O set decisivo pertence a Nishikori, não a Djokovic
Kei Nishikori lidera o ranking histórico de sets decisivos do ATP com 73,2% de aproveitamento — à frente de Alcaraz, Borg e Djokovic. Os números do TennisDB explicam por quê.
Nesta semana, em Washington, Kei Nishikori fechou mais um terceiro set contra Shang Juncheng. Não foi bonito, não foi viral, não rendeu manchete em português. Mas alimentou, mais uma vez, um número que a maioria do circuito nem sabe que existe: aos 36 anos, no ano em que vai se aposentar, Nishikori segue sendo — de longe — o jogador com melhor aproveitamento em sets decisivos de toda a era aberta do tênis masculino.
À frente de Djokovic. À frente de Alcaraz. À frente de Borg, Sampras, Federer, Nadal. Nenhum deles chega perto.
O jogo que reacendeu o número
A vitória sobre Shang Juncheng em Washington não muda nada sozinha — é só mais um ponto numa amostra que já passa de duas décadas. Mas serve de gancho pra revisitar um dado que o site especializado TennisDB atualiza semanalmente: o ranking histórico de “deciding set win percentage” do ATP, ou seja, o aproveitamento de cada jogador quando a partida chega no set que decide tudo (terceiro em melhor de três, quinto em melhor de cinco).
Segundo o TennisDB (atualizado em 30/07/2026), Nishikori vence 73,2% dos sets decisivos que já disputou na carreira — 156 vitórias em 213 partidas que chegaram a esse ponto. Isso o coloca em primeiro lugar isolado numa lista que remonta a 1973. Logo atrás, empatados em 72%, aparecem Carlos Alcaraz (67 vitórias em 93) e Björn Borg (113 em 157) — duas gerações separadas por quase cinquenta anos, unidas pelo mesmo número. Djokovic, o nome que a maioria citaria de cabeça se alguém perguntasse “quem é o mais clutch do tênis”, vem em quinto: 71,7%, com 218 vitórias em 304 sets decisivos — a maior amostra da lista, e ainda assim o suficiente só pra ficar atrás do japonês.
O que o set decisivo realmente mede
Vale separar duas coisas que o senso comum mistura: conversão de break point mede um ponto isolado. Aproveitamento em set decisivo mede outra coisa — a capacidade de manter o nível de jogo, a cabeça e o corpo funcionando quando o resto da partida já drenou os dois adversários por duas ou quatro horas. É um teste de sustentação, não de explosão.
E é aí que a lista do TennisDB vira desconfortável pra algumas reputações. Roger Federer, o jogador mais associado a “sangue-frio” na história recente do esporte, aparece na 41ª posição, com 64,5% (231 vitórias em 358). Jannik Sinner, apontado hoje como o mais completo do circuito, está na 29ª, com 66% — abaixo até da própria média do topo da lista. Não significa que Federer ou Sinner “não sabem fechar jogo”. Significa que a narrativa de quem é “mentalmente mais forte” costuma nascer de memória seletiva — os pontos que viraram destaque de highlight — e não da amostra completa.
Isso também reforça um ponto que já vale a pena levar pra qualquer análise de jogo apertado: a queda na porcentagem de primeiro saque exatamente nos momentos de pressão é real e mensurável para a maioria dos jogadores do circuito — mas alguns nomes simplesmente sofrem menos essa queda que outros. Nishikori é, estatisticamente, um dos que menos sofre.
Alcaraz alcança Nishikori antes da aposentadoria?
Nishikori confirmou que este é o último ano da carreira. Alcaraz, com 72% e apenas 27 anos, é o único jogador ativo no top 3 dessa lista além de Djokovic — e tem, matematicamente, mais tempo de carreira pela frente do que qualquer outro nome próximo do topo.
Minha leitura: não, Alcaraz não alcança o número antes de Nishikori sair de quadra — mas por um motivo que não tem a ver com nível de jogo. Alcaraz ainda está em fase de acumular amostra grande (93 sets decisivos contra 213 de Nishikori), e taxas de aproveitamento tendem a regredir à média conforme a amostra cresce. É extremamente raro sustentar 72%+ por duas décadas inteiras — Nishikori é a exceção histórica, não a regra. O caminho mais provável é Alcaraz estabilizar entre 65% e 68% na década seguinte, ainda um número excelente, mas sem repetir o outlier que o japonês construiu. Se isso se confirma, o recorde de Nishikori sai de quadra junto com ele — e pode levar anos, talvez décadas, até alguém se aproximar de novo.
O que fica dessa lista não é só curiosidade de estatístico. É um lembrete de que a gestão de energia ao longo da partida pesa tanto quanto o talento bruto quando o placar aperta — e que o jogador mais elogiado pela imprensa nem sempre é o que os números realmente sustentam quando a pressão é máxima. Nishikori nunca ganhou um Grand Slam. Mas no set que decide tudo, ele é, com folga, o melhor da história recente do circuito masculino.
Fontes
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


