Golfe olímpico se redimiu em oito anos — o Brasil não colheu nada dessa redenção
Em 2016, Rory McIlroy dizia que talvez nem assistisse ao golfe olímpico pela TV. Em 2024, o número 1 do mundo chamou o ouro em Paris de ponto alto da carreira. Reconstruí essa virada — e o processo judicial que explica por que o Rio não aproveitou nada dela.
Em junho de 2016, Rory McIlroy, então número 4 do mundo, disse a jornalistas que provavelmente assistiria às Olimpíadas do Rio pela TV — mas duvidava que o golfe estivesse entre as competições que ligaria. Preferia atletismo, natação, saltos ornamentais, “o que importa”, nas palavras dele. Poucos dias depois confirmou que nem jogaria: alegou risco do vírus Zika e ficou em casa ao lado de Jason Day (então número 1 do mundo), Dustin Johnson (número 2) e Jordan Spieth (número 3) — o pódio inteiro do ranking mundial masculino ausente ao mesmo tempo, segundo o levantamento da ABC News australiana sobre a debandada pré-Rio. Oito anos depois, em Paris, o então número 1 do mundo trocou a semana livre por uma vitória de virada contra o relógio — e saiu dela dizendo que aquele domingo foi o ponto alto da própria temporada.
Minha tese aqui é direta: o boicote de 2016 nunca foi sobre o golfe olímpico ser irrelevante — foi sobre risco de saúde real colidindo com uma geração de jogadores que colocava família na frente de currículo. Assim que esse risco sumiu do mapa, o argumento morreu com ele, e sobrou uma verdade desconfortável pra narrativa que ficou popular na época: o esporte sempre teve potencial pra virar coisa séria nos Jogos. Levou o resto da década pra provar isso. O único lugar que não colheu nada da prova foi o país que hospedou o primeiro capítulo.
O boicote de 2016 tinha nome, e não era desprezo
A lista de ausências do Rio não parou nos quatro primeiros do ranking. Vijay Singh, Marc Leishman, Louis Oosthuizen e Charl Schwartzel também ficaram de fora citando Zika, e a sul-africana Lee-Anne Pace, então 21ª do ranking feminino, pediu pra nem ser considerada pra seleção do país, conforme o mesmo levantamento da ABC News. McIlroy, especificamente, citou risco reprodutivo — ele e a então noiva planejavam ter filhos, e o vírus estava associado a más-formações congênitas, de acordo com a cobertura da CNN sobre a retirada dele. Isso não é ceticismo sobre o formato olímpico. É cálculo de risco pessoal, feito por gente que podia se dar ao luxo de recusar convite.
O detalhe que a narrativa de “golfe não liga pra Olimpíada” sempre deixou de fora: dois meses depois do torneio acontecer sem ele, McIlroy admitiu publicamente que estava enganado. Disse que teve mais gente assistindo ao golfe no Rio do que ao atletismo em alguns dias, e que passou a acompanhar o resultado mesmo estando em casa, segundo reportagem posterior da própria CNN sobre a mudança de postura dele. O boicote nunca testou se o público queria golfe olímpico. Só testou se os quatro melhores do mundo topariam o risco de saúde pra descobrir.
De um domingo assistido de casa a um domingo de virada
O contraste fica mais nítido em Paris 2024. Scottie Scheffler, número 1 do mundo, chegou à última rodada quatro tacadas atrás do espanhol Jon Rahm — e fechou com uma volta de 62 tacadas (9 abaixo do par), terminando com 19 abaixo do par em Le Golf National pra fisgar o ouro, conforme o relato oficial do Team USA sobre a virada. Ao repassar a temporada inteira depois — que incluiu um major e o Players Championship — Scheffler apontou justamente aquela última volta em Paris como o trecho que mais lhe vem à cabeça quando pensa em 2024, segundo a mesma reportagem. Não é o discurso de quem está ali cumprindo tabela.
Essa mudança de postura tem endereço: LA 2028 vai sediar o torneio no Riviera Country Club, em Pacific Palisades, casa do mesmo evento do PGA Tour há mais de 60 edições desde 1929 — ou seja, um campo que os próprios profissionais já tratam como território de torneio grande, não como palco improvisado, conforme a cobertura da ESPN sobre a confirmação da sede. O ciclo de qualificação que leva até lá segue a mesma lógica dura que expliquei em como funciona a qualificação olímpica pra LA 2028: não basta um pico de forma isolado, é preciso sustentar ranking dentro de uma janela que se fecha meses antes dos Jogos.
