F1 finalmente emagrece — e a FIA já mira mais 80 kg
Depois de mais de duas décadas só ganhando peso, o carro de F1 encolheu em 2026. A FIA já projeta outro corte de 80 kg pra 2031. Refiz a conta do que isso significa.
Nikolas Tombazis, diretor de monopostos da FIA, fez a conta em voz alta essa semana pra um grupo seleto de veículos — Motorsport.com entre eles — e ele mesmo pareceu meio surpreso com o resultado: a última vez que um carro de Fórmula 1 saiu mais leve de uma temporada pra outra foi lá por volta do ano 2000. Desde então, só engordou. Motor híbrido, estrutura de segurança, bateria, tudo empilhando quilo em cima de quilo, regulamento após regulamento.
Em 2026, pela primeira vez em mais de 25 anos, essa curva virou. E a FIA já está de olho no próximo corte — um bem mais agressivo do que o que acabou de entrar em vigor.
O que a FIA já cortou neste ano
O peso mínimo da F1 caiu pra 768 kg em 2026, uma redução de 32 kg em relação aos 800 kg do ano passado, segundo Tombazis em entrevista à Autosport e à Motorsport.com. Some-se a isso o entre-eixos 20 cm mais curto e a carroceria 10 cm mais estreita — o chamado “nimble car concept” que a FIA vinha prometendo desde o anúncio do regulamento novo. Eu já detalhei o pacote completo, motor híbrido 50-50 incluso, no texto sobre o regulamento técnico 2026.
O resultado prático, segundo a FIA, é ar sujo reduzido a um nível parecido com o do primeiro ano do regulamento de efeito solo, 2022 — ou seja, carros voltaram a se seguir de perto sem perder tanta carga aerodinâmica na esteira do rival à frente. “Acho que sim, ainda que a gente nunca deva assumir que o trabalho está terminado. Mas eu acho que os carros estão se seguindo mais de perto”, disse Tombazis à Motorsport.com.
Ele também fez questão de dizer que o carro continua difícil de pilotar — e que isso é proposital: “quando temos os 22 melhores pilotos do mundo, também deveríamos ter carros que não são exatamente fáceis pra minha avó dirigir.” A frase é engraçada, mas resume a filosofia: carro mais leve não é sinônimo de carro mais fácil.
A conta que a FIA ainda não fechou
Aqui está o número que interessa de verdade: 768 kg menos 80 kg dá 688 kg. Esse é o alvo — não oficial, não regulamentado, apenas a ambição verbalizada por Tombazis — pro próximo ciclo de regras, previsto pra 2031, ou 2030 “se houver apoio suficiente” das equipes. “Eu gostaria que a gente estivesse outros 80 quilos mais leve, e talvez ainda um pouco mais curto e menor no futuro. Esse é o tipo de meta: dar outro passo grande a partir do que foi possível fazer agora”, disse ele.
Reparem no verbo: “gostaria”. Não “vai acontecer”. A própria Autosport nota que essa meta depende de simplificar também a power unit — motor mais simples pesa menos, mas motor mais simples é briga política, não só técnica. É a mesma discussão que já deixou a Cadillac em desvantagem ao nascer usando motor emprestado da Ferrari, que eu detalhei no texto sobre a largada difícil da equipe em 2026: motor de F1 não é peça que se redesenha em uma tarde, é anos de planejamento entre fabricante e FIA.
Minha leitura: 80 kg é a meta que a FIA usa pra ancorar a negociação, não o número que vai sair no regulamento final. Toda vez que a Fórmula 1 tentou emagrecer de forma agressiva nas últimas duas décadas, alguma exigência de segurança — estrutura de impacto lateral, célula de sobrevivência, bateria maior — empurrou o peso de volta pra cima antes que o corte completo se sustentasse. Não vejo motivo pra 2031 ser diferente, mas um corte de 40 ou 50 kg real já seria a maior mudança de peso da década.
Por que isso importa pra quem só assiste corrida
Peso baixo, na prática, significa outra coisa que quilo a menos: menos energia pra dissipar em frenagem, menos degradação de pneu por curva de alta carga, e carros que aceleram e freiam com resposta mais direta. É o mesmo motivo pelo qual a Williams sofreu tanto quando o FW47 nasceu acima do peso mínimo em 2025 — sobra menos margem pra lastro de balanceamento e a equipe perde liberdade de setup, como o próprio Vowles reconheceu na época, no episódio que eu cobri sobre o parto sofrido do chassi da Williams. E não é só drama de equipe pequena: até a Red Bull mirou especificamente o peso mínimo como alvo de desenvolvimento do RB22 na pré-temporada, no ajuste que fizeram antes da Áustria.
Tem também o motivo que a própria FIA reconhece: essa conversa toda sobre chassi mais leve e carro mais ágil está sendo abafada pelas queixas de power unit e gestão de energia, que dominaram os primeiros oito meses de 2026. É uma ironia específica desta temporada — o lado do carro que mais mudou pra melhor é o que menos vira manchete, porque o outro lado está pegando fogo nos bastidores.
Onde essa promessa pode não sair do papel
O próprio calendário já é um alerta: 2030 “se houver apoio suficiente”, 2031 se não houver. Isso é jargão de FIA pra dizer “as equipes ainda não assinaram embaixo”. Regulamento de F1 nasce de consenso entre dez equipes com interesses opostos — quem investiu pesado numa arquitetura não quer trocá-la de novo tão cedo, e cortar peso corta também onde cada equipe escondeu vantagem competitiva. Sem contar que qualquer redução estrutural passa pelo teto de gastos, porque redesenhar chassi e power unit do zero custa dinheiro que o cost cap simplesmente não permite gastar de qualquer jeito.
Ainda assim, o fato de a curva ter virado em 2026 — pela primeira vez desde 2000, segundo o próprio homem que assina o regulamento — já é notícia. O resto é aposta pro fim da década.
Fontes
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


