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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Pré-temporada da NBA: o placar não prevê nada, mas dois outros números preveem demais

Em 2005-06, o San Antonio Spurs perdeu sete dos nove jogos de pré-temporada e fechou o ano com 63 vitórias. Uma temporada antes, o Phoenix Suns abriu 7-1 na pré-temporada e confirmou com 62. O placar de outubro não serve pra prever maio — mas dois outros números, quase ninguém olha, servem muito mais do que deveriam.

Renato Albuquerque 7 min de leitura
Jogadores de basquete aquecendo em ginásio durante jogo de pré-temporada
Jogadores de basquete aquecendo em ginásio durante jogo de pré-temporada

Na pré-temporada de 2005-06, o San Antonio Spurs perdeu sete dos nove jogos que disputou. Tim Duncan jogava vinte minutos e ia pro chuveiro, o banco reserva rodava gente que não pisaria em quadra na temporada de verdade, e o time parecia, com todo o respeito, ruim. Cinco meses depois, os Spurs fecharam com 63 vitórias — segundo melhor recorde da liga. Uma temporada antes, o Phoenix Suns tinha feito o caminho oposto: abriu a pré-temporada de 2004-05 com 7-1 e confirmou o favoritismo com 62 vitórias quando os jogos passaram a valer. Dois times, duas pré-temporadas opostas, duas contas de maio quase idênticas. Se o placar de outubro bastasse pra prever quem vai ser bom, um dos dois casos estaria mentindo.

A versão de 30 segundos

  • O recorde de vitórias na pré-temporada tem correlação fraca com o da temporada regular — entre 0,30 e 0,40, dependendo do período analisado. Existe, mas não serve pra apostar a manhã de trabalho.
  • Times que vinham de temporada ruim (menos de 30 vitórias) são exceção: a correlação sobe pra perto de 0,69, porque o sistema novo sendo instalado é o próprio conteúdo do teste.
  • O que a pré-temporada prevê muito bem — perto de 0,90 pra cima — é o estilo: ritmo, quanto arremessa de três, quanto pontua por posse. Isso é decisão de técnico, não sorte de amostra pequena.
  • O sinal mais escondido não é quanto o jogador pontuou, é quanto ele participou: usage rate de pré-temporada denuncia mudança de papel antes de qualquer beat writer confirmar.

O placar da pré-temporada é decoração

Comecemos pelo que a maioria do torcedor olha primeiro e é exatamente o que menos importa: quem ganhou e quem perdeu. Um levantamento independente de cinco temporadas (2001-02 a 2005-06, 147 times) encontrou correlação de 0,40 entre a porcentagem de vitórias na pré-temporada e na temporada regular seguinte — segundo o próprio estudo publicado em 82games.com. Pra comparar: o recorde do ano ANTERIOR — informação que você já tinha antes de a pré-temporada nem começar — correlaciona 0,57 com o ano seguinte. O passado prevê o futuro melhor do que o outubro atual. Uma análise mais recente, com dados de 2007-08 em diante e publicada pelo The Ringer, achou número parecido: 0,30.

Tem uma exceção que vale registrar, porque é onde o placar passa a significar algo de verdade. O mesmo estudo do 82games.com separou os times por faixa de vitórias no ano anterior. Quem vinha de menos de 30 vitórias — time reconstruindo, técnico novo instalando sistema do zero — teve correlação de 0,69, e ganhou em média 19 vitórias a mais na temporada seguinte quando a pré-temporada foi boa. Quem vinha de 50 vitórias ou mais teve correlação de -0,04 — nenhuma. Faz sentido: contendor de verdade não usa outubro pra provar nada, usa pra dar minuto de reserva e chegar inteiro em abril. Time ruim jogando sistema novo pra valer é o único caso em que a pré-temporada mostra o time real. Time bom está só economizando gasolina.

O que ela prevê direitinho: o estilo do time, não o resultado

Aqui a conta muda de figura por completo. O mesmo levantamento do The Ringer, olhando estatísticas em vez de vitórias, achou correlações de liga na casa dos 0,90: 0,96 entre pontos por jogo de pré-temporada e de temporada regular, 0,93 em ritmo de posses, e 0,98 na taxa de tentativas de três pontos em nível de liga (0,85 em nível de time). O motivo é simples: essas coisas não dependem de o adversário ser forte ou fraco, nem de quem está em quadra — são decisão de técnico, batida antes do primeiro apito. Se ele decidiu que o time vai jogar rápido e arremessar de três o ano inteiro, já está jogando assim em outubro, contra reserva de qualquer um.

