terça-feira, 26 de maio de 2026
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Ginástica artística olímpica: como funciona a pontuação — e por que Rebeca Andrade pode chegar a LA 2028 como favorita ao ouro

Guia completo do Código de Pontuação da ginástica artística olímpica: o que são as notas D e E, como júri calcula o placar final e onde Rebeca Andrade se encaixa na disputa pelo topo em Los Angeles 2028.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Ginasta em posição de voo durante exercício de solo em competição olímpica de ginástica artística
Ginasta em posição de voo durante exercício de solo em competição olímpica de ginástica artística

Na final do solo feminino em Paris 2024, Rebeca Andrade completou sua última diagonal e o placar apareceu: 14.166. Simone Biles, que terminou em primeiro com 14.666, teve 0.5 de vantagem num exercício que durou menos de 90 segundos. Meio ponto em 90 segundos. Para quem assiste sem saber o que cada número quer dizer, isso soa arbitrário. Não é.

A ginástica artística olímpica usa um sistema de pontuação que foi completamente reformulado em 2006 — e que, ao contrário do que parece, é mais técnico e menos subjetivo do que o sistema de nota 10 que funcionou por décadas. Entender como ele funciona muda a forma de assistir à modalidade e, no caso de Rebeca, explica exatamente o que ela precisaria ajustar para mudar o resultado nos Jogos de Los Angeles em 2028.

A versão de 30 segundos (o essencial)

A pontuação final de um exercício soma duas notas independentes:

  • Nota D (Difficulty): mede a dificuldade técnica do exercício. Quanto mais elementos difíceis e raras conexões, maior o D. Não tem teto — pode passar de 7, 8, 9 em tese.
  • Nota E (Execution): começa em 10.0 e vai sendo deduzida por cada erro — postura, queda, saída de tapete, ângulos errados. Menos erros = E mais alta.

Placar final = D + E

Parece simples. A beleza está nos detalhes de cada componente.

Conceito 1: a Nota D e como se constrói dificuldade

O Código de Pontuação da Federação Internacional de Ginástica (FIG) classifica cada elemento por letras: A (0.1 ponto), B (0.2), C (0.3), D (0.4), E (0.5), F (0.6), G (0.7), H (0.8), I (0.9) e J (1.0). Cada letra corresponde a um grupo de habilidades com exigência técnica crescente.

No solo feminino, a nota D é formada pelos oito elementos de maior valor no exercício mais o valor das conexões entre saltos. Um duplo twist carpado, por exemplo, é um elemento I (0.9 pontos). O Biles II — salto que Simone patenteou e leva seu nome — é J (1.0). Rebeca executa o Cheng (salto mortal duplo carpado com twist), que vale G (0.7).

A diferença entre as duas não está apenas no talento: está no catálogo de elementos que cada ginasta domina. Simone tem três elementos no Código que levam seu nome — e que outras ginastas simplesmente não treinaram porque o risco de lesão é alto demais para tentá-los em contexto competitivo. Isso gera uma nota D estruturalmente superior que nenhuma execução perfeita resolve sozinha.

Na prática, o que isso significa para comparar ginastas: uma ginasta que executa exercício com D = 6.5 precisa tirar nota E de 8.2 para chegar a 14.7 de placar. Outra ginasta com D = 5.9 precisaria de E = 8.8 para empatar. Execução excepcional pode compensar — mas tem limite.

Conceito 2: a Nota E e o que os árbitros realmente avaliam

A nota de execução começa em 10.0. O painel E é composto por seis árbitros; os dois extremos são descartados e a média dos quatro restantes forma a nota E final.

As deduções seguem tabela fixa:

  • Queda: -1.0
  • Passo fora do tapete (solo): -0.1 por passo, ou -0.3 se for grande
  • Pernas separadas onde não deveria: -0.1 a -0.3 dependendo da amplitude
  • Ângulo errado nos saltos (corpo não totalmente estendido, por exemplo): -0.1 a -0.5

O que parece subjetivo — “o árbitro decidiu que a postura estava errada” — é na verdade uma tabela de ângulos e posições que o árbitro compara com o que viu em tempo real. Isso não elimina a variação humana na percepção, mas reduz drasticamente. O sistema de 2006 surgiu justamente porque o escândalo do par artístico nos Jogos de Salt Lake City 2002, quando uma juíza francesa admitiu ter inflado nota por pressão da federação, mostrou que o modelo anterior (nota máxima 10, avaliação holística) era suscetível a manipulação em bloco.

