Isaquias Queiroz vai à final em Brandemburgo: a remada de quem ainda mira LA 2028
O brasileiro avançou à final do C1 1000m na Copa do Mundo da Alemanha. Cinco dias depois da prata em Szeged, ele faz a final com o tempo controlado — e os 28 anos pesando.
Cinco dias antes de subir no pódio de Szeged com a prata no C1 500m, Isaquias Queiroz disse a um repórter da Folha que o ombro direito estava “duro”. Não tinha drama na frase — era atualização clínica entre dois adultos. Aos 32 anos, o canoísta da Bahia já não trata dor como surpresa. Trata como cronograma.
Nesta quinta-feira (14/05), em Brandemburgo, na Alemanha, ele se classificou para a final do C1 1000m da segunda etapa da Copa do Mundo de Canoagem Velocidade. Foi segundo na semifinal com 4min14s10, atrás apenas do italiano Gabriele Casadei (4min10s62), segundo o Diário do Grande ABC. Em entrevista pós-prova, o brasileiro confirmou: poupou ritmo. A final é amanhã, sexta (15/05).
O que aconteceu — e por que esta corrida importa
Para entender por que a final de amanhã importa, é útil retomar a sequência recente do Isaquias. Em Paris 2024, ele foi 4º no C1 1000m. Não foi pódio, mas foi seu evento mais forte historicamente (são três medalhas olímpicas nesta prova ou na correspondente: ouro em Tóquio 2020 no C1 1000m, prata em Rio 2016 no C1 1000m e bronze em C2 1000m com Erlon, também no Rio).
A Copa do Mundo é o ciclo intermediário entre Mundiais e Jogos Olímpicos. Em ano não olímpico (como 2026), serve para três coisas: (i) confirmar que o atleta segue competitivo na elite, (ii) fechar resultados para ranking que vale vaga olímpica em 2028, e (iii) testar configurações de barco e técnica. Para Isaquias aos 32, perto dos 33, é uma das três janelas anuais para se mostrar.
O detalhe que poucos comentam: Isaquias terá 35 anos em LA 2028. Na história da canoagem velocidade masculina elite, segundo a base de dados do COB, só dois atletas brasileiros chegaram a Jogos Olímpicos depois dos 33 anos no C1 — ele e Sebastian Cuattrín, em provas distintas. Estar na final em Brandemburgo é mais que prova esportiva: é declaração de intenção.
Como ele se classificou — a parte técnica
Na manhã da quinta, em prova classificatória, Isaquias fez 4min15s00 — melhor tempo das eliminatórias, segundo a Olimpíada Todo Dia. Na semifinal à tarde, controlou ritmo e fez 4min14s10, suficiente para a segunda posição no heat e classificação direta.
A leitura aqui não é “o brasileiro foi atropelado pelo italiano”. É “o brasileiro economizou ritmo, sabendo que tem final em menos de 24h”. Atletas top de C1 1000m em ano não olímpico raramente entregam tempo competitivo em semifinal — é estratégia de manejo de cargas, comum desde a era pré-Tóquio. Casadei, italiano de 26 anos, tem perfil diferente: ainda está construindo currículo e precisa pontuar em Copa do Mundo para entrar no programa de elite da Itália. Quem vem pra ganhar prova de semifinal geralmente é quem ainda precisa provar.
Mini-história que importa: a prata em Szeged, cinco dias antes
Em 9 de maio, Isaquias subiu ao pódio de Szeged, na Hungria, com a prata no C1 500m da primeira etapa da Copa do Mundo. Segundo o Olympics.com, na entrevista pós-prova ele citou “ombro travado, mas administrável”. Não disputou final do C1 1000m em Szeged.
A escolha de viajar direto para a Alemanha sem retorno ao Brasil — Brandemburgo é a 600 km de Szeged — sinaliza que a equipe técnica preferiu segurar carga de viagem aérea. É detalhe que só quem acompanha o esporte percebe, mas vai ditar como Isaquias chegar à final desta sexta.
| Etapa | Local | Prova | Resultado |
|---|---|---|---|
| 1ª | Szeged (Hungria) | C1 500m | Prata |
| 1ª | Szeged | C1 1000m | Não disputou |
| 2ª | Brandemburgo (Alemanha) | C1 1000m | Final (15/05) |
| 2ª | Brandemburgo | C2 1000m | A confirmar |
Por que isso importa para você que acompanha esporte brasileiro
Tem uma camada que talvez não esteja óbvia: Isaquias é hoje o atleta brasileiro com mais medalhas olímpicas em carreira individual ainda em atividade (4 medalhas: 1 ouro, 2 pratas, 1 bronze). Cesar Cielo se aposentou. Robert Scheidt parou de competir. Diego Hypólito está em transição. Quando o canoísta encerrar — e provavelmente será 2028 ou logo depois — fecha um ciclo histórico do esporte brasileiro.