LA 2028 cria uma prova que não existe em nenhum torneio de tour
O argumento que mais sobreviveu à redenção do golfe olímpico é que ele continua sendo, na prática, “mais um torneio de tour com bandeira em vez de boné patrocinado” — mesmo formato de stroke play que qualquer PGA ou LPGA de fim de semana. Esse argumento perde força em 2028. O Comitê Olímpico Internacional aprovou uma prova por equipes mistas inédita desde 1904: 16 duplas, uma por país, cada uma com um homem e uma mulher já classificados nas provas individuais, disputando 36 buracos em dois dias — uma rodada de foursomes (tacada alternada) e outra de four-ball (melhor bola), de acordo com a cobertura da Sky Sports sobre o formato aprovado. Não existe torneio equivalente no calendário profissional — é o tipo de prova que só existe porque é Olimpíada.
O golfe não é o único esporte individual que resolveu esse mesmo problema criando um evento misto pra LA 2028: a vela fez o mesmo movimento, com classe mista própria dentro do programa olímpico, na mesma lógica de dar ao público algo que o circuito normal do esporte simplesmente não oferece.
Onde essa redenção não chegou: o campo que devia ficar de legado
Aqui a tese esbarra numa parede concreta, e é onde a honestidade pede pausa. O Rio construiu o campo olímpico de golfe dentro da Reserva de Marapendi, em Barra da Tijuca — parte da área é Área de Proteção Ambiental, e outra parte é reserva de proteção permanente, teoricamente intocável. A construção foi contestada por organizações ambientais desde o anúncio, que apontaram fragmentação de vegetação nativa e perda de biodiversidade local dentro de uma unidade de conservação, segundo a reportagem da RioOnWatch sobre os impactos da obra. A promessa era de legado: um ente público administraria o campo por 20 anos como equipamento aberto à cidade.
Quase dez anos depois, o que existe é disputa judicial. Em novembro de 2025, a prefeitura notificou a CRF, administradora do campo, sobre a não renovação da permissão de uso. A empresa, comandada por Carlos Favoreto, conseguiu liminar pra continuar no local — mas a Justiça proibiu qualquer atividade fora do propósito original de golfe, porque a CRF construía um campo de futebol e operava comercialmente um aeródromo e um heliporto particulares dentro da área protegida, conforme o Conjur noticiou sobre a decisão de março de 2026. O órgão ambiental municipal já autuou a empresa por descumprir a licença, e a prefeitura recorreu ao Tribunal de Justiça em dezembro de 2025 pedindo de volta a gestão do espaço — processo ainda sem decisão final.
Nem o esporte colheu retorno esportivo por aqui: o melhor golfista brasileiro na volta olímpica de 2016 foi Adilson da Silva, ex-carregador de tacos que virou profissional, dono da tacada cerimonial de abertura do torneio depois de 112 anos de ausência do golfe nos Jogos — mas competindo pela 57ª posição do ranking olímpico, de acordo com o perfil da Gazeta do Povo sobre a trajetória dele. O Brasil nunca subiu a um pódio olímpico de golfe. É o inverso exato do que aconteceu na vela, esporte que produziu os dois maiores medalhistas olímpicos individuais da história brasileira antes de Rebeca Andrade — ali a estrutura nacional existia havia décadas antes da vitrine olímpica aparecer. No golfe, a vitrine apareceu primeiro, e a estrutura simplesmente não veio atrás.
Onde isso te leva
Pra LA 2028, a aposta é segura: com sede num campo consagrado do próprio PGA Tour, prova mista inédita e o esporte jogando em casa no maior mercado de golfe do planeta, a audiência tende a bater recorde, não repetir o esvaziamento de 2016. Pro Brasil, o caminho realista não muda: sem um jogador dentro da faixa de ranking que garante vaga (top 60 mundial na data de corte), a participação brasileira em LA 2028 depende mais de exceção regional do que de força própria — o mesmo gargalo estrutural que separa os esportes em que o país tem chance real de medalha dos que só têm presença simbólica. O golfe se redimiu num prazo curto pros padrões olímpicos. Só não converteu nada dessa redenção em algo que ficasse de pé dentro do país que abriu a porta.
Fontes
- ABC News (Austrália) — Jordan Spieth pulls out of Olympics over Zika fears
- CNN — Rory McIlroy pulls out of Rio Olympics amid Zika fears
- CNN — It turns out Rory McIlroy actually did watch golf in the Rio Olympics
- Team USA — Scottie Scheffler Charges From Behind To Win Olympic Golf Gold In Dramatic Fashion
- ESPN — Riviera announced as golf site for 2028 L.A. Olympics
- Sky Sports — Mixed-team golf event to debut at 2028 Los Angeles Olympic Games
- RioOnWatch — O Campo de Golfe Olímpico do Rio Esmagará uma Preciosa Área Ecológica Protegida
- Conjur — Justiça mantém proibição de construção no Campo de Golfe Olímpico
- Gazeta do Povo (gaz.com.br) — De carregador de tacos a melhor golfista do Brasil: a história de Adilson da Silva
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


