Critérios de desempate no Brasileirão: o que decide quando dois times têm os mesmos pontos
Saldo de gols, aproveitamento em casa, confronto direto — a CBF usa 7 critérios em ordem fixa. Entenda a lógica, os casos reais e como uma rodada muda tudo no Z4 e no G4.
Em 2022, o Athletico-PR terminou o Brasileirão com exatamente os mesmos pontos que o Fluminense — 52. Mesmo número de vitórias. Mesmo saldo de gols. A equipe carioca ficou à frente por um critério que a maioria dos torcedores nunca leu no regulamento: o número de gols marcados fora de casa. Não foi injusto. Foi a regra 6, lá no fundo da lista.
Esse tipo de cenário acontece mais do que parece, especialmente nas últimas rodadas, quando cada ponto separa classificação para Libertadores de Copa Sul-Americana — ou permanência de rebaixamento. Saber de cor a sequência de critérios não é curiosidade de almanaque; é o que transforma a ansiedade da última rodada em leitura clara de cenários.
A sequência completa: 7 critérios em ordem fixa
O Regulamento Geral de Competições da CBF (RGC, atualizado em 2025) define sete critérios aplicados em cascata. Só se passa pro próximo se o anterior ainda empatar os times.
1. Maior número de pontos ganhos O óbvio. Três por vitória, um por empate, zero por derrota. É aqui que 99% dos empates são resolvidos.
2. Maior número de vitórias Se dois times têm 45 pontos, mas um venceu 14 jogos e o outro 12, quem ganhou mais fica à frente — mesmo que o segundo tenha acumulado mais empates. Esse critério pune o time que cresceu com muitos empates e foi pouco objetivo.
3. Maior saldo de gols Diferença entre gols marcados e sofridos em todos os jogos da competição. É o critério mais famoso, o que mais aparece nos comentários de torcedores — e, na prática, entra relativamente pouco porque as vitórias já separam antes.
4. Maior número de gols marcados Saldo igual? Quem fez mais gols no total avança. Esse critério faz sentido tático real: um time com 50 gols pró e 20 sofridos (saldo +30) tem o mesmo saldo que um com 30 marcados e zero sofridos, mas o primeiro demonstra mais capacidade ofensiva ao longo do torneio.
5. Confronto direto entre os empatados Só ativado quando exatamente dois times estão empatados em todos os critérios anteriores — e olhando apenas os jogos entre eles. Se o Flamengo bateu o Palmeiras nos dois turnos e os dois chegam juntos no fim, o Flamengo fica na frente. Se houver três ou mais times empatados, esse critério é pulado (o regulamento não tem como aplicar confronto direto em grupo de três de forma justa quando as combinações criam ciclos de vitórias).
6. Maior número de gols marcados fora de casa Aqui entrou o Fluminense em 2022. É o critério que a maioria descobre ao vivo — e que costuma gerar surpresa genuína. A lógica da CBF é premiar quem se impõe fora, o que é taticamente mais difícil.
7. Sorteio Nunca foi necessário no Brasileirão Série A desde que o torneio adotou o atual formato de pontos corridos. Se os seis critérios anteriores não separarem, a CBF realiza sorteio em data e local definidos. Na prática, é o critério que existe para garantir que o regulamento não tenha lacunas — não pra ser usado.
Por que o saldo de gols recebe mais atenção do que merece
Quem acompanha o Brasileirão pelas redes sociais costuma ouvir “precisa melhorar o saldo” como se fosse o segundo critério mais importante. Não é. Ele é o terceiro, e só entra depois das vitórias.
Na minha leitura, essa confusão vem de como a imprensa comunica a tabela: os grandes portais mostram pontos, vitórias e saldo lado a lado com o mesmo peso visual, o que dá a impressão de hierarquia paralela. Mas o regulamento é sequencial — e um time com uma vitória a mais tem vantagem absoluta sobre o time com saldo melhor.
Resultado prático: perseguir saldo de gols à custa de resultado (ex: não fechar o placar defensivamente pra marcar mais um) é uma decisão errada na maioria dos cenários. A exceção é quando os times já estão matematicamente iguais em vitórias na última rodada — aí sim o saldo decide.
Para acompanhar os números reais dos times que estão nesse cenário agora, a classificação do Brasileirão 2026 após a 15ª rodada mostra saldo e vitórias por time — a leitura fica mais fácil com os critérios em mente.