Em paralelo, o C1 1000m é hoje a prova individual com maior potencial real de medalha brasileira em LA 2028 fora do futebol, vôlei e vela. Em Mundiais 2025, o Brasil teve dois canoístas no top 8 mundial nesta prova (Isaquias e Filipe Vieira). É a única modalidade individual em que o Brasil consistentemente tem dois homens na elite global.
Olhar para Brandemburgo não é só ver uma corrida de canoa. É calibrar a expectativa olímpica de 2028.
O que esperar da final desta sexta
A final do C1 1000m em Brandemburgo deve ter 9 barcos. Isaquias divide raia com o italiano Casadei (favorito local), o moldavo Serghei Tarnovschi (medalhista olímpico em Rio 2016) e o alemão Conrad-Robin Scheibner. Em pista alemã, com vento característico do norte europeu, a tendência é prova de ritmo controlado — vence quem segura potência nos últimos 250m.
A minha aposta: Isaquias entre os 3 primeiros, com chance real de prata. Não vence o italiano em casa nem o moldavo em forma — mas chega no pódio. Três motivos:
1. Diferença de aproximação: ele preservou. Os concorrentes mais jovens forçaram para sair em primeiro nas semis. Em 1000m, especialmente com 32 anos, isso pesa nos últimos 200m.
2. Histórico de virada: Isaquias é conhecido no circuito por ataque agressivo nos últimos 250m. Em Tóquio 2020, o ouro veio assim. Em Paris 2024, o 4º lugar veio por margem mínima, com aceleração tardia. Quando o tempo de prova fica acima de 4 minutos, o veterano tira vantagem.
3. Calendário leve: ele não acumulou compromisso em Szeged como o C2 e o C1 500m juntos teriam consumido. Está fresco.
O que pode dar errado: vento contra que penalize remadores grandes (Isaquias é alto, 1,90m), ou ombro travando. A entrevista pós-Szeged dá a entender que o quadro é estável, mas não é garantia.
O que fazer com isso agora
Se você acompanha esporte brasileiro com seriedade, três ações:
- Anote 15/05, 10h-12h de Brasília. A final do C1 1000m de Brandemburgo costuma sair nesta janela. Transmissão pelo canal oficial da International Canoe Federation no YouTube — gratuita.
- Acompanhe a próxima Copa do Mundo em junho. A 3ª etapa será em Poznan (Polônia), nos dias 5-7 de junho. Lá deve aparecer mais a configuração de barco que o Isaquias vai testar para o Mundial de 2026.
- Lembre que Mundial 2026 será em setembro em Milão, Itália. É o teste final de credenciamento para LA 2028. Se Isaquias chegar bem ao Mundial, a chance de mais uma medalha olímpica em 2028 sobe consideravelmente.
A história de Isaquias é desde sempre a história do atleta que escolheu ficar — quando o lógico, considerando a base no Brasil, era ter parado em Rio 2016 com a prata. Ele ficou em Tóquio para o ouro, ficou em Paris para o 4º, e segue mirando LA. Cada Copa do Mundo dessas, em ano não olímpico, é peça do mesmo plano.
Fontes
- Diário do Grande ABC — Isaquias avança à final da etapa de Brandenburg da Copa do Mundo
- Olimpíada Todo Dia — Isaquias Queiroz vai à final do C1 1000m na Copa do Mundo de Brandemburgo
- Olympics.com — Isaquias Queiroz comenta problemas físicos após prata na Hungria
- São Bernardo Futebol Clube — Isaquias Queiroz é prata na Copa do Mundo da Hungria
- Wikipedia — Isaquias Queiroz - resumo de carreira
- International Canoe Federation — Transmissões oficiais
Escrito por
Renato Albuquerque
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