Pular para o conteúdo
sábado, 19 de setembro de 2026
Setor Norte SETOR NORTE
Olimpíadas

Tiro com arco olímpico teve o mesmo arco por 54 anos — isso muda em LA 2028

Desde a volta aos Jogos em 1972, só o arco recurvo disputou Olimpíada. Em Los Angeles 2028, o arco composto estreia numa prova mista inédita. Expliquei a diferença entre os dois arcos, o formato de disputa do ranking ao mata-mata e onde o Brasil está favorito no ranking mundial.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Arqueiro mirando com arco recurvo durante disputa olímpica
Arqueiro mirando com arco recurvo durante disputa olímpica

O círculo que vale 10 pontos no tiro com arco olímpico tem 12,2 centímetros de diâmetro — mais ou menos o tamanho de um CD, cravado no centro de um alvo a 70 metros de distância. Há 54 anos, desde que o esporte voltou aos Jogos em Munique 1972, só um tipo de arco teve permissão de mirar naquele círculo: o recurvo, o mesmo modelo, sem exceção, em nenhuma edição. Isso muda em Los Angeles 2028.

Não é só um detalhe de equipamento. É a primeira mudança de material no programa olímpico de tiro com arco desde que ele voltou a existir — e ela chega dentro de uma prova nova, o que reabre uma pergunta que o esporte empurra com a barriga há décadas: por que o arco mais preciso do mundo nunca teve vaga na Olimpíada?

O que decide se você entende o esporte

Quatro coisas explicam praticamente tudo que acontece numa disputa de tiro com arco olímpico:

  • Tipo de arco — recurvo (regra desde 1972) ou composto (estreia em 2028, só numa prova)
  • Distância e alvo — 70 metros e alvo de 122 cm no recurvo; 50 metros no composto
  • Fase da disputa — uma rodada de pontuação corrida decide o chaveamento; depois é eliminação direta
  • Tipo de evento — individual, equipe (3 atletas do mesmo país) ou equipe mista (1 homem + 1 mulher)

A diferença entre os dois arcos é onde a maioria das dúvidas de quem nunca assistiu a uma prova nasce — e é também o motivo de o composto ter ficado de fora por meio século:

Recurvo (desde 1972)Composto (estreia em 2028)
MecanismoSem polias — o atleta sustenta a força total no momento da miraSistema de polias e cames que reduz o peso sustentado na mira (let-off)
Distância olímpica70 metros50 metros
MiraPino simples, sem lente de aumentoSight com lente de aumento e nível — mais parecido com uma luneta
Pontuação mínima pra se classificar650 (masculino) / 620 (feminino) em 72 flechas690 (masculino) / 670 (feminino) em 72 flechas
Evento em LA 2028Individual (M/F), equipe (M/F) e equipe mistaSó equipe mista — não existe individual nem equipe só de composto

A engrenagem que ficou de fora por meio século

O composto tem cordas presas aos membros do arco por um sistema de polias, o que faz o peso que o atleta segura no momento crítico da mira cair bastante em relação ao pico exigido pra puxar a corda — é o chamado let-off. Some a isso uma mira com lente de aumento, e o resultado é um equipamento objetivamente mais preciso e menos exigente fisicamente no instante da soltura. Bom pra quem pratica, ruim pra quem decide o que é “espírito olímpico”: a leitura histórica do Comitê Olímpico Internacional sempre foi a de que um arco tão mecânico tira o esforço humano puro que a Olimpíada supostamente recompensa — e o arco recurvo, sem polia nenhuma, ficou como o único aceito desde a reintrodução do esporte.

O World Archery pressiona por espaço pro composto há mais de vinte anos, sem sucesso — até agora. Em Los Angeles 2028, pela primeira vez desde 1972, um segundo tipo de arco entra no programa, mas de um jeito calculado pra não mexer no resto: só na prova de equipe mista, criada do zero, sem tirar espaço do recurvo em nenhum dos seis eventos já existentes. Ao todo, 128 arqueiros disputam os Jogos — 64 homens e 64 mulheres —, sendo 116 vagas via sistema de classificação, 8 reservadas ao país-sede e 4 de universalidade. A janela de classificação abre formalmente no Mundial de 2027, em Medellín, na Colômbia.

Como funciona a disputa, do ranking ao mata-mata

Toda competição olímpica de tiro com arco recurvo começa com uma rodada de ranking: 72 flechas, divididas em 12 séries de 6, a 70 metros, com placar máximo teórico de 720 pontos. Essa pontuação não elimina ninguém — ela só define o chaveamento da fase seguinte, que é eliminação direta.

