direto, se o empate for só entre dois jogadores.
  4. Se o empate for entre três: porcentagem de sets ganhos, depois porcentagem de games ganhos, depois a posição no ranking ATP da segunda-feira após o último torneio do ano.

O segundo item é o que desorienta. O próprio regulamento traz o comentário: um 2-1 vence um 2-0, e um 1-2 vence um 1-0. À primeira vista parece absurdo, porque quem perdeu mais ficou na frente.

Por que o 2-1 passa o 2-0

Pense no que aconteceria sem essa regra. Um jogador ganha a estreia, sente uma dor, e se retira antes do segundo jogo. Com 1-0 e nenhuma derrota, ficaria na frente de quem jogou três vezes e fez 1-2. O critério de partidas disputadas fecha essa porta: quem entrou em quadra e arriscou mais vale mais.

Isso conversa com outra linha do texto oficial: quem desiste de qualquer partida depois da primeira rodada do round robin não pode disputar a semifinal. Minha leitura é que a ATP quer duas coisas ao mesmo tempo, que o espectador pague por três jogos de cada um e que ninguém administre o corpo com calculadora na mão. Pode-se discutir se isso é justo com quem se machuca de verdade, mas a intenção é clara.

Há uma proteção parecida no caso de abandono: se alguém se retira no meio de um jogo, o regulamento conta como vitória ou derrota por dois sets a zero, e os games daquela partida ficam de fora do cálculo de porcentagem. Assim ninguém sai de quadra de propósito depois de garantir um set.

O empate triplo, com conta

O elemento que o regulamento não entrega pronto é o cálculo com números reais, então fiz um exemplo hipotético. Um grupo com o jogador X, que vence os três jogos, e três perseguidores empatados com 1-2, cada um tendo jogado as três partidas:

  • B perde de X por 0-2, vence C por 2-0 e perde de D por 1-2.
  • C perde de X por 0-2, perde de B por 0-2 e vence D por 2-1.
  • D perde de X por 0-2, perde de C por 1-2 e vence B por 2-1.

Triângulo fechado: B bateu C, C bateu D, D bateu B. O confronto direto não resolve nada, porque cada um tem uma vitória e uma derrota contra os outros dois. Vão pra porcentagem de sets:

JogadorSets ganhosSets perdidos% de sets
B3442,9%
D3537,5%
C2528,6%

B fica com a segunda vaga do grupo, mesmo tendo perdido justamente do D no duelo direto entre os dois. Essa é a pegadinha: quando o empate é entre três, o confronto direto só entra no fim, se sobrar um par ainda empatado depois da porcentagem de sets ou de games, como mostram os exemplos 4 e 5 do próprio regulamento. Em outras palavras, perder o jogo que parecia o decisivo não condena você. Ganhar set por 2-1 em vez de por 2-0 pesa mais do que parece.

Se as porcentagens de sets também empatassem, entrariam os games. E se nem isso resolvesse, o ranking de fim de temporada decide. É o último critério, e o torneio raramente chega lá.

O que isso muda no jeito de ver os jogos

Dois hábitos de torcedor que o formato castiga:

  • Ignorar o placar dos sets na terceira rodada. Se o grupo está embolado, cada game conta. Um 7-6, 6-4 e um 6-0, 6-0 valem a mesma vitória na tabela, mas não valem o mesmo na porcentagem.
  • Achar que 2-0 é vaga garantida. Com três jogadores no 1-2 e um com 2-1 ou 3-0, a conta de sets pode ser decisiva, e dá pra montar o cenário do começo deste texto.

Quem gosta dessa lógica de tabela com critérios encadeados pode comparar com o desempate dos grupos da Copa de 2026 no futebol: lá o saldo de gols faz o papel que aqui cabe à porcentagem de sets. Já a regra que manda decidir cada set no tie-break, inclusive o terceiro, tem a história contada em tie-break e super tie-break.

Onde isso falha

A lista de critérios é boa, mas não é perfeita. Porcentagem de sets favorece quem perde por placar curto e não diferencia uma vitória sofrida de uma tranquila, e por isso o terceiro critério (games) existe. Além disso, o exemplo pressupõe três partidas jogadas por todos. Se um reserva entra no meio do grupo, o cenário muda, e o regulamento tem regras próprias de premiação e pontos para ele.

E vale o óbvio: os placares do exemplo são inventados por mim, só a mecânica é do regulamento (que traz seis exemplos próprios). Empate triplo com todo mundo em 1-2 é raro. O que compensa é saber a ordem dos critérios antes de a tabela fechar.

Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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