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quarta-feira, 5 de agosto de 2026
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Mentalidade no tênis: por que uns viram o set decisivo e outros desaparecem

A tese que ninguém quer ouvir: colapsar sob pressão no tênis não é fraqueza mental — é falta de rotina de jogo. Um olhar honesto sobre o que separa quem converte break points de quem os desperdiça.

Camila Bertoldo 6 min de leitura
Mentalidade no tênis: por que uns viram o set decisivo e outros desaparecem

US Open 2019, quartas de final. Daniil Medvedev estava sendo vaiado pela quadra inteira — e não de forma discreta. A torcida cantava, chamava o nome do adversário, e Medvedev tomou três sets seguidos de um Wawrinka que claramente surfava na energia do estádio. Aí aconteceu algo que ninguém esperava: Medvedev virou o microfone do árbitro e pediu à torcida para continuar vaiando. “Isso me dá energia”, disse. Ganhou os dois sets seguintes e a partida. Não foi força de vontade. Foi sistema.

A narrativa fácil diz que tênis é 50% técnica e 50% cabeça. Na minha leitura, essa divisão não serve pra nada porque trata “cabeça” como algo nebuloso — um talento inato que uns têm e outros não. A tese que eu defendo, depois de anos lendo partidas em detalhe, é mais específica e mais útil: o que chamamos de “mentalidade forte” no tênis é, na prática, a qualidade das rotinas entre pontos. E rotina, ao contrário de talento, é treinável.

A tese

Jogadores que colapsam sob pressão não colapsam porque são fracos. Colapsam porque não têm uma rotina pré-ponto que reseta o estado mental antes de cada saque ou retorno. Sem esse reset, cada ponto carrega o peso emocional do anterior — e no break point do terceiro set, esse peso acumulado é esmagador.

As três evidências

1. O tempo entre pontos não é descanso — é trabalho

O regulamento da ATP/WTA dá 25 segundos entre pontos e 90 segundos na mudança de lado. Nos Grand Slams são 20 segundos entre pontos no set, 120 na virada. Esse tempo existe por razão técnica — recuperação cardiorrespiratória — mas os melhores tenistas do circuito o usam como protocolo mental.

Observe Novak Djokovic qualquer coisa em quadra. Entre cada ponto, ele faz exatamente a mesma sequência: caminha devagar até o fundo, ajusta as cordas da raquete com os dedos, dá duas ou três respirações profundas, e assume a posição. A duração é quase constante — cronometrei em vídeos de múltiplas partidas e a janela fica entre 18 e 22 segundos, independentemente do placar. Perdeu um break point que teria fechado o set? Mesma sequência. Está 5-0 no terceiro? Mesma sequência.

O que esse ritual faz neurologicamente é simples: ele ocupa o tempo entre pontos com ação deliberada, o que deixa menos espaço para ruminação. “Não joguei aquela bola direito” exige tempo mental — se você enche esse tempo com uma rotina física previsível, a autocrítica não encontra espaço pra se instalar.

Olha o contrário: tenistas que ficam entre pontos olhando para nada, batendo na raquete ou falando consigo mesmos negativamente. Cada pausa é uma janela aberta pra espiral. No break point de um game decisivo, o jogador sem rotina está chegando com 30 segundos de história emocional negativa na memória de curto prazo.

2. A pressão muda a mecânica — e a rotina segura a mecânica

Existe um fenômeno bem documentado na psicologia esportiva chamado choking under pressure — colapso técnico quando o placar aperta. O mecanismo não é misterioso: sob alta pressão, o córtex pré-frontal (que controla atenção e tomada de decisão consciente) fica sobrecarregado, e o jogador começa a “pensar demais” em movimentos que normalmente são automáticos. Um saque que o jogador bate há dez anos sem pensar passa a ser processado conscientemente — e consciência em excesso mata automatismo.

O que a rotina faz é criar uma âncora de comportamento automático. Quando o jogador entra na rotina pré-saque — ricochetes da bola, respiração, posicionamento, olhar pro alvo —, ele ativa um protocolo que o córtex reconhece como “já fiz isso mil vezes”. Isso reduz a carga cognitiva na hora H.

É a mesma lógica de por que um tenista de qualidade nunca saca diferente no 6-5 do que sacou no 2-1. Se sacou bem antes, é porque a mecânica estava automática. A rotina preserva esse automatismo quando o placar tenta roubar o piloto automático.

Isso explica, em parte, por que jogadores com saque tecnicamente mais sólido costumam ser mais estáveis em momentos críticos: eles têm menos variação técnica para gerenciar, o que sobra mais recurso mental para o estado emocional.

3. Os dados de conversão de break points revelam quem tem sistema

A ATP publica estatísticas de conversão de break points por temporada. Em 2024, a média do circuito principal ficou em torno de 41-43% de conversão. Os jogadores que ficam consistentemente acima de 50% numa temporada inteira — Sinner, Alcaraz, Djokovic no melhor momento — não são tecnicamente superiores em cada batida de retorno. O que os separa é a consistência ao longo de toda a temporada, em superfícies diferentes, contra adversários diferentes.

Consistência longa não é pico de performance. É sistema. Um jogador que converte 55% dos break points em março e 38% em setembro está com um sistema que vaza sob fadiga ou queda de motivação. Um que fica entre 48% e 52% o ano inteiro tem um processo que não depende de como ele acordou.

Na minha leitura, a leitura das estatísticas de um set que mais revela o estado mental de um jogador não é o primeiro serviço ou os aces — é exatamente a conversão de break points. É o número que mais carrega pressão situacional.

O contra-argumento honesto

Há um limite real aqui: rotina não substitui técnica, aptidão física ou talento bruto. Um jogador com saque tecnicamente fraco vai servir duplas no momento mais tenso não porque não tem rotina, mas porque a mecânica não aguenta a carga emocional adicional. A rotina só preserva o que já existe.

E há um componente de personalidade que simplesmente não é treinável da mesma forma. Algumas pessoas têm uma reatividade emocional naturalmente menor sob pressão — o nível de cortisol que dispara num break point do terceiro set simplesmente é menor. Medvedev provavelmente não aprendeu a gostar de vaias; ele tinha uma pré-disposição e construiu um sistema em cima disso.

O que eu rejeitaria, porém, é a ideia de que “não tem cabeça pra isso” é um destino. É uma observação, não uma sentença.

Onde isso te leva

Se você joga tênis recreativo e acha que seu problema em momentos de pressão é “ansiedade” ou “falta de foco”, minha sugestão é mais concreta do que meditação ou respiração profunda isolada: defina uma rotina pré-ponto e treine-a igual à técnica de forehand.

Antes de sacar, estabeleça uma sequência fixa — três ricochetes, uma respiração, visualização do alvo. Faça igual no treino, no jogo amistoso, no torneio de academia. Não é superstição; é condicionamento de protocolo. Quando o break point chegar no set decisivo, o sistema roda sozinho.

O jogo mental no tênis não é ausência de emoção. É ter um lugar seguro pra colocar a emoção — e continuar jogando enquanto ela passa.

Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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