Como funciona a votação do MVP da NBA: painel de 100, pontos e por que ninguém é unânime
Um jornalista vota, e o voto dele vale igual ao de qualquer outro dos cem do painel global. Mas o prêmio não vai pra quem tem mais votos de primeiro lugar — vai pra quem soma mais pontos num ballot de cinco nomes. Refiz a conta da disputa de 2025-26 e o resultado explica por que ninguém, nem Shai Gilgeous-Alexander, sai unânime.
Toda temporada tem um torcedor jurando que o MVP “foi roubado” — que um bando de jornalista decidiu no capricho, olhando manchete em vez de olhar jogo. A reclamação acerta uma parte: são mesmo jornalistas votando, sem fórmula, sem robô cuspindo número. Erra a outra parte, que é achar que isso é o defeito do sistema. O desenho do voto é exatamente o que impede um resultado torto de virar prêmio oficial — e a disputa de 2025-26 entre Shai Gilgeous-Alexander, Nikola Jokić e Victor Wembanyama mostra o mecanismo funcionando com a precisão de uma planilha bem feita.
A tese
Acho que o sistema de pontos da NBA não existe pra ser justo com quem lidera a corrida. Existe pra proteger o prêmio do pior cenário possível: um punhado de votos divergentes decidindo tudo no susto, ou pior, um empate que ninguém sabe destravar. Ele faz isso trocando “quem ficou em primeiro mais vezes” por “quem ninguém teve coragem de deixar de fora do top 5”. A diferença parece cosmética. Nos números oficiais de maio, ela é enorme.
O ballot tem cinco nomes, não um
O prêmio é decidido por um painel global de 100 jornalistas e comentaristas que cobrem a liga, segundo o comunicado oficial da NBA — a apuração fica com a Ernst & Young, firma de auditoria independente, e fecha antes do início dos playoffs. Cada voto não escolhe um nome: ranqueia cinco, do primeiro ao quinto colocado. Cada posição vale pontos fixos — 10 pra primeiro, 7 pra segundo, 5 pra terceiro, 3 pra quarto, 1 pra quinto. Quem soma mais pontos no fim, não quem tem mais votos de primeiro lugar isolados, leva o troféu. Já contei aqui como fechou a corrida de 2025-26, com Gilgeous-Alexander bicampeão. O que falta é explicar por que o placar final ficou tão mais apertado — e tão mais informativo — do que a manchete “SGA vence de novo” deixa parecer.
A tabela que a NBA não publica pronta
A liga solta o total de pontos e, num PDF separado, a distribuição completa de votos por posição. Juntei os dois numa métrica que nenhuma matéria trouxe: pontos médios por cédula em que o jogador apareceu — ou seja, descontando quem nem entrou no top 5 de um voto específico.
| Jogador | Votos de 1º | Aparições no top 5 | Pontos totais | Pontos por aparição |
|---|---|---|---|---|
| Shai Gilgeous-Alexander | 83 | 100/100 | 939 | 9,39 |
| Nikola Jokić | 10 | 100/100 | 634 | 6,34 |
| Victor Wembanyama | 5 | 100/100 | 569 | 5,69 |
| Luka Dončić | 0 | 92/100 | 250 | 2,72 |
| Cade Cunningham | 2 | 59/100 | 117 | 1,98 |
| Jaylen Brown | 0 | 47/100 | 89 | 1,89 |
(Cálculo próprio a partir da distribuição de votos publicada pela NBA e reproduzida pela Sports Illustrated.)
Repare no que a coluna da direita mostra e o total de pontos sozinho esconde: por votos de primeiro lugar, a vantagem de SGA sobre Jokić é esmagadora — 83 contra 10, mais de oito vezes. Por pontos totais, ela cai pra 48%. A ponte entre os dois números é simples: nos 17 ballots em que algum eleitor não colocou Gilgeous-Alexander em primeiro, 13 ainda o colocaram em segundo e só 1 o deixou fora do top 4. Ninguém — literalmente ninguém dos cem — duvidou dele o suficiente pra tirá-lo do pódio pessoal. É esse tipo de unanimidade disfarçada que o usage rate e o PER de Gilgeous-Alexander ajudam a explicar em número — mas é o ballot ranqueado que transforma isso em prêmio sem margem pra recurso.
Quando o sistema pune quem não é unânime
O outro lado da tabela é onde o desenho do voto realmente aperta. Dončić ficou de fora do top 5 em 8 das 100 cédulas — mesmo depois de uma temporada que o levou pro All-NBA — porque parte do painel não achava justo premiar quem chegou aos Lakers em troca cercado de dúvida sobre forma física e net rating do time. Cade Cunningham apareceu em só 59 ballots. E dois nomes — Kawhi Leonard e Donovan Mitchell — receberam exatamente 1 ponto cada, um único voto de quinto lugar isolado, o tipo de reconhecimento que soa mais a “não quis deixar você em branco” do que a candidatura real.
Esse é o efeito que a versão “só conta o primeiro lugar” do prêmio nunca capturaria: separar quem foi indiscutível (SGA, Jokić, Wemby — presentes nos 100 ballots) de quem teve campanha real mas dividiu opinião (Dončić, Cunningham) de quem ganhou um aceno de cortesia (Kawhi, Mitchell). Um sistema de voto único trataria os três grupos como iguais — “recebeu voto” ou “não recebeu”. O ranqueado não.
O contra-argumento honesto
Nada disso torna o painel imune a viés. Um estudo acadêmico sobre comportamento de voto do MVP já documentou que mercado grande, recorde de vitórias do time e volume de cobertura nacional pesam mais do que deveriam pesar puramente em estatística. O painel é global, mas segue majoritariamente americano e canadense, e a apuração fecha antes dos playoffs — o que significa que uma disparada nas últimas semanas da temporada regular tem menos tempo pra convencer quem já mandou o ballot. O sistema de pontos resolve o problema de agregação. Não resolve o problema de quem está sentado na sala decidindo.
Onde isso te leva
Da próxima vez que a manchete disser só “fulano venceu o MVP”, vale abrir os dois números junto: votos de primeiro lugar e pontos totais. Quando os dois contam a mesma história — vitória folgada nos dois —, foi consenso de verdade, como em 2025-26. Quando o primeiro é apertado e o segundo é elástico (ou o contrário), tem uma disputa real escondida atrás do resultado final, do jeito que ninguém enxerga só lendo quem ergueu o troféu em maio.
Fontes
Escrito por
Renato Albuquerque
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