Isso separa duas categorias de número que o torcedor trata como se fossem a mesma coisa. Resultado (vitória, derrota, pontuação do adversário) depende de quem está disponível e de sorte de arremesso — é aí que a correlação desmorona. Estilo (ritmo, seleção de arremesso, quem toca na bola) é a marca registrada do sistema, e o sistema não muda porque é outubro. A pré-temporada não é um teste ruim de “quem é melhor”. É um teste excelente de “como esse time pretende jogar” — só que ninguém separa as duas perguntas antes de julgar o placar.

O sinal escondido: o papel de cada jogador

Tem um terceiro andar nessa história que passa batido até em análise mais séria. Ponto por jogo individual de pré-temporada tem correlação fraquíssima com o começo da temporada regular — perto de 0,18, segundo análise da NBAstuffer pra 2025-26, praticamente ruído. Mas usage rate — quanto da posse do time passa pelas mãos daquele jogador — é outra história, porque não mede quanto o cara acertou, mede quanto o técnico decidiu confiar nele. No mesmo levantamento, RJ Barrett, do Toronto, teve a taxa de uso despencar de 38,1% pra 23,9% entre uma pré-temporada e outra — não porque ele piorou, mas porque o time redesenhou o papel dele em quadra antes de qualquer jogo valer ponto. Quem prestou atenção nesse número em outubro sabia, antes de qualquer beat writer confirmar em novembro, que o Barrett de 2025-26 seria um jogador diferente do de 2024-25.

O mesmo vale em nível de time pra defesa. Defesa individual de pré-temporada oscila — cinco jogos é pouco pra separar boa defesa de sorte de arremesso adversário errado. Mas eficiência defensiva agregada de um time inteiro já mostrou sinal real: o Boston Celtics fechou a pré-temporada de 2024 entre os três melhores em eficiência defensiva da liga e abriu a temporada regular 15 vitórias em 20 jogos, mantendo o padrão. É o mesmo princípio do pace, a estatística que engana quem olha só pontos por jogo: número bruto individual mente, número agregado e ajustado ao contexto fala a verdade — só que aplicado um mês antes de a estatística “valer”.

Minha leitura, juntando os três pedaços: a pré-temporada não é uma partida ruim de amostra pequena pra ignorar por inteiro. São dois experimentos diferentes empacotados no mesmo ingresso. Um mede RESULTADO — quem ganhou, quem foi cestinha — e não serve pra quase nada, com a única exceção do time reconstruindo de verdade. O outro mede DECISÃO — como o técnico pretende jogar, em quem ele confia bola na mão — e serve muito mais do que a manchete “fulano marcou 30 na pré-temporada” faz parecer. O erro do torcedor não é assistir pré-temporada. É assistir a pergunta errada.

Onde isso falha

Nenhum desses números é sólido o bastante pra apostar a temporada inteira nele. Minutagem de pré-temporada é artificial — técnico às vezes dá 25 minutos pro sexto homem só pra ver como ele se sai com carga maior, não porque pretende jogar assim depois. Titular descansa jogo alternado em back-to-back, o que embaralha a leitura de “quem está bem fisicamente”. A NBA também intercala jogos internacionais — Canadá e China na pré-temporada de 2026-27 —, que mudam fuso e disposição de um jeito que não se repete. E mesmo o sinal forte de estilo pode mudar nas duas primeiras semanas reais, quando o técnico vê o adversário de sério pela primeira vez. Tratar qualquer número de pré-temporada como veredito fechado é o mesmo erro de ler amostra pequena como padrão que a mão quente já expôs no basquete — só que com titular em vez de novato, e um verniz de seriedade a mais que engana ainda mais gente.

A pré-temporada de 2026-27 abre em 3 de outubro, com Raptors e Heat em Quebec, e segue até 16, segundo o calendário de datas-chave divulgado pela NBA — quatro dias antes da abertura da temporada regular, em 20 de outubro. Se for acompanhar mesmo assim — tem gente que assiste NBA inteira, então por que não a pré-temporada também —, ignore o placar final e preste atenção em duas coisas: que estilo o técnico está testando, e quem está tocando na bola mais do que tocava no ano passado. É esse o jogo dentro do jogo que a pré-temporada realmente entrega.

Fontes

R

Escrito por

Renato Albuquerque

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