Pular para o conteúdo
sábado, 19 de setembro de 2026
Setor Norte SETOR NORTE
Futebol

Infantino resiste a pedido de renúncia e racha a Fifa

Noruega pede a renúncia de Infantino após o escândalo da venda de ações da Copa, Uefa mantém boicote de pé e México e Argentina bancam o presidente.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Sala de coletiva de imprensa vazia com microfones e bandeiras, cenário de anúncio institucional de entidade esportiva
Sala de coletiva de imprensa vazia com microfones e bandeiras, cenário de anúncio institucional de entidade esportiva

A Federação Norueguesa de Futebol se reuniu na noite de quinta-feira e decidiu uma coisa que nenhuma federação nacional tinha feito até agora: pedir, sem rodeio, a renúncia de Gianni Infantino. Não foi “perda de confiança”, como já haviam dito Inglaterra, País de Gales, Croácia e Albânia. Foi “saia agora”. A presidente da federação, Lise Klaveness, disse à Guardian que “não existe mais confiança em Infantino” e que “não há volta” para ele — e horas depois, o México e a Argentina, dois protagonistas diretos da Copa de 2026, saíram em defesa do cartola suíço-italiano.

Assim, num intervalo de poucas horas, a Fifa se dividiu em dois blocos que não estavam publicamente em guerra aberta desde a era Havelange-Blatter.

Por que isso explodiu justo agora

O estopim foi um plano que Infantino tentou aprovar e teve de recuar: a Fifa Forward Enterprise (FFE), um esquema para vender participações financeiras da Copa do Mundo a investidores privados. A Uefa chamou a proposta de “acordo capenga, de bastidor, opaco” — segundo o próprio texto divulgado pela entidade europeia e citado pela BBC Sport — e disse ter perdido a confiança no presidente da Fifa mesmo depois de ele engavetar o plano. A Confederação Africana (CAF) segue unânime a favor de Infantino; a Concacaf, entidade que organiza o futebol da América do Norte e Central, pediu uma “avaliação completa” da presidência dele, mas o México quebrou fileira e apoiou publicamente Infantino — justamente o país que vai sediar boa parte dos jogos da Copa que a Fifa tentou monetizar dessa forma.

A Noruega foi além do escopo da FFE. Klaveness formalizou também uma queixa ao comitê de ética da Fifa por dois outros episódios: a entrega do primeiro “prêmio da paz” da entidade ao presidente americano Donald Trump em dezembro, e a reversão de uma expulsão do atacante americano Folarin Balogun durante a fase de mata-mata da própria Copa do Mundo — decisão que, segundo a reportagem do Guardian, veio depois de uma ligação de Trump para Infantino. Não é uma crítica isolada de gestão financeira. É uma crítica de governança inteira, amarrando dinheiro, política e arbitragem no mesmo pacote.

A tese: Infantino sobrevive, mas a Fifa não sai ilesa

Aqui está minha leitura, e ela vai contra o clima geral que se formou nas últimas 48 horas: Infantino não vai ser derrubado antes da eleição de março de 2027 — mas o preço que ele paga por sobreviver vai ser alto demais pra fingir que nada mudou.

O argumento tem base em conta simples, não em sentimento. A Fifa tem 211 federações-membro. Segundo o levantamento da BBC Sport com os números por confederação, a divisão é: Uefa (55), África (54), Ásia (46), Concacaf (35), Oceania (11) e América do Sul (10). Refiz essa soma pensando no cenário mais favorável possível pra quem quer tirar Infantino: mesmo que a Uefa vote em bloco fechado contra ele (55) e a Concacaf também vote inteira contra, descontando o México (34), o total de oposição garantida chega a 89 votos. Para vencer uma eleição de dois candidatos, é preciso maioria simples dos 211 — ou seja, pelo menos 106. Faltariam 17 votos, e eles teriam que vir de dentro da África, da Ásia ou da América do Sul, blocos que já sinalizaram apoio ou, no caso da Conmebol, disseram que só aceitam mudança “com voto de todos os 211 membros” — recusando, na prática, qualquer tentativa de remoção fora do processo eleitoral normal.

Ou seja: a matemática eleitoral está do lado de Infantino, mesmo com a crise. O problema dele não é perder a eleição de março — é o custo político de vencer uma eleição em que metade da Europa nem reconhece