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sábado, 19 de setembro de 2026
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Morreu Don Nelson, o técnico que inventou a NBA moderna

Don Nelson morreu aos 86 sendo o 2º maior vencedor da história da NBA. Inventou o point forward, plantou o small ball e convenceu o Warriors a draftar Curry em 2009.

Renato Albuquerque 5 min de leitura
Ilustração de técnico de basquete à beira da quadra, cena representando a era Don Nelson na NBA
Ilustração de técnico de basquete à beira da quadra, cena representando a era Don Nelson na NBA

Don Nelson venceu 1.335 jogos como técnico de NBA. Só um homem na história ganhou mais — Gregg Popovich, que precisou de quase 12 anos depois da aposentadoria de Nelson pra finalmente ultrapassá-lo, em março de 2022. Nelson dirigiu 31 temporadas, foi a 18 playoffs, chegou à final de conferência quatro vezes com três times diferentes. E nunca — nenhuma vez — ganhou um anel como técnico. Ele morreu no domingo, aos 86 anos, e a família anunciou a passagem como “pacífica”, segundo a Yahoo Sports. O anúncio oficial saiu pelo Golden State Warriors, o time que ele definiu mais do que qualquer outro em três décadas e meia de carreira.

A versão de 30 segundos

Nelson jogou 11 dos seus 14 anos como atleta pelo Boston Celtics, com cinco anéis como jogador. Depois virou técnico e inventou peças do basquete que você reconhece sem saber que a origem tem nome: o point forward, o ataque de ritmo acelerado como identidade de time, e a lógica de trocar centímetro por espaçamento — o que hoje qualquer torcedor chama de small ball. Ele nunca converteu isso em título como treinador. Mas convenceu um Warriors moribundo a draftar Stephen Curry em 2009, e foi aí que plantou, sem saber, a semente da dinastia que viria depois dele.

Conceito 1: o point forward que hoje se chama “basquete sem posição”

Nelson dizia que a ideia veio de observar Red Auerbach, seu técnico em Boston, tirar o jogo dos pivôs pesados dos anos 1970 e acelerá-lo pelo contra-ataque. Quando assumiu o Milwaukee Bucks em 1976 — 18 jogos depois da saída de Larry Costello — Nelson foi além: colocou a bola nas mãos de um ala grande, Paul Pressey, e deixou ele organizar o ataque como se fosse armador. Nasceu o “point forward”. Sete títulos seguidos de divisão saíram disso.

Décadas depois, chamamos a mesma coisa de basquete sem posição — o conceito que hoje organiza as posições da NBA de 1 a 5. Todo ala grande que puxa rebote e sai conduzindo, todo pivô que arma jogada no garrafão alto, carrega uma ideia que passou pela cabeça de Nelson em 1976 antes de qualquer analytics department existir.

Conceito 2: Run TMC e We Believe, os dois surtos que anteciparam a Warriors dinastia

O auge estético de Nelson foi em Golden State, onde passou 11 temporadas em dois períodos. Nos anos 1990, montou o trio “Run TMC” — Tim Hardaway, Mitch Richmond e Chris Mullin, os três em quadra ao mesmo tempo por escolha dele, não por acaso — pra jogar o basquete mais rápido da liga. Não ganhou nada de relevante com aquele time, mas ensinou a NBA que ritmo também é vantagem competitiva, o mesmo princípio que hoje qualquer análise de pace usa pra separar times ofensivos de times lentos.

Em 2007, já num segundo capítulo em Golden State, ele fez de novo: os “We Believe” Warriors, liderados por Baron Davis, eram o 8º colocado do Oeste jogando pequeno e rápido contra o time que Nelson tinha treinado antes — o Dallas Mavericks de Dirk Nowitzki, cabeça de chave número 1. O Warriors venceu a série. Foi um dos maiores upsets da história dos playoffs, e a receita — trocar altura por espaçamento de quadra — é literalmente o manual que Steve Kerr usaria pra construir quatro títulos com Curry, Green e Thompson uma década depois. Kerr chamou Nelson, na declaração à Yahoo Sports após a morte, de “verdadeiro inovador” por um estilo que “era heterodoxo na época e hoje é comum”.

Conceito 3: a teimosia que trouxe Curry pro Draft de 2009

Aqui está o detalhe que a maioria já esqueceu: Nelson estava a um ano de ser aposentado à força quando o Warriors tinha a 7ª escolha do draft de 2009. Curry era visto como aposta arriscada — seis times o preteriram antes dele, havia dúvida sobre tamanho, sobre tornozelo, sobre se ele aguentaria o ritmo físico da NBA. O próprio Curry achava que ia parar nos Knicks, na 8ª posição. Foi Nelson quem puxou a sala de draft pra escolhê-lo mesmo assim, com um GM de primeiro ano (Larry Riley) tomando a decisão final e o time já satisfeito, no papel, com Monta Ellis armando.

“Uma das grandes razões pelas quais fui draftado pelo Warriors foi o Don Nelson”, disse Curry em comunicado, segundo a Yahoo Sports. “Dizem que ele nunca gostava de calouro, mas desde o primeiro dia ele me desafiou e me deu espaço pra ser meu melhor em quadra… Nunca vou esquecer a noite em que ele se tornou o técnico com mais vitórias da história, em Minnesota. Ficamos muito felizes por ele.” Nelson só treinou Curry por uma temporada antes de se aposentar de vez — quem destravou o Curry que conhecemos foi Kerr, anos depois — mas sem a teimosia de 2009 não existe ponto de partida.

Onde isso falha: o boletim que ninguém tira de um obituário

Elogio fúnebre tende a esconder a parte ruim. Não vou fazer isso. Se fosse dar notas pro currículo de Nelson como técnico, ficaria assim: inovação tática, A+ — ele literalmente antecipou em 30 anos o estilo que domina a liga hoje. Olho pra talento, A+ — Curry, Nowitzki (que ele e o filho Donnie convenceram a trocar a Europa pela NBA aos 20 anos) e Steve Nash passaram pelas mãos dele antes de virar históricos. Gestão de vestiário jovem, C- — o rompimento com o então calouro Chris Webber em Golden State foi feio o bastante pra deixar Nelson doente e renunciar sob pressão em 1995. Conversão de tudo isso em título como técnico, F — zero, em 31 temporadas.

É uma contradição real, não retórica: o segundo maior vencedor da história da NBA nunca ganhou o troféu que mede vencedores. Isso não apaga o resto. Só prova que genialidade tática e taça não vêm sempre no mesmo pacote — e que o impacto de um técnico às vezes se mede melhor décadas depois, olhando pra quem ele formou, não pro banner que faltou pendurar.

Fontes

R

Escrito por

Renato Albuquerque

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