Ginástica artística olímpica: como funciona a pontuação — e por que Rebeca Andrade pode chegar a LA 2028 como favorita ao ouro
Guia completo do Código de Pontuação da ginástica artística olímpica: o que são as notas D e E, como júri calcula o placar final e onde Rebeca Andrade se encaixa na disputa pelo topo em Los Angeles 2028.
Na final do solo feminino em Paris 2024, Rebeca Andrade completou sua última diagonal e o placar apareceu: 14.166. Simone Biles, que terminou em primeiro com 14.666, teve 0.5 de vantagem num exercício que durou menos de 90 segundos. Meio ponto em 90 segundos. Para quem assiste sem saber o que cada número quer dizer, isso soa arbitrário. Não é.
A ginástica artística olímpica usa um sistema de pontuação que foi completamente reformulado em 2006 — e que, ao contrário do que parece, é mais técnico e menos subjetivo do que o sistema de nota 10 que funcionou por décadas. Entender como ele funciona muda a forma de assistir à modalidade e, no caso de Rebeca, explica exatamente o que ela precisaria ajustar para mudar o resultado nos Jogos de Los Angeles em 2028.
A versão de 30 segundos (o essencial)
A pontuação final de um exercício soma duas notas independentes:
- Nota D (Difficulty): mede a dificuldade técnica do exercício. Quanto mais elementos difíceis e raras conexões, maior o D. Não tem teto — pode passar de 7, 8, 9 em tese.
- Nota E (Execution): começa em 10.0 e vai sendo deduzida por cada erro — postura, queda, saída de tapete, ângulos errados. Menos erros = E mais alta.
Placar final = D + E
Parece simples. A beleza está nos detalhes de cada componente.
Conceito 1: a Nota D e como se constrói dificuldade
O Código de Pontuação da Federação Internacional de Ginástica (FIG) classifica cada elemento por letras: A (0.1 ponto), B (0.2), C (0.3), D (0.4), E (0.5), F (0.6), G (0.7), H (0.8), I (0.9) e J (1.0). Cada letra corresponde a um grupo de habilidades com exigência técnica crescente.
No solo feminino, a nota D é formada pelos oito elementos de maior valor no exercício mais o valor das conexões entre saltos. Um duplo twist carpado, por exemplo, é um elemento I (0.9 pontos). O Biles II — salto que Simone patenteou e leva seu nome — é J (1.0). Rebeca executa o Cheng (salto mortal duplo carpado com twist), que vale G (0.7).
A diferença entre as duas não está apenas no talento: está no catálogo de elementos que cada ginasta domina. Simone tem três elementos no Código que levam seu nome — e que outras ginastas simplesmente não treinaram porque o risco de lesão é alto demais para tentá-los em contexto competitivo. Isso gera uma nota D estruturalmente superior que nenhuma execução perfeita resolve sozinha.
Na prática, o que isso significa para comparar ginastas: uma ginasta que executa exercício com D = 6.5 precisa tirar nota E de 8.2 para chegar a 14.7 de placar. Outra ginasta com D = 5.9 precisaria de E = 8.8 para empatar. Execução excepcional pode compensar — mas tem limite.
Conceito 2: a Nota E e o que os árbitros realmente avaliam
A nota de execução começa em 10.0. O painel E é composto por seis árbitros; os dois extremos são descartados e a média dos quatro restantes forma a nota E final.
As deduções seguem tabela fixa:
- Queda: -1.0
- Passo fora do tapete (solo): -0.1 por passo, ou -0.3 se for grande
- Pernas separadas onde não deveria: -0.1 a -0.3 dependendo da amplitude
- Ângulo errado nos saltos (corpo não totalmente estendido, por exemplo): -0.1 a -0.5
O que parece subjetivo — “o árbitro decidiu que a postura estava errada” — é na verdade uma tabela de ângulos e posições que o árbitro compara com o que viu em tempo real. Isso não elimina a variação humana na percepção, mas reduz drasticamente. O sistema de 2006 surgiu justamente porque o escândalo do par artístico nos Jogos de Salt Lake City 2002, quando uma juíza francesa admitiu ter inflado nota por pressão da federação, mostrou que o modelo anterior (nota máxima 10, avaliação holística) era suscetível a manipulação em bloco.
