terça-feira, 26 de maio de 2026
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Carta de Zak Brown à FIA: o problema das "equipes A/B" voltou (e desta vez é Mercedes-Alpine)

Brown escreveu a Ben Sulayem pedindo o fim das alianças entre equipes. O alvo direto é a Mercedes comprando fatia da Alpine. Por que isso quebra a F1 — e por que pode passar mesmo assim.

Jhonathan Meireles 7 min de leitura
Zak Brown, CEO da McLaren, em entrevista no paddock da Fórmula 1 vestindo camisa polo papaya laranja com microfone.
Zak Brown, CEO da McLaren, em entrevista no paddock da Fórmula 1 vestindo camisa polo papaya laranja com microfone.

Há uma frase que Zak Brown repete em entrevista de paddock desde 2022: “In F1, you can’t have one team helping another finish higher.” Em maio de 2026, ele finalmente botou no papel e mandou para Mohammed Ben Sulayem. A carta da McLaren à FIA, revelada nesta quinta (14/05) pela The Race, pede uma coisa só: que a Federação proíba qualquer coproprietariedade entre equipes de F1 e regule mais duramente as alianças técnicas existentes.

O motivo imediato é que a Mercedes negocia uma participação acionária na Alpine, e o Grupo Renault confirmou na semana passada, pela RACER, que a Mercedes é o licitante preferido. Brown não disse “Mercedes” na carta. Mas todo o paddock entendeu o nome.

A versão de 30 segundos

Equipe A/B é o apelido informal que se dá a duas escuderias da F1 que dividem cliente, fornecedor, dono ou tecnologia de tal forma que uma trabalha — direta ou indiretamente — em favor da outra. Foi assim com Ferrari e Haas em 2019 (a Haas comprava da Ferrari tudo que o regulamento permitia). É assim com Red Bull e RB (antiga AlphaTauri), que pertencem ao mesmo grupo. E pode ser, em breve, com Mercedes e Alpine, se a operação acionária sair.

A carta de Brown ataca esse arranjo em três frentes:

  • Esportiva: equipe B vota nas reuniões da Comissão F1 em sintonia com a equipe A, distorcendo decisões.
  • Financeira: o orçamento de equipe A pode ser, na prática, ampliado via compras em equipe B com preço de mercado pouco transparente.
  • Técnica: peças desenvolvidas em equipe A são vendidas a B com supostas margens — na prática, transfere-se P&D.

A frase mais dura da carta, citada pela Motorsport.com, foi: “There is a real concern that the sport risks taking a step backwards in terms of integrity and fairness.”

Conceito 1 — O que mudou no regulamento de 2026 que torna isso urgente

A F1 entrou em 2026 com novo regulamento técnico (chassis mais leve, aerodinâmica ativa, motor 50/50 elétrico-combustão) e novo Concorde Agreement (o contrato comercial entre FOM, FIA e equipes que vai até 2030). O detalhe que pouca gente percebeu: o teto orçamentário caiu de US$ 135 mi (2025) para US$ 130 mi (2026), com previsão de US$ 125 mi em 2027.

Em regime de teto baixo, o que faz diferença é P&D distribuída — quem consegue acessar mais cérebros, mais túneis de vento e mais bancada CFD sem estourar o cap, vence. Aliança entre equipes é exatamente o mecanismo que permite isso. A Red Bull, na temporada 2024, fez uso público dos recursos compartilhados com a RB (cá entre nós: Tsunoda no AMR23 de teste em Imola não foi cortesia social).

Brown está dizendo: se o regulamento é desenhado para igualar as equipes pelo dinheiro, alianças quebram a igualdade. E ele tem razão técnica nisso.

