Supermax na NBA: por que Luka Dončić não pode assinar o maior contrato da liga
Luka Dončić é um dos 3 melhores jogadores do mundo e ainda assim perdeu o direito ao supermax só por causa da data em que foi trocado. Entenda os 4 requisitos que decidem quem pode assinar.
Luka Dončić é, pra praticamente qualquer GM da liga, um dos três ou quatro melhores jogadores do mundo. Em fevereiro de 2025 ele foi trocado pros Lakers numa das negociações mais chocantes da história recente da NBA. E, no exato momento em que o negócio foi fechado, ele perdeu o direito ao maior contrato que a liga permite — não por lesão, não por comportamento, só porque a troca aconteceu na data errada do calendário dele. A diferença chega a mais de cem milhões de dólares que ele nunca vai ver.
Isso soa como regra escondida em letra miúda. Na verdade é a peça mais mal compreendida do sistema salarial da NBA, e entender ela explica por que alguns astros assinam contrato recorde enquanto outros, igualmente bons, ficam de fora.
Os 4 requisitos que decidem quem pode assinar
O nome oficial é Designated Veteran Player Extension — supermax é o apelido que colou. Ele libera o time a oferecer 35% do teto salarial no primeiro ano do contrato, contra 30% do máximo comum. Numa liga onde o teto passa dos 200 milhões de dólares, esses 5 pontos percentuais valem dezenas de milhões por temporada. Mas pra chegar lá o jogador precisa bater em quatro portas ao mesmo tempo, segundo o glossário de contratos do Hoops Rumors:
- Tempo de serviço: entre 7 e 9 anos de NBA. Quem já tem 10+ anos nem precisa dessa regra — já qualifica pro teto de 35% pelas normas padrão de veterano.
- Um prêmio individual pesado: MVP em qualquer uma das últimas 3 temporadas, OU Defensive Player of the Year na temporada anterior (ou em 2 das últimas 3), OU seleção All-NBA na temporada anterior (ou em 2 das últimas 3).
- Continuidade de time: o contrato só pode ser assinado com o time atual do jogador. Sem leilão de mercado livre, sem outra franquia entrando na conversa.
- A pegadinha da troca: se o jogador mudou de equipe em algum momento da carreira, essa troca só pode ter acontecido durante o contrato de novato (os 4 primeiros anos de carreira). Trocado depois disso, o jogador perde a elegibilidade pro resto da carreira até completar 10 anos de serviço.
É o item 4 que pegou Dončić. Ele foi draftado pelo Dallas em 2018, assinou a extensão de novato em 2021 e só foi trocado — pros Lakers — em fevereiro de 2025, no meio da sétima temporada. Fora da janela. Por regra, ele não pode assinar supermax com os Lakers até completar 10 anos de NBA, o que só acontece na temporada 2028-29, segundo reportagem da CNBC sobre o caso. Enquanto isso, o teto dele fica em torno de 4 anos por US$ 229 milhões — ainda contrato de superstar, mas bem distante do supermax de 5 anos por US$ 345 milhões que estava na mesa antes da troca.
Quem já assinou — e por quanto
A lista de quem passou pelas quatro portas ao mesmo tempo é curta. Veja como fica hoje, comparando os supermax mais recentes da liga:
| Jogador | Time | Contrato | Gatilho |
|---|---|---|---|
| Jayson Tatum | Boston Celtics | 5 anos, US$ 313,9 milhões (2024) — maior da história da NBA | All-NBA |
| Nikola Jokić | Denver Nuggets | 5 anos, US$ 276,1 milhões (2022) | MVP |
| Shai Gilgeous-Alexander | Oklahoma City Thunder | 4 anos, US$ 285 milhões (2025) | MVP |
| Joel Embiid | Philadelphia 76ers | 3 anos, US$ 187,9 milhões (2024) | MVP |
| Luka Dončić | Los Angeles Lakers | Sem acesso ao supermax até 2028-29 | Trocado fora da janela |
Repare no padrão: Tatum, Jokić, SGA e Embiid nunca trocaram de time desde o draft. É basicamente a única forma segura de garantir o cheque de 35%. SGA venceu o MVP em 2024-25 e assinou o supermax logo em seguida — e depois disso ainda faturou o bicampeonato de MVP, reforçando um currículo que já garantia o topo do mercado antes mesmo do segundo troféu.
O contraste fica mais gritante quando você olha pro outro extremo da tabela salarial. Já escrevi sobre o contrato two-way, que paga menos de US$ 700 mil por temporada — e é a mesma liga, o mesmo teto salarial, a mesma CBA. O supermax e o two-way são as duas pontas de um sistema desenhado pra recompensar dois tipos de aposta completamente diferentes: uma paga o cara que já provou tudo, a outra paga o cara que ainda não teve chance de provar nada.
O contrato mais caro nem sempre é a melhor jogada
Minha leitura sobre essa regra: ela é boa demais pro time e ruim demais pro jogador, e a NBA sabe disso. Ela existe pra resolver um problema específico — manter a estrela na cidade que a revelou, sem deixar o mercado livre virar leilão — mas o preço dessa estabilidade cai inteiro nas costas de quem, como Dončić, teve o azar de ser negociado no momento errado do relógio contratual. Ninguém questiona o talento dele. A regra não olha pra talento, olha pra data.
E tem um efeito colateral que os times aprenderam a explorar: como o supermax trava o atleta numa faixa de idade em que o corpo ainda aguenta o esforço mas o contrato já pesa no teto salarial nos anos finais, GMs espertos evitam oferecer supermax pra quem tem histórico de lesão recorrente — mesmo quando o currículo bateria nos critérios. É por isso que nem todo All-NBA vira supermax automático: a decisão de oferecer é do time, não é automática pela regra.
Onde isso pode falhar
A regra pressupõe que “ficar no mesmo time” é sempre a melhor opção pro jogador — nem sempre é. Um astro preso num projeto perdedor pode preferir abrir mão do supermax pra forçar troca pra time competitivo, como aconteceu recentemente com Kawhi Leonard e a novela dos Clippers. E como segundo apron trava o gasto dos times acima da linha de luxury tax, um supermax mal calculado pode empurrar a franquia inteira pra dentro de restrições que impedem contratar reforço nos anos seguintes — o que às vezes torna o contrato mais caro do mundo uma armadilha, não um prêmio.
Perguntas que aparecem toda vez que um astro assina supermax
Um jogador pode recusar o supermax e virar agente livre em vez disso? Pode. Recusar a extensão e esperar o contrato vencer é estratégia válida — mas o jogador corre o risco de se lesionar antes de assinar o próximo contrato, e o time original ainda tem vantagem de Bird Rights pra oferecer mais dinheiro que qualquer rival.
O supermax pode ser cancelado depois de assinado? Não por desempenho. Uma vez assinado, é contrato garantido como qualquer outro na NBA. A única trava é que o jogador não pode ser trocado no primeiro ano após assinar.
Todo campeão de MVP tem direito automático ao supermax? Tem elegibilidade, não automatismo. O time decide se oferece. Um jogador pode cumprir os 4 requisitos e o GM simplesmente preferir não empatar o teto salarial nele — normalmente por histórico de lesão ou porque o time já está perto do segundo apron.
Fontes
Escrito por
Renato Albuquerque
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