Existe ainda um painel separado — o painel de neutros — que avalia aspectos como composição coreográfica, uso do espaço e conformidade às exigências artísticas. No solo feminino, essa avaliação compõe parte da nota E.
Conceito 3: onde Rebeca Andrade se encaixa e o que mudaria em LA 2028
Rebeca Andrade terminou Paris 2024 com quatro medalhas — ouro no individual geral (com prata na barra e bronze no solo e na equipe). É a maior coleção de medalhas olímpicas de uma atleta brasileira na história dos Jogos.
No solo, ela perdeu para Simone Biles por 0.5 ponto. Minha leitura desse resultado: a diferença não foi execução — foi dificuldade estrutural. Rebeca tem nota D consistentemente na faixa de 6.1 a 6.3 no solo. Biles executa exercícios na faixa de 6.6 a 6.9 porque tem elementos catalogados com valores que não existem no repertório de mais ninguém.
Para LA 2028, o caminho de Rebeca passa por uma decisão técnica clara: elevar a nota D adicionando pelo menos um elemento de alta complexidade (G ou acima) ao solo, ou consolidar consistência extrema de execução nos aparelhos onde sua nota D já é competitiva — a trave e o salto. No individual geral, onde a pontuação some os quatro aparelhos, uma nota E excepcional na trave e no salto compensa parte da desvantagem no solo.
Isso não é especulação de fã. É aritmética do Código. Nas quatro provas do individual geral em Paris, a diferença acumulada entre Rebeca e Biles foi de 1.3 pontos. Cerca de 0.3 ponto veio do salto e da trave — aparelhos onde Rebeca tem nota E historicamente mais alta. O restante veio do solo e das barras assimétricas, onde a diferença de D é estrutural.
Sobre o ciclo LA 2028 de forma mais ampla, veja o que já foi mapeado na abertura do ciclo com Calderano e Rebeca e como o sistema de qualificação olímpica funciona para o Time Brasil.
Onde isso falha (limitações do sistema)
O Código de Pontuação não é perfeito. O principal problema é o incentivo perverso que cria: como mais dificuldade = mais pontos, ginastas são pressionadas a incluir elementos de alto risco mesmo que a execução seja comprometida. Uma ginasta que tenta um elemento H e erra levemente ainda pode sair com nota final superior a uma que executa um elemento E de forma impecável.
Isso gerou críticas crescentes dentro da FIG, especialmente após lesões em série durante o ciclo de Tóquio 2020. A federação tem debatido limites de risco nos elementos de valor máximo — mas sem consenso, porque alterar o Código afeta diretamente o ranking global e os valores de treinamento de dezenas de federações nacionais.
Existe também a questão dos elementos epônimos (batizados com o nome da ginasta). Simone Biles tem três. Para uma ginasta obter um elemento no Código com seu nome, ela precisa executá-lo em competição internacional com júri aprovado, submeter à FIG e aguardar avaliação. Rebeca não tem nenhum elemento epônimo ainda — e isso também não é um problema de talento, mas de estratégia de carreira e risco calculado.
O judô passa por dinâmica parecida: o sistema de pontuação por ippon e waza-ari também foi reformulado nos últimos ciclos, como mostra a campanha brasileira no Grand Slam de Astana que rendeu três bronzes ao país. A lógica de construir pontuação ao longo do ciclo olímpico — não apenas nos Jogos — é a mesma em praticamente todos os esportes de código.
Para quem quer entender melhor como o Brasil está posicionado em outros esportes olímpicos coletivos que também têm sistema de pontuação e classificação próprio, o contexto dos brasileiros na NBA mostra outro exemplo de como atletas nacionais navegam sistemas de classificação internacional — desta vez fora do circuito olímpico.
Fontes
- Código de Pontuação FIG — Ginástica Artística Feminina 2022-2024 (gymnastics.sport)
- Resultados oficiais do solo feminino em Paris 2024 — FIG (gymnastics.sport)
- Rebeca Andrade ganha quatro medalhas em Paris 2024 — COB (cob.org.br)
Imagem gerada por IA (fal.ai)
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