No mata-mata individual, os dois atletas disputam um formato de sets, parecido com tênis: cada set tem 3 flechas por arqueiro, quem soma mais pontos no set fica com os pontos de set, e o primeiro a chegar a 6 pontos de set avança. Se o confronto termina empatado, decide-se com uma flecha só — quem cravar mais perto do centro passa de fase. Na equipe (3 atletas do mesmo país), o confronto vai até 4 sets de 6 flechas (2 por atleta). Na equipe mista (1 homem + 1 mulher), são até 4 sets de 4 flechas — 2 por atleta.

Onde o Brasil entra

Marcus D’Almeida lidera o ranking mundial masculino do arco recurvo com 400 pontos, 30 à frente do segundo colocado, o americano Brady Ellison. A liderança veio depois do ouro no Pan-Americano de 2026, seu primeiro título internacional do ano e o segundo do torneio — o primeiro foi em Santiago, em 2022. No feminino, Ane Marcelle dos Santos ocupa a 89ª posição do ranking mundial individual e ajudou o Brasil a fechar o Pan de 2026 com bronze por equipes, ao lado de Isabelle Estevez e Ana Luiza Caetano.

Os resultados recentes já mostraram que dá pra competir de igual pra igual: em Paris 2024, D’Almeida e Ana Luiza Caetano chegaram às oitavas de final no individual — resultado que igualou as melhores campanhas olímpicas do tiro com arco brasileiro de sempre (no feminino, o recorde anterior era o 9º lugar de Ane Marcelle, conquistado no Rio 2016). Não é o tipo de sistema de pontos corridos que o ranking ATP e WTA usa no tênis, com calendário cheio de torneios semana após semana — o calendário do tiro com arco é bem mais enxuto, o que faz cada Copa do Mundo e cada Pan-Americano pesar proporcionalmente mais. É por isso que um título só, como o Pan de 2026, foi suficiente pra D’Almeida assumir a ponta.

O caminho até lá segue o mesmo ciclo classificatório que vale pra qualquer esporte olímpico rumo a LA 2028: campeonato continental, depois mundial, depois vaga. E o tiro com arco brasileiro entra nessa engrenagem em condição bem melhor do que a maioria dos esportes que só agora ganharam espaço no programa olímpico — porque aqui já existe um nome no topo do ranking mundial, não uma federação recém-formada tentando aparecer no mapa.

Minha aposta pro individual masculino

Acho que D’Almeida chega a LA 2028 como favorito real ao pódio no individual masculino — não favorito absoluto, mas dentro do grupo de 4 ou 5 nomes que decide o ouro. Três motivos. Primeiro: ele é #1 do ranking por acúmulo de resultado, não por um pico isolado num torneio fácil. Segundo: o formato de sets de 3 flechas premia quem já mostrou que administra pressão em jogo curto, e ele fez exatamente isso nas oitavas de Paris. Terceiro: a janela de classificação abre cedo, em 2027, o que dá tempo de calibrar a forma pro pico certo em vez de depender de um torneio isolado decidindo tudo.

Onde a aposta fica arriscada: mata-mata olímpico de tiro com arco é loteria de vento e corda numa flecha só. O #1 do mundo perde pro 40º do ranking com uma rajada errada no momento errado — aconteceu antes, com outros líderes de ranking, em outras Olimpíadas. Ranking garante chaveamento melhor, não garante medalha.

Perguntas frequentes

Quantas flechas o arqueiro atira na fase de ranking dos Jogos? 72, divididas em 12 séries de 6, a 70 metros no recurvo — placar máximo teórico de 720 pontos.

Quando o arco composto estreia nos Jogos Olímpicos? Em Los Angeles 2028, só na prova de equipe mista. Não existe individual nem equipe só de composto no programa olímpico.

Qual a pontuação mínima pra se classificar no tiro com arco recurvo? 650 pontos no masculino e 620 no feminino, numa prova de 72 flechas a 70 metros, dentro da janela de classificação que começa no Mundial de 2027, em Medellín.

Quantos arqueiros disputam LA 2028 no total? 128 — 64 homens e 64 mulheres. Dessas vagas, 116 vêm do sistema de classificação, 8 são reservadas ao país-sede e 4 são de universalidade.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

Continue lendo · Olimpíadas

Ver tudo →