sexta-feira, 19 de junho de 2026
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Desempate dos grupos na Copa 2026: como o Brasil pode passar perdendo

Copa 2026 tem 12 grupos e 8 melhores terceiros. Veja a ordem exata dos critérios de desempate da FIFA e por que dá pra avançar sem vencer um jogo.

Camila Bertoldo 6 min de leitura
Desempate dos grupos na Copa 2026: como o Brasil pode passar perdendo
Desempate dos grupos na Copa 2026: como o Brasil pode passar perdendo

No segundo jogo de um grupo qualquer desta Copa, vi um torcedor comemorar um empate em 0 a 0 como se fosse gol no último minuto. A seleção dele tinha somado um ponto contra um time mais forte. Do lado, um amigo dizia “mas empatar não classifica ninguém”. Os dois estavam certos pela metade — e é exatamente esse buraco de entendimento que o formato de 48 seleções abriu.

Porque na Copa de 2026 dá, sim, para avançar sem vencer um único jogo. Três empates podem bastar. E há uma sequência precisa de critérios da FIFA que decide quem fica e quem volta pra casa antes das oitavas. Vale entender a ordem agora, na fase de grupos, e não descobrir de madrugada por que o seu time caiu com os mesmos pontos do rival.

O que mudou: 12 grupos, e o terceiro lugar agora importa

A Copa de 2026 é a primeira com 48 seleções. Em vez dos antigos 8 grupos de 4, são 12 grupos de 4 times. Os dois primeiros de cada grupo avançam direto — são 24 vagas. Mas as oitavas de final do novo formato têm 32 times. Faltam 8.

Esses 8 lugares vão para os melhores terceiros colocados. Ou seja: terminar em terceiro no seu grupo não é mais sentença de eliminação. Dos 12 terceiros que existem ao fim da fase de grupos, 8 sobrevivem e 4 caem. A diferença entre seguir vivo e pegar o voo de volta vai se decidir, na maioria dos casos, no saldo de gols e em alguns gols a mais marcados.

É aqui que mora a virada de chave: o gol que você marca numa goleada que já estava ganha, no minuto 89, de repente pode valer a classificação três dias depois — não pela vitória, que já era sua, mas pela briga de saldo com um terceiro de outro grupo do outro lado do continente.

A ordem exata dos critérios da FIFA

Quando dois ou mais times empatam em pontos, a FIFA não decide no cara ou coroa nem (em primeiro lugar) no confronto direto. A sequência oficial, na ordem, é esta:

  1. Pontos na fase de grupos (vitória 3, empate 1, derrota 0)
  2. Saldo de gols em todos os jogos do grupo
  3. Gols marcados no total do grupo
  4. Pontos no confronto direto entre os times empatados
  5. Saldo de gols no confronto direto
  6. Gols marcados no confronto direto
  7. Fair play (menos cartões: amarelo -1, dois amarelos -3, vermelho direto -4, etc.)
  8. Sorteio da FIFA

Repare numa coisa que confunde muita gente, inclusive comentarista experiente: o confronto direto não é o primeiro critério. Antes dele vêm saldo de gols e gols marcados no grupo inteiro. Isso é o oposto da lógica do mata-mata europeu da Champions, onde o confronto direto costuma pesar mais cedo — e é diferente também da regra que decide empate no nosso campeonato, como detalhei no guia dos critérios de desempate do Brasileirão. Misturar os dois sistemas é o erro número 1 de quem faz conta de classificação na cabeça.

O caso concreto: três times com 4 pontos

Deixa eu montar um cenário realista para você sentir como funciona. Imagine um grupo em que, na última rodada, três seleções terminam com 4 pontos cada — uma vitória e um empate, e uma derrota. Chamo de A, B e C.

  • Time A: saldo +2, 5 gols marcados
  • Time B: saldo +2, 4 gols marcados
  • Time C: saldo 0, 3 gols marcados

Pontos: empatados em 4. Vai pro critério 2, saldo de gols. C cai para o terceiro lugar na hora (+0 contra +2 dos outros). A e B seguem empatados em saldo +2. Vai pro critério 3, gols marcados: A tem 5, B tem 4. A é primeiro, B é segundo, C é terceiro — e nem precisou olhar o confronto direto entre eles.

Agora vem a parte cruel. C, com 4 pontos e saldo 0, ainda pode se classificar como melhor terceiro — se 4 pontos for o suficiente para entrar no top 8 dos terceiros. Em formatos parecidos, a régua histórica do melhor terceiro costuma ficar perto de 4 pontos. Na Eurocopa de 2016, que estreou o modelo de 6 grupos com 4 melhores terceiros, três das quatro vagas de terceiro foram para seleções com 3 pontos, segundo as tabelas oficiais da UEFA. Com 48 times e 12 grupos, a barra tende a subir um pouco — mas a mensagem é a mesma: pontos baixos podem bastar, e tudo se decide no saldo.

Por que isso muda como você assiste aos jogos

Tem uma consequência prática que pouca gente comenta: nesse formato, um time que já garantiu a vaga em primeiro tem incentivo real para continuar atacando. Cada gol a mais engorda o saldo da própria seleção e, de quebra, pode afundar um terceiro colocado adversário na corrida pelas 8 vagas extras. O placar elástico deixou de ser only-for-show.

O outro efeito é no torcedor que faz conta. Vou ser direta: na fase de grupos de 2026, acompanhar só o seu grupo não basta. A classificação do seu time como terceiro depende de jogos de grupos que você talvez nem esteja assistindo. É a primeira Copa em que a planilha de melhores terceiros vira leitura obrigatória junto com a tabela do grupo — algo que a seleção brasileira pode precisar monitorar de perto dependendo de como a fase se desenhar, como já discuti ao analisar a lista dos 26 convocados do Brasil para a Copa.

O que fazer com isso agora

Se você quer assistir à fase de grupos entendendo o que está em jogo de verdade, três hábitos resolvem:

  • Olhe o saldo antes do confronto direto. Na dúvida sobre quem passa num grupo embolado, comece sempre por pontos → saldo → gols marcados. O confronto direto só entra se esses três empatarem.
  • Trate goleada como ativo, não como humilhação. O 4 a 0 no minuto 70 não é deboche; é seguro de classificação. Quem desacelera demais pode pagar caro no critério de saldo.
  • Guarde a tabela dos terceiros lugares. A partir da segunda rodada, compare o seu terceiro colocado com os de outros grupos. É ali que a vaga vai se decidir, não no apito final do seu jogo.

Na minha leitura, esse formato premia quem entende a regra tanto quanto quem joga bem. A seleção que tratar cada gol da fase de grupos como moeda — e não como placar de exibição — chega às oitavas com margem. As que jogarem só para vencer, sem olhar saldo, vão descobrir do pior jeito que empatar três vezes às vezes vale mais que vencer uma e perder duas.

Fontes

  • FIFA — Regulamento da Copa do Mundo de 2026 (formato de 48 seleções, vagas e critérios de desempate)
  • UEFA — Tabelas oficiais da Eurocopa de 2016 (precedente do modelo de melhores terceiros colocados)
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Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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