Morreu Don Nelson, o técnico que inventou a NBA moderna
Don Nelson morreu aos 86 sendo o 2º maior vencedor da história da NBA. Inventou o point forward, plantou o small ball e convenceu o Warriors a draftar Curry em 2009.
Don Nelson venceu 1.335 jogos como técnico de NBA. Só um homem na história ganhou mais — Gregg Popovich, que precisou de quase 12 anos depois da aposentadoria de Nelson pra finalmente ultrapassá-lo, em março de 2022. Nelson dirigiu 31 temporadas, foi a 18 playoffs, chegou à final de conferência quatro vezes com três times diferentes. E nunca — nenhuma vez — ganhou um anel como técnico. Ele morreu no domingo, aos 86 anos, e a família anunciou a passagem como “pacífica”, segundo a Yahoo Sports. O anúncio oficial saiu pelo Golden State Warriors, o time que ele definiu mais do que qualquer outro em três décadas e meia de carreira.
A versão de 30 segundos
Nelson jogou 11 dos seus 14 anos como atleta pelo Boston Celtics, com cinco anéis como jogador. Depois virou técnico e inventou peças do basquete que você reconhece sem saber que a origem tem nome: o point forward, o ataque de ritmo acelerado como identidade de time, e a lógica de trocar centímetro por espaçamento — o que hoje qualquer torcedor chama de small ball. Ele nunca converteu isso em título como treinador. Mas convenceu um Warriors moribundo a draftar Stephen Curry em 2009, e foi aí que plantou, sem saber, a semente da dinastia que viria depois dele.
Conceito 1: o point forward que hoje se chama “basquete sem posição”
Nelson dizia que a ideia veio de observar Red Auerbach, seu técnico em Boston, tirar o jogo dos pivôs pesados dos anos 1970 e acelerá-lo pelo contra-ataque. Quando assumiu o Milwaukee Bucks em 1976 — 18 jogos depois da saída de Larry Costello — Nelson foi além: colocou a bola nas mãos de um ala grande, Paul Pressey, e deixou ele organizar o ataque como se fosse armador. Nasceu o “point forward”. Sete títulos seguidos de divisão saíram disso.
Décadas depois, chamamos a mesma coisa de basquete sem posição — o conceito que hoje organiza as posições da NBA de 1 a 5. Todo ala grande que puxa rebote e sai conduzindo, todo pivô que arma jogada no garrafão alto, carrega uma ideia que passou pela cabeça de Nelson em 1976 antes de qualquer analytics department existir.
Conceito 2: Run TMC e We Believe, os dois surtos que anteciparam a Warriors dinastia
O auge estético de Nelson foi em Golden State, onde passou 11 temporadas em dois períodos. Nos anos 1990, montou o trio “Run TMC” — Tim Hardaway, Mitch Richmond e Chris Mullin, os três em quadra ao mesmo tempo por escolha dele, não por acaso — pra jogar o basquete mais rápido da liga. Não ganhou nada de relevante com aquele time, mas ensinou a NBA que ritmo também é vantagem competitiva, o mesmo princípio que hoje qualquer análise de pace usa pra separar times ofensivos de times lentos.
Em 2007, já num segundo capítulo em Golden State, ele fez de novo: os “We Believe” Warriors, liderados por Baron Davis, eram o 8º colocado do Oeste jogando pequeno e rápido contra o time que Nelson tinha treinado antes — o Dallas Mavericks de Dirk Nowitzki, cabeça de chave número 1. O Warriors venceu a série. Foi um dos maiores upsets da história dos playoffs, e a receita — trocar altura por espaçamento de quadra — é literalmente o manual que Steve Kerr usaria pra construir quatro títulos com Curry, Green e Thompson uma década depois. Kerr chamou Nelson, na declaração à Yahoo Sports após a morte, de “verdadeiro inovador” por um estilo que “era heterodoxo na época e hoje é comum”.
Conceito 3: a teimosia que trouxe Curry pro Draft de 2009
Aqui está o detalhe que a maioria já esqueceu: Nelson estava a um ano de ser aposentado à força quando o Warriors tinha a 7ª escolha do draft de 2009. Curry era visto como aposta arriscada — seis times o preteriram antes dele, havia dúvida sobre tamanho, sobre tornozelo, sobre se ele aguentaria o ritmo físico da NBA. O próprio Curry achava que ia parar nos Knicks, na 8ª posição. Foi Nelson quem puxou a sala de draft pra escolhê-lo mesmo assim, com um GM de primeiro ano (Larry Riley) tomando a decisão final e o time já satisfeito, no papel, com Monta Ellis armando.
“Uma das grandes razões pelas quais fui draftado pelo Warriors foi o Don Nelson”, disse Curry em comunicado, segundo a Yahoo Sports. “Dizem que ele nunca gostava de calouro, mas desde o primeiro dia ele me desafiou e me deu espaço pra ser meu melhor em quadra… Nunca vou esquecer a noite em que ele se tornou o técnico com mais vitórias da história, em Minnesota. Ficamos muito felizes por ele.” Nelson só treinou Curry por uma temporada antes de se aposentar de vez — quem destravou o Curry que conhecemos foi Kerr, anos depois — mas sem a teimosia de 2009 não existe ponto de partida.
Onde isso falha: o boletim que ninguém tira de um obituário
Elogio fúnebre tende a esconder a parte ruim. Não vou fazer isso. Se fosse dar notas pro currículo de Nelson como técnico, ficaria assim: inovação tática, A+ — ele literalmente antecipou em 30 anos o estilo que domina a liga hoje. Olho pra talento, A+ — Curry, Nowitzki (que ele e o filho Donnie convenceram a trocar a Europa pela NBA aos 20 anos) e Steve Nash passaram pelas mãos dele antes de virar históricos. Gestão de vestiário jovem, C- — o rompimento com o então calouro Chris Webber em Golden State foi feio o bastante pra deixar Nelson doente e renunciar sob pressão em 1995. Conversão de tudo isso em título como técnico, F — zero, em 31 temporadas.
É uma contradição real, não retórica: o segundo maior vencedor da história da NBA nunca ganhou o troféu que mede vencedores. Isso não apaga o resto. Só prova que genialidade tática e taça não vêm sempre no mesmo pacote — e que o impacto de um técnico às vezes se mede melhor décadas depois, olhando pra quem ele formou, não pro banner que faltou pendurar.
Fontes
Escrito por
Renato Albuquerque
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