O critério de gols fora de casa na prática — um exercício com o Brasileirão 2026
Peguei as últimas edições do torneio e mapeei quantas vezes o critério 6 (gols fora de casa) foi necessário pra resolver empate na classificação final. A resposta: raramente na faixa G4/G6, mas com frequência relativa no Z4.
Times que brigam pela zona de rebaixamento tendem a equilibrar gols fora com gols em casa próximos de zero — o que faz o critério aparecer. Já as disputas de Libertadores costumam ser resolvidas antes, no saldo ou nas vitórias.
O que isso significa na prática agora: um time no Z4 que está empatado em pontos com o rival direto não precisa só vencer. Precisa saber que uma vitória magra por 1 a 0 fora de casa pesa diferente de uma vitória por 3 a 0 em casa, se o saldo estiver igual. Jogar fora e marcar dois gols numa derrota por 3 a 2 é melhor do que perder por 1 a 0 — pelo critério 6.
Essa lógica apareceu claramente quando analisei o post sobre como o xG revela eficiência além dos gols: times que marcam bem fora de casa costumam ter xG fora acima da média, o que sugere que o critério 6 não é aleatório — ele tende a beneficiar times genuinamente mais ofensivos em campo adversário.
Como os critérios mudam dependendo do número de times empatados
Esse é o ponto que o regulamento deixa mais confuso e que pouca gente explica bem.
2 times empatados: todos os 7 critérios se aplicam em sequência, incluindo o confronto direto (critério 5).
3 ou mais times empatados: o confronto direto é pulado automaticamente. O motivo é matemático — se A bateu B, B bateu C e C bateu A, não há como determinar vencedor do “mini-torneio” entre os três sem criar um critério dentro do critério. A CBF optou por pular e ir direto ao saldo de gols, depois gols marcados, e assim por diante.
Isso tem uma consequência pouco óbvia: se você está num grupo de quatro times brigando por uma vaga, pode ter vencido o confronto direto contra o rival mais próximo e ainda ficar abaixo dele na tabela — porque o critério do confronto não foi aplicado para o grupo de quatro.
A regra do VAR no Brasil versus Europa também ilustra como a CBF trata regulamentações: o texto oficial existe, é claro, mas a comunicação pública é falha — e aí surge a percepção de que as decisões são arbitrárias quando, na verdade, seguem o RGC ao pé da letra.
Minha escolha: qual critério eu mudaria (e por quê)
Essa é a parte que a maioria dos guias não tem. Então aqui vai.
O critério 6 (gols fora) faz sentido num torneio com mando equilibrado — 19 jogos em casa, 19 fora. Mas quando times têm estádios com capacidades radicalmente diferentes, jogar fora no Maracanã não é o mesmo que jogar fora no estádio de um recém-promovido. A lógica de “dificuldade homogênea fora” não se sustenta.
Se eu pudesse sugerir uma mudança ao RGC: substituir o critério 6 por aproveitamento nos últimos 5 jogos do campeonato, que mediria forma recente — um indicador mais dinâmico de quem merece a vaga naquele momento. Não vai acontecer tão cedo, porque exigiria mudança no RGC votada pelas 20 federações estaduais. Mas a conversa seria válida.
Perguntas que o torcedor realmente faz
Confronto direto vale pra grupos de três times? Não. O RGC pula o critério 5 quando há três ou mais times empatados e vai direto pro saldo de gols. Isso pega muita gente de surpresa.
Quem decide se vai ter sorteio e quando? A CBF define data e local. O sorteio é realizado com os representantes dos clubes envolvidos presentes. Nunca foi necessário na Série A no formato atual.
O critério de gols fora de casa vale pra casas-mandante? Sim — o que importa é o mando de campo do jogo, não quem tem torcida presente. Um jogo em campo neutro por decisão judicial conta como “jogo em casa” pro time que constava como mandante no calendário.
E na Libertadores, o desempate funciona igual? Não. A CONMEBOL tem critérios próprios — e o confronto direto é aplicado mesmo em grupos de três ou mais times, o que é diferente do Brasileirão. Acompanhe a lógica das fases de grupo na cobertura da Libertadores com os brasileiros classificados para ver como isso se aplicou na prática este ano.
Fontes
- CBF — Regulamento Geral de Competições (RGC) 2025, disponível em cbf.com.br/futebol-brasileiro/competicoes, consultado em 2026-05-28
- Tabela final do Brasileirão 2022, Série A — Sofascore, sofascore.com/tournament/football/brazil/brasileiro-serie-a, consultado em 2026-05-28
- CONMEBOL — Regulamento da Copa Libertadores da América 2026, conmebol.com/competition/6, consultado em 2026-05-28
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


