terça-feira, 26 de maio de 2026
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Ferrari abaixo do Ford. O veredicto de motor que chega depois do Canadá

Leclerc admite déficit de potência "até mesmo pra Ford". Bortoleto diz que a Audi "simplesmente não tem potência". E a FIA vai anunciar quem ganha fichas extras de desenvolvimento. Está tudo prestes a mudar.

Jhonathan Meireles 5 min de leitura
Carro de Fórmula 1 com unidade de potência em destaque no paddock
Carro de Fórmula 1 com unidade de potência em destaque no paddock

Tem uma frase que Charles Leclerc não deveria ter precisado dizer. Na véspera do GP do Canadá, numa coletiva de imprensa, o monegasco olhou pra câmera e confirmou o que todo paddock já sabia em voz baixa: a Ferrari está abaixo em potência de motor “até mesmo para o Ford”. Para quem não localiza: o “Ford” aqui é o motor que a Red Bull usa como fornecedora americana — uma unidade que, até ontem, ninguém chamava de referência de potência bruta.

Trinta quilômetros adiante nos boxes de Gilles Villeneuve, Gabriel Bortoleto estava dizendo algo parecido, só que sobre a Audi: “a gente simplesmente falta potência”. Sem rodeios. Sem curvar a frase. O brasileiro de 20 anos, que entrou na F1 neste ano pelo projeto mais ambicioso da história recente da categoria, resumiu o problema de uma construtora alemã de luxo em seis palavras.

É sexta-feira de treinos em Montreal. E a briga de motor que vai definir a segunda metade de 2026 está prestes a ter um árbitro externo.

O que é o ADUO e por que o Canadá aciona o gatilho

Depois da corrida de domingo, a FIA conduz sua primeira avaliação formal do sistema ADUO — Additional Development and Upgrade Opportunities. O mecanismo, criado especificamente para o ciclo regulatório 2026, funciona assim: se um motor estiver mais de 2% abaixo do melhor da grelha em potência, o fabricante recebe crédito extra de desenvolvimento fora do teto financeiro. Se estiver mais de 4% atrás, recebe duas fichas extras.

O resultado sai duas semanas depois do Canadá. Aí o jogo muda.

Segundo o Motorsport.com, Bortoleto descreveu o problema da Audi como uma “combinação de potência, entrega de energia, eficiência e dirigibilidade” — não é uma coisa só. O time não pontuou nas últimas três etapas. Uma construtora que chegou à F1 com orçamento de país médio está correndo no fundo do grid com chassis decente e motor defasado.

A Ferrari tem um perfil diferente, mais preocupante em termos competitivos. O Autosport reporta que o déficit estimado da Ferrari para a Mercedes está na faixa de 20 a 30 cavalos. Leclerc foi mais longe: disse que o carro tem “ganhos enormes” a fazer em potência, e que o circuito de Gilles Villeneuve — com suas retas longas e chicane pesada — vai custar tempo precioso tanto a ele quanto a Lewis Hamilton.

A diferença entre problema de Ferrari e problema de Audi

Aqui é onde eu acho que a maioria das análises erra o enquadramento.

O problema da Ferrari e o problema da Audi parecem o mesmo — “falta motor” — mas são patologias distintas. Ferrari tem um motor maduro com déficit específico de potência, construído por uma organização que sabe fazer motores de F1 desde que o esporte existe. Eles já sabem o que consertar. A questão é se o ADUO dá fichas suficientes para fazer as mudanças no prazo que precisam, sem esperar o novo ciclo de congelamento.

A Audi é outra história. É a primeira unidade de potência que a marca alemã projeta para a F1. O erro inicial de conceito — que vazamentos técnicos e o próprio Bortoleto confirmaram indiretamente — não é de magnitude, é de arquitetura. Mais dinheiro de desenvolvimento ajuda, mas não substitui ciclos de aprendizado que a Mercedes, Honda e Ferrari têm há décadas.

O relatório do The Race colocou isso em perspectiva: os problemas da Audi são estruturais no projeto do motor, não ajustes de calibração. Ficha extra de ADUO não transforma esse projeto num motor de primeira linha em seis meses.

O que o Antonelli e a Mercedes têm a ver com tudo isso

Kimi Antonelli chega ao Canadá como líder do campeonato com 20 pontos de vantagem sobre Russell — e com três vitórias consecutivas no bolso. O motor Mercedes é, de longe, o melhor do grid neste momento. McLaren traz um pacote de upgrades massivo em sete áreas do carro justamente porque sabe que sem fechar o gap de chassi, o motor sozinho não sustenta.

Esse contraste é útil para calibrar o que o ADUO pode e não pode fazer. Quando um motor é dominante como o da Mercedes, os adversários precisam de ganhos de chassis E motor para desafiá-lo. Ferrari tem o chassis certo — e o motor errado. Se o ADUO liberar crédito extra para Maranello, a Ferrari tem real capacidade de usar esse dinheiro de forma produtiva. É uma diferença importante.

Já para a Audi, o ADUO é oxigênio num pulmão que precisa de mais tempo para se fortalecer. Bortoleto vai continuar correndo com um motor abaixo das expectativas por alguns GPs ainda.

O que fazer com essa informação antes da corrida de domingo

Na minha leitura, há três apostas razoáveis para acompanhar no fim de semana:

Primeira: se chover em algum momento do fim de semana em Montreal — e a previsão indica possibilidade — Ferrari e Audi melhoram relativamente sua posição. Água na pista nivela potência de motor. Leclerc no molhado é um argumento por si só.

Segunda: o resultado do ADUO vai aparecer em conversas de paddock já nesta semana, mesmo antes do anúncio oficial. Observar como Binotto (Audi) e Vasseur (Ferrari) falam sobre desenvolvimento de motor nas próximas duas semanas vai ser tão revelador quanto o resultado em si.

Terceira — e essa é minha aposta mais firme: Ferrari usa o crédito ADUO de forma mais eficiente do que qualquer outra construtora em déficit. O histórico da Scuderia com redesenho de unidade de potência dentro de uma temporada é longo. Se o veredicto da FIA der duas fichas a Maranello, a segunda metade de 2026 vai ser diferente.

O Canadá não é o ponto de virada. É o ponto de largada do próximo capítulo.

Fontes

Imagem gerada por IA (fal.ai)

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Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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