Parré e João Matos Marques vão ao pódio em Nottwil — e a LA 2028 fica mais concreta
Dois brasileiros no pódio do Grand Prix paralímpico de Nottwil: Parré crava sua melhor marca da temporada nos 200m T53 e João bate recorde das Américas nos 400m T72. O que isso diz sobre o ciclo rumo a Los Angeles.
Nottwil é uma cidadezinha de 8 mil habitantes no cantão de Lucerna, mais famosa por abrigar o maior centro de reabilitação da Suíça do que por qualquer evento esportivo. Toda primavera europeia, porém, ela vira o termômetro do paratletismo mundial: o Grand Prix que acontece ali reúne mais de 200 atletas de dezenas de países, distribui pontos de ranking olímpico e costuma produzir as primeiras marcas sérias da temporada ao ar livre.
Nesta quinta e sexta-feira (21 e 22/05/2026), o Brasil mandou dois atletas para o pódio da Suíça — e os dois chegaram de formas bem diferentes.
Parré cravou sua melhor marca do ano no exato lugar em que precisava
Ariosvaldo Fernandes, o Parré, tem 30 anos, um bronze nos 100m T53 de Paris 2024 e uma carreira que nunca precisou de holofote para seguir produzindo. Em Nottwil, ele largou nos 200m da classe T53 — cadeirantes — e completou a prova em 26s74. Foi a prata. O ouro ficou com o tailandês Pongsakorn Paeyo, que não apenas venceu: cruzou a linha com 24s89 e quebrou o recorde mundial da classe, que pertencia ao canadense Brent Lakatos desde que estava em 25s04 (Olimpíada Todo Dia, 21/05/2026).
Perder por quase dois segundos pode parecer resultado amargo. Mas olhe para o número de outro ângulo: 26s74 foi a melhor marca de Parré nesta temporada. Num Grand Prix de primavera — quando atletas de cadeira de rodas ainda ajustam a configuração do equipamento ao calor e aos novos treinos de piso — registrar SB (season best) é o que importa. O ciclo para LA 2028 não se ganha em maio de 2026; constrói-se aqui.
João Matos Marques, 19 anos, bateu o recorde das Américas
Se Parré já tem a experiência do pódio olímpico, o catarinense João Matos Marques chega a Nottwil com 19 anos e o apetite de quem ainda não esgotou nada. Nos 400m da classe T72 — prova disputada na “petra”, equipamento de corrida adaptado para atletas com paralisia cerebral ou problemas de coordenação — ele terminou em segundo lugar com 63s55 e estabeleceu novo recorde das Américas na prova (Olimpíada Todo Dia, 22/05/2026). O ouro foi do italiano Carlo Fabio Marcello Calcagni, que venceu com mais de três segundos de vantagem.
Recorde das Américas aos 19 anos, em ano não olímpico, na quinta etapa de uma série de Grand Prix que vai até o fim de 2026. Isso tem um nome: aceleração de curva de desenvolvimento. Em 2025, ele foi prata nos 100m e nos 400m T72 no Mundial de Nova Déli. Vencer o italiano não era provável hoje — a distância de mais de 3 segundos diz isso. Mas nenhum atleta na T72 do continente americano corria os 400m mais rápido do que João até ontem.
A diferença de mais de 3 segundos para o ouro nos 400m T72 sugere que João ainda está na fase de consolidação de base aeróbia. Para LA 2028, a janela realista é chegar à faixa dos 60 segundos — o que implicaria um ganho de cerca de 3% ao ano, perfeitamente viável para um atleta de 19 anos num esporte de potência e resistência.
Na mesma disputa, seu compatriota Vinicius Krieger foi desqualificado — contexto que o resultado de João torna ainda mais relevante para o ranking nacional da classe.
O que mais aconteceu com a delegação brasileira nos dois dias
A seleção levou sete atletas para Nottwil, todos eles provenientes de uma sequência de duas competições na Suíça: antes do Grand Prix, disputaram o Daniela Jutzeler Memorial em Arbon (14 a 17/05). O volume de competição em duas semanas no mesmo país revela uma lógica de planejamento: ambientação, ajuste de fuso e testagem de provas antes do evento que distribui pontos de ranking.
Os resultados além dos pódios:
- Leonardo de Melo — 9º nos 400m T54 (46s44, SB) e 7º nos 5000m T54 (9min49s63). Dois top-10 em provas distintas no mesmo dia.
- Vanessa Cristina — 9ª nos 800m T54 (1min53s53).
- Aline Rocha — 10ª nos 800m T54 (1min53s5) e 17ª nos 400m T54 femininos (57s92).
- Jéssica Giacomelli — 11ª nos 800m T54 (1min54s44, SB) e 13ª nos 400m T54 femininos (56s85).
Nenhum ouro. Mas seis de sete atletas registraram SB em pelo menos uma prova — e isso, no início do ciclo, pesa mais do que qualquer posição no pódio.
A lição que Nottwil deixa para o ciclo LA 2028
Na minha leitura, o que os resultados de Nottwil dizem sobre o paratletismo brasileiro é mais importante do que os dois metais em si.
O Brasil venceu o Grand Prix de atletismo paralímpico de Rabat em abril de 2026 (Olimpíada Todo Dia, conforme Revista Vigor, 26/04/2026) — o que significa que a seleção chegou à Suíça com ritmo de competição, não de preparação. Quando um grupo composto majoritariamente por atletas de cadeira de rodas registra SB em competição europeia de alto nível com 200+ atletas no campo, o sinal é de que a temporada está no trilho.
Parré é o exemplo claro: bronze em Paris, prata em Nottwil com SB, 30 anos. Em LA 2028, terá 32. Se mantiver a progressão anual de marca e o ranking segurar a vaga, vai para sua quarta Paralimpíada. Isso não é especulação — é histórico de atleta que não para.
João Matos Marques é a aposta de longo prazo mais interessante do paratletismo BR no momento. Dezenove anos em 2026 significa que terá 21 em LA 2028. Tempo para amadurecer o T72, ajustar a petra e, se tudo correr bem, chegar à faixa dos 60 segundos nos 400m. Hoje ele está em 63s55. O gap para o nível de medalha olímpica nessa classe — ao redor de 57-58 segundos nos últimos Jogos — ainda é grande. Mas a direção está certa.
O paratletismo brasileiro não vai a LA 2028 em busca de presença. Vai em busca de mais de uma medalha.
Fontes
- Olimpíada Todo Dia — Parré conquista prata nos 200m T53 no GP de Nottwil (21/05/2026)
- Olimpíada Todo Dia — João Matos Marques é prata e Brasil chega a duas medalhas no GP de Nottwil (22/05/2026)
- Surto Olímpico — Seleção brasileira de atletismo paralímpico terá sete representantes no Grand Prix de Nottwil (20/05/2026)
- Comitê Paralímpico Brasileiro — Grand Prix de atletismo 2026 terá nove etapas em quatro continentes
Imagem gerada por IA (fal.ai)
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