Conceito 2 — Por que a Red Bull não foi citada na carta (mas todo mundo sabe)

A carta da McLaren formalmente foca em “alianças futuras” — ou seja, evita atacar diretamente o casamento Red Bull/RB que já existe desde a aquisição da Minardi por Dietrich Mateschitz em 2005. Por dois motivos:

Primeiro, político: atacar uma estrutura existente abre processo, vira contencioso jurídico longo, e a McLaren não tem apetite por isso quando está líder do campeonato de Construtores. Segundo, técnico: o regulamento atual permite explicitamente que duas equipes do mesmo grupo industrial existam, contanto que partilhem só componentes “listados como adquiríveis” (caixa de câmbio, suspensão traseira). O que Brown quer é estreitar a lista — não acabar com o sistema retroativamente.

Christian Horner reagiu, em fala vista por muitos como provocação, dizendo que ele “se sente vindicado” pela mudança recente da FIA. O que não é coincidência — a FIA já vinha movendo peças em direção a regulação mais clara, antes da carta da McLaren, mas mantendo a Red Bull em paz.

Conceito 3 — O que a Mercedes ganha comprando a Alpine (e por que pode passar)

A Mercedes não precisa da Alpine pelo carro — o W17 é competitivo, George Russell está em forma e Antonelli, segundo a RacingNews365, está se firmando como pilar do futuro. A Mercedes precisa da Alpine pela infraestrutura francesa: o complexo de Enstone-Viry tem capacidade adicional de túnel de vento, bancada de motor e — crucialmente — capital de equipe-cliente para o motor Mercedes a partir de 2026, quando a Renault abandona oficialmente a F1 como fabricante.

Em economês: comprar 30-40% da Alpine custa para a Mercedes algo entre €120-180 milhões (estimativa do Financial Times, reportada pela Motorsport Week). Em troca, a Mercedes ganha:

  • Cliente garantido de motor para 5+ anos;
  • Acesso a túnel de vento adicional sem violar o regulamento de uso de túnel próprio;
  • Mão de obra de engenharia francesa (cara de contratar diretamente, barata via M&A);
  • Poder de voto adicional na F1 Commission (o ponto que mais incomoda Brown).

Pode passar? Pode. Toto Wolff é articulado, a FIA tem incentivo a manter dois fabricantes ativos na F1 europeia (Mercedes + Audi a partir de 2026), e a Alpine sem comprador vira candidata a colapso. A política realista cabe num lugar diferente da carta de Brown.

Onde isso falha — o lado de Brown não é só altruísmo

Vou ser honesto: a McLaren não está escrevendo essa carta por filantropia esportiva. A McLaren-Mercedes é parceira de motor da Mercedes desde 2021. Em 2025, a McLaren ganhou Construtores e perdeu o Pilotos por 7 pontos para Verstappen. Se a Mercedes ganhar mais músculo via Alpine, a primeira equipe a sentir é a McLaren — porque a McLaren depende do motor Mercedes mais do que qualquer outra estrutura no grid.

Em paralelo, Brown também pediu à FIA que reveja a estrutura de propriedade em geral — o que inclui revisar a relação de equipe-cliente da Williams com a Mercedes (motores), da Haas com a Ferrari (toda a transmissão) e, claro, da RB com a Red Bull. A pauta é “anti-aliança”, mas a beneficiária maior, se passar, é McLaren.

Aceitar a carta como ato cívico é ingênuo. Aceitar a carta como movimento estratégico de uma equipe líder protegendo posição é honesto. As duas leituras coexistem, e a FIA vai decidir qual prevalece.

O calendário a partir daqui

A FIA tem 90 dias para responder a comunicações formais entre equipes principais — então até meados de agosto, Ben Sulayem deve emitir parecer público. A próxima reunião da F1 Commission é em 3 de junho de 2026, antes do GP do Canadá. É lá que a carta vira pauta. E é lá que Brown vai saber se a luta dele tem aliados ou se vai sozinho.

Aposto que sai com Williams, Audi/Sauber e Aston Martin a favor. Ferrari ambígua (depende do que faz a Haas), Red Bull francamente contra. Mercedes obviamente contra. Placar 5-4 ou 4-5, dependendo de quem cair em que lado da Ferrari. É exatamente o tipo de placar que faz a FIA decidir “vamos estudar mais” — e estudar mais, em F1, é o nome polido para “vamos manter como está”.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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