Superlicença da F1: como funciona o sistema de pontos que barrou Colton Herta
A Red Bull tinha vaga, contrato quase pronto e um piloto rápido. Faltaram 8 pontos numa conta que a FIA nunca reabre. Expliquei o sistema de superlicença e o buraco que ele deixa aberto.
Em setembro de 2022 a Red Bull tinha praticamente tudo fechado: Pierre Gasly sairia da AlphaTauri pra Alpine, e o assento ficaria com um piloto de 22 anos que vinha impressionando testes em carro de F1. O nome era Colton Herta, referência da IndyCar americana. Contrato pronto, patrocínio pronto, faltava só um carimbo. A FIA negou. Não por falta de velocidade — por falta de 8 pontos numa conta que a maioria dos torcedores nunca ouviu falar: a superlicença.
Herta somava 32 pontos no sistema. Precisava de 40. Não teve exceção, não teve recurso público, e o assento foi pro holandês Nyck de Vries, que tinha acabado de pontuar de estreia pela Williams em Monza. A história expõe uma regra que decide quem chega à Fórmula 1 antes mesmo do talento entrar em cena — e que tem um ponto cego que ninguém na FIA gosta de admitir.
A versão de 30 segundos
Toda Fórmula 1 exige que o piloto acumule 40 pontos de superlicença somados nos 3 anos anteriores à temporada em que vai correr. Os pontos vêm de posição de chegada em campeonatos aprovados pela FIA — Fórmula 2, Fórmula 3, IndyCar, Super Fórmula, WEC, Fórmula E, entre outros —, cada categoria com sua própria tabela de conversão. Sem os 40 pontos, não existe superlicença. Sem superlicença, não existe grid.
Conceito 1 — por que existe uma régua e por que ela nasceu de um susto
A regra não é antiga. Ela surgiu em 2016, direto de uma reação a Max Verstappen debutando na F1 aos 17 anos em 2015, com pouquíssima experiência em carro de asas — a FIA temeu abrir precedente pra jovens talentosos demais, rápidos demais e crus demais pra correr ao lado de carros a 300 km/h. A régua de pontos tenta separar “rápido no simulador” de “pronto pra dividir pista com Verstappen e Norris”.
Faz sentido como filtro. O problema é que “aprovado pela FIA” é a chave da frase — e é aqui que a régua vira injusta com quem construiu carreira fora da Europa, como veremos no Conceito 3. Pra entender por que tanta gente promissora passa primeiro pela Fórmula 2 e Fórmula 3 antes de sequer cogitar F1, é preciso olhar a tabela de conversão — e ela não é uniforme entre categorias.
Conceito 2 — a tabela que ninguém lê até precisar dela
Segundo o próprio regulamento da FIA, replicado pela Autosport, os pontos por posição de chegada no campeonato variam assim nas categorias mais usadas:
| Posição final | Fórmula 2 | IndyCar | Fórmula 3 | Fórmula E |
|---|---|---|---|---|
| 1º | 40 | 40 | 30 | 30 |
| 2º | 40 | 30 | 25 | 25 |
| 3º | 40 | 20 | 20 | 20 |
| 4º | 30 | 10 | 15 | 10 |
| 5º | 20 | 8 | 12 | 8 |
Reparei numa coisa que nenhuma das matérias sobre o caso Herta menciona direto, só cita os números soltos: o pódio da F2 vale liso — campeão, vice ou terceiro colocado, os três levam os mesmos 40 pontos, o total que basta pra correr na F1 sozinho. Já o pódio da IndyCar tem degrau: campeão leva 40, mas vice já cai pra 30 e o terceiro despenca pra 20 — metade do que vale o mesmo terceiro lugar na F2. É essa curva mais agressiva, não falta de talento, que deixa um piloto de IndyCar precisando de mais temporadas boas pra chegar aos 40 do que um rival equivalente na Europa.
Foi exatamente isso que aconteceu com Herta: ele nunca venceu o campeonato de IndyCar (2º lugar foi o melhor resultado dele na carreira), então nunca bateu o teto de 40 puro. Foi somando pontuações de temporadas diferentes, dentro da janela de 3 anos, e parou em 32 — a régua da IndyCar simplesmente não perdoa quem fica “só” em segundo.
Conceito 3 — as válvulas de escape (e por que nenhuma serviu)
O regulamento prevê uma saída: com 30 pontos, a FIA pode conceder a superlicença por discricionariedade própria, em caso de força maior ou circunstância fora do controle do piloto. Herta tinha 32 — dois pontos acima desse piso — e mesmo assim não recebeu o waiver. A FIA nunca publicou o critério exato usado pra negar, só confirmou a decisão em nota, segundo reportagem da RACER. Bryan Herta, pai e chefe de equipe do piloto, ainda tentou uma segunda rota: colocar o filho correndo na Fórmula Regional Americas, categoria que dá mais pontos por posição do que a Indy Lights, só pra fechar a conta rápido. Segundo o diretor de prova da categoria, Scott Goodyear, a própria série aprovou a inscrição — quem travou foi a FIA, recusando liberar o “protocolo” pra essa entrada de última hora, de acordo com a PlanetF1.
Ou seja: nem os 30 pontos do waiver discricionário, nem a tentativa de correr numa quarta categoria só pra pontuar, resolveram. A régua fechou por todos os lados ao mesmo tempo — e é exatamente esse tipo de decisão fechada, sem critério publicado, que faz o piloto ficar sem chão pra recorrer.
Onde isso falha
Acho que o sistema acerta no objetivo (barrar piloto cru demais) e erra na execução (punir geografia de carreira). Um piloto que vence F3 europeia aos 19 anos entra direto com 30 pontos — quase lá. Um piloto que compete nos Estados Unidos, onde a estrutura de base é IndyCar e Indy Lights, precisa ser sistematicamente melhor que o rival europeu só pra empatar no total de pontos, porque a régua trata resultado americano como “menos garantido” que resultado europeu, mesmo em categorias de nível técnico comparável. É por isso que academias de base — como venho cobrindo no comparativo entre Red Bull, Ferrari e Mercedes — empurram o piloto pra Europa cedo: não é só nível de pista, é a régua de pontos jogando a favor de quem sai de lá.
O caso Herta também reacende outra discussão que corre em paralelo há anos, a de como o mercado de pilotos decide quem sobe e quem fica esperando: times querem contratar rápido, a régua da FIA trabalha em ciclo de temporada, e no meio desse descompasso um piloto rápido fica de fora por decisão administrativa, não por decisão de pista. Se a FIA quisesse resolver o ponto cego de verdade, bastaria equalizar a curva de pontos por pódio entre categorias equivalentes — ou publicar o critério do waiver discricionário. Nenhuma das duas coisas aconteceu até hoje, e o próximo Herta da vez vai bater na mesma parede.
Fontes
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