Existe ainda um painel separado — o painel de neutros — que avalia aspectos como composição coreográfica, uso do espaço e conformidade às exigências artísticas. No solo feminino, essa avaliação compõe parte da nota E.

Conceito 3: onde Rebeca Andrade se encaixa e o que mudaria em LA 2028

Rebeca Andrade terminou Paris 2024 com quatro medalhas — ouro no individual geral (com prata na barra e bronze no solo e na equipe). É a maior coleção de medalhas olímpicas de uma atleta brasileira na história dos Jogos.

No solo, ela perdeu para Simone Biles por 0.5 ponto. Minha leitura desse resultado: a diferença não foi execução — foi dificuldade estrutural. Rebeca tem nota D consistentemente na faixa de 6.1 a 6.3 no solo. Biles executa exercícios na faixa de 6.6 a 6.9 porque tem elementos catalogados com valores que não existem no repertório de mais ninguém.

Para LA 2028, o caminho de Rebeca passa por uma decisão técnica clara: elevar a nota D adicionando pelo menos um elemento de alta complexidade (G ou acima) ao solo, ou consolidar consistência extrema de execução nos aparelhos onde sua nota D já é competitiva — a trave e o salto. No individual geral, onde a pontuação some os quatro aparelhos, uma nota E excepcional na trave e no salto compensa parte da desvantagem no solo.

Isso não é especulação de fã. É aritmética do Código. Nas quatro provas do individual geral em Paris, a diferença acumulada entre Rebeca e Biles foi de 1.3 pontos. Cerca de 0.3 ponto veio do salto e da trave — aparelhos onde Rebeca tem nota E historicamente mais alta. O restante veio do solo e das barras assimétricas, onde a diferença de D é estrutural.

Sobre o ciclo LA 2028 de forma mais ampla, veja o que já foi mapeado na abertura do ciclo com Calderano e Rebeca e como o sistema de qualificação olímpica funciona para o Time Brasil.

Onde isso falha (limitações do sistema)

O Código de Pontuação não é perfeito. O principal problema é o incentivo perverso que cria: como mais dificuldade = mais pontos, ginastas são pressionadas a incluir elementos de alto risco mesmo que a execução seja comprometida. Uma ginasta que tenta um elemento H e erra levemente ainda pode sair com nota final superior a uma que executa um elemento E de forma impecável.

Isso gerou críticas crescentes dentro da FIG, especialmente após lesões em série durante o ciclo de Tóquio 2020. A federação tem debatido limites de risco nos elementos de valor máximo — mas sem consenso, porque alterar o Código afeta diretamente o ranking global e os valores de treinamento de dezenas de federações nacionais.

Existe também a questão dos elementos epônimos (batizados com o nome da ginasta). Simone Biles tem três. Para uma ginasta obter um elemento no Código com seu nome, ela precisa executá-lo em competição internacional com júri aprovado, submeter à FIG e aguardar avaliação. Rebeca não tem nenhum elemento epônimo ainda — e isso também não é um problema de talento, mas de estratégia de carreira e risco calculado.

O judô passa por dinâmica parecida: o sistema de pontuação por ippon e waza-ari também foi reformulado nos últimos ciclos, como mostra a campanha brasileira no Grand Slam de Astana que rendeu três bronzes ao país. A lógica de construir pontuação ao longo do ciclo olímpico — não apenas nos Jogos — é a mesma em praticamente todos os esportes de código.

Para quem quer entender melhor como o Brasil está posicionado em outros esportes olímpicos coletivos que também têm sistema de pontuação e classificação próprio, o contexto dos brasileiros na NBA mostra outro exemplo de como atletas nacionais navegam sistemas de classificação internacional — desta vez fora do circuito olímpico.

Fontes

Imagem gerada por IA (fal.ai)

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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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