sexta-feira, 19 de junho de 2026
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Salto em altura olímpico: a tese de que o Fosbury Flop ainda não foi superado — e o que isso significa para LA 2028

Como funcionam as regras e a eliminação no salto em altura olímpico, por que a técnica Fosbury Flop segue imbatível após 56 anos, e onde o Brasil está na corrida por uma vaga em Los Angeles 2028.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Atleta de salto em altura em pleno voo sobre o sarrafo usando a técnica Fosbury Flop em competição olímpica
Atleta de salto em altura em pleno voo sobre o sarrafo usando a técnica Fosbury Flop em competição olímpica

Em 1968, Dick Fosbury saltou de costas para o sarrafo no México e todo mundo no estádio pensou que era um truque de circo. O juiz precisou confirmar que não havia nenhuma regra proibindo aquela maluquice. Fosbury ganhou o ouro. Em 1980, praticamente nenhum saltador de alto nível ainda usava outra técnica. Em 2024, em Paris, o ouro foi do bielorrusso Dzmitry Naboki — com o mesmo Fosbury Flop, 56 anos depois.

A minha tese é simples: o salto em altura é o único evento olímpico em que uma inovação técnica de 1968 permanece completamente não superada. Isso não é coincidência — tem física por trás. E entender essa física muda completamente a forma como você assiste à prova.

A regra da eliminação: mais cruel do que parece

Antes da técnica, a estrutura da prova. O salto em altura olímpico funciona por eliminação progressiva — e o sistema é, na minha leitura, o mais justo e o mais brutal do atletismo ao mesmo tempo.

Cada atleta tem três tentativas em cada altura. Se errar as três, está eliminado. Se passar, a barra sobe. A altura inicial é definida pela organização técnica da prova e cada competidor decide a partir de qual altura começa a saltar — uma decisão tática que pode decidir uma medalha.

Aqui está o detalhe que a maioria das transmissões não explica: passar numa altura com menos erros acumulados é critério de desempate. Se dois atletas encerrarem a competição com o mesmo resultado máximo, vence quem tiver menos falhas naquela altura. Se ainda assim empatar, vence quem tiver menos falhas totais na competição inteira. Só depois disso vai para o jump-off — uma série de tentativas em alturas crescentes, um pulo de cada vez, até alguém errar e o outro passar.

Em Paris 2024, Naboki e o grego Stefanos Ntouskos empataram em 2,36m. O desempate foi por erros acumulados. Naboki tinha menos falhas no total e ficou com o ouro sem precisar de jump-off. Um único erro a mais em qualquer altura anterior teria mudado o pódio.

Três evidências de por que o Fosbury Flop é fisicamente imbatível

Evidência 1 — O centro de massa pode passar abaixo do sarrafo.

Quando você salta com o corpo arqueado de costas, o centro de massa do seu corpo pode, geometricamente, estar abaixo do sarrafo enquanto seu corpo passa por cima dele. Isso é física pura: o centro de massa de um objeto em formato de arco pode estar fora do próprio objeto. Nas técnicas anteriores — o rolo ventral, o straddle — o centro de massa subia com o corpo. Com o Fosbury Flop, você gasta menos energia para a mesma altura real. É uma vantagem termodinâmica que não tem contra-argumento técnico.

Evidência 2 — O rolo ventral exige habilidade técnica em sentido oposto ao instinto.

As técnicas antigas de barriga para baixo exigem que o saltador gire o corpo enquanto mantém controle do tronco — um movimento antinatural que leva anos para dominar e que deteriora mais rápido com a fadiga. O Fosbury usa a arqueadura da coluna, um movimento que o corpo humano realiza de forma mais instintiva. O treinamento de Fosbury diminuiu o gap entre talento bruto e técnica refinada. Resultado: o teto absoluto da modalidade subiu.

Evidência 3 — O recorde mundial de 2,45m foi feito em 1993 — e nunca foi quebrado.

Javier Sotomayor (Cuba) saltou 2,45m em Salamanca em julho de 1993. Esse recorde existe há 33 anos. Para entender o peso disso: o recorde dos 100m masculinos (Bolt, 9,58s em 2009) é “jovem” comparado ao de Sotomayor. Em nenhum outro evento de atletismo de campo há um recorde masculino com mais de 30 anos de vida. Isso não sugere que a modalidade esteja estagnada — os competidores de hoje são atleticamente superiores aos de 1993. Sugere que o teto físico humano do Fosbury Flop pode estar próximo do limite absoluto.

Na minha leitura, 2,45m é um número que vai durar mais uma geração. Não porque os atletas são piores — mas porque o próprio Fosbury extrai quase tudo que a biomecânica humana consegue dar.

O contra-argumento honesto

Existe uma linha de pesquisa biomecânica — com destaque para estudos do Journal of Sports Sciences publicados na última década — que sugere que variações de arqueadura e posicionamento dos braços no Fosbury podem ainda dar pequenos ganhos. Alguns treinadores trabalham com ajustes na fase de batida (o pé que impulsiona) que tecnicamente não constituem uma nova técnica, mas refinam a geração de força vertical.

Dito isso: nenhuma alternativa ao Fosbury sequer chegou perto dos 2,40m em competição internacional. A técnica segue dominante em 100% dos finalistas olímpicos desde Los Angeles 1984. O contra-argumento real não é “existe uma técnica melhor” — é “existe espaço de otimização dentro do Fosbury que ainda não foi totalmente explorado”. Isso é diferente, e menos dramático.

Onde isso leva o Brasil em LA 2028

O Brasil tem uma lacuna profunda no salto em altura. Em 2026, nenhum atleta brasileiro está entre os 50 melhores do ranking mundial da World Athletics na modalidade masculina ou feminina.

Isso contrasta com o que o atletismo brasileiro faz bem: sprints, revezamentos e saltos horizontais têm histórico olímpico consistente, como mostra a campanha do revezamento 4x400 brasileiro no Mundial de Pequim 2027. O salto em altura exige uma combinação específica de altura física, força excêntrica e coordenação de arco que o país nunca desenvolveu em escola técnica.

A qualificação para LA 2028 no salto em altura exige, para os homens, uma marca-padrão em torno de 2,30m — o que é distante do nível atual dos melhores atletas brasileiros. O ciclo olímpico 2026 e o peso dos Mundiais para a qualificação detalha como esse sistema de marca-padrão funciona na prática e quando os cortes serão aplicados.

Para comparar com modalidades em que o Brasil tem estrutura real de competição: o judô, onde o país levou ouro em Paris 2024 com Beatriz Souza, tem 15 atletas brasileiros nos rankings da IJF — um ecossistema que o atletismo de salto vertical simplesmente não tem. É o mesmo tipo de gap estrutural que o wrestling enfrenta, conforme analisamos em por que o Brasil domina o Pan-Americano e desaparece nas Olimpíadas.

Os candidatos ao pódio em LA 2028 já são conhecidos: Dzmitry Naboki (Bielorrússia), o qatarí Mutaz Essa Barshim — duas vezes ouro olímpico, uma vez perdendo pra Tamberi em Tóquio num empate histórico — e os emergentes europeus abaixo dos 23 anos que já saltam 2,33m ou mais em competições de elite. O recorde mundial de Sotomayor ficará onde está.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

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