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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Fórmula 1

Túnel de vento e CFD na F1: o regulamento que dá 64% mais testes ao último do que ao campeão

A F1 limita quantas vezes cada equipe pode usar o túnel de vento e o supercomputador, e o campeão recebe menos. Refiz a conta das cotas por posição no campeonato e mostro o que 144 corridas de túnel a mais significam na prática.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Câmara de teste de um túnel de vento industrial com grande ventoinha ao fundo
Câmara de teste de um túnel de vento industrial com grande ventoinha ao fundo

Existe um regulamento na Fórmula 1 em que ganhar o campeonato é castigo. A equipe que termina em primeiro recebe, no ano seguinte, 70% da cota de testes aerodinâmicos. A última colocada recebe 115%. Faça a divisão: o fundo da tabela pode rodar 64% mais túnel de vento e mais simulação que o campeão. Quase ninguém fala disso no domingo, e é uma das razões pelas quais o pelotão do meio consegue alcançar quem está na frente.

A versão de 30 segundos

O que está sendo limitado

Aerodinâmica é onde a F1 gasta tempo e dinheiro para achar décimos. O efeito solo e o equilíbrio entre downforce e arrasto nascem de milhares de testes de forma de peça. Esses testes acontecem de duas maneiras: um modelo em escala dentro de um túnel de vento, ou uma simulação em computador. O regulamento operacional da FIA, no artigo F4, chama os dois de “testes aerodinâmicos restritos” e limita ambos.

O que entra na conta, segundo o próprio texto da FIA:

  • Corridas de túnel (RWTT): uma corrida começa quando o ar passa de 5 m/s e termina quando cai abaixo disso.
  • Tempo com vento ligado: horas somadas em que o ar passa de 15 m/s.
  • Ocupação: o tempo em que a equipe está com o túnel reservado.
  • Simulações de CFD: o limite é contado em geometrias 3D novas usadas na parte de resolução e também em horas de computação.

Tudo isso vale para o túnel próprio, para túnel alugado e para qualquer parceiro que trabalhe para a equipe. Não adianta terceirizar.

A matemática da cota

A régua base, para uma equipe com coeficiente de 100%, é de 320 corridas de túnel, 80 horas de vento ligado, 400 horas de ocupação e 2.000 geometrias novas de CFD, tudo por período de teste. Esse período dura em geral 8 semanas, e o ano tem seis (o quarto, com 10 semanas, engloba a pausa de verão).

Aí entra o coeficiente. Ele depende da posição no campeonato de construtores: 70% para o primeiro, 75% para o segundo, subindo de 5 em 5 pontos percentuais até 115% para o décimo colocado ou equipe nova. O regulamento diz que, nos três primeiros períodos do ano, vale a posição final do ano anterior; nos três últimos, vale a posição no campeonato corrente ao fim do terceiro período. Por isso a cota é reajustada duas vezes por ano.

Aqui entra a tabela que não encontrei pronta em lugar nenhum. Apliquei os coeficientes da FIA às cotas-base:

PosiçãoCoeficienteCorridas de túnelGeometrias de CFDHoras de vento ligado
1º70%2241.40056
4º85%2721.70068
7º100%3202.00080
10º ou equipe nova115%3682.30092

O ponto que me interessa: do primeiro ao último, a diferença é de 144 corridas de túnel por período de 8 semanas. Dividido pelas semanas, o campeão roda 28 corridas por semana e o último 46. Em seis períodos, são 864 corridas de diferença no ano. Uma equipe de ponta usa cada corrida para testar uma peça; para o campeão, escolher mal o que testar custa caro.

Quando o handicap morde de verdade

O regulamento prevê uma ressalva: mudança de coeficiente no meio do período é aplicada proporcionalmente ao tempo que resta. E a regra de punição é pesada. Quem passa do limite perde, no mínimo, dez vezes o excesso no período seguinte. O exemplo da própria FIA: uma equipe que faz 325 corridas contra um máximo de 320 só poderá fazer 270 no período seguinte. Cinco corridas a mais viram cinquenta a menos.

Em janeiro de 2026, a reportagem da The Race detalhou os efeitos da virada: a Haas, que caiu de sexto para oitavo na tabela de construtores, ganhou 32 corridas de túnel e 200 itens de CFD a mais, o equivalente a 10 pontos percentuais da cota. Red Bull, Racing Bulls e Aston Martin perderam 16 corridas e 100 itens cada. Conferi: 5% de 320 dá 16, e 5% de 2.000 dá 100. A conta fecha com a regra.

Um exemplo de como isso pesa na narrativa. A Aston Martin tinha em 2025 uma cota de 90% e, após a virada de meio de ano, 105%, segundo a mesma publicação. Quinze pontos percentuais a mais significam, na régua acima, 48 corridas de túnel extras por período. Ajuda a transformar ideia em peça mais rápido. Cota maior, porém, não garante carro melhor.

O que isso muda na leitura de uma temporada

Minha leitura, e aqui entra a opinião: o ATR é a regra mais subestimada do esporte. O teto de gastos limita quanto se gasta. O ATR limita quanto se pode aprender por semana. São freios diferentes. Dinheiro pode comprar um túnel melhor, mas não compra corridas extras.

Duas consequências práticas quando você ler sobre desenvolvimento:

  1. Pacote grande de atualização no meio do ano vem depois do reajuste de cota. Quem subiu na tabela vai ter menos fôlego; quem caiu, mais.
  2. Reclamação de equipe de ponta sobre “falta de capacidade” é, em parte, técnica de comunicação. A restrição é real, mas é de 39% a menos que o último colocado, não de 90%. Quando o regulamento de 2026 reescreveu o carro, esse equilíbrio ficou ainda mais importante: o primeiro ano de um conceito novo é o mais sensível à cota.

Onde a regra falha

Três limites que a própria FIA reconhece ou deixa evidentes. Primeiro, o controle é por declaração: as equipes relatam suas corridas em até 14 dias após o fim do período, e a FIA faz inspeções independentes apenas “de tempos em tempos”, nas palavras do regulamento. Segundo, uma geometria 3D “nova” no CFD tem definições técnicas; equipes grandes têm gente paga para ler cada vírgula. Terceiro, a cota não limita a qualidade do que se simula, só a quantidade. Uma equipe com um bom modelo de correlação entre pista, túnel e computador extrai mais de 224 corridas do que outra de 368.

O ATR, portanto, nivela o acesso, não o talento. É por isso que o último colocado só vira ameaça quando tem as duas coisas.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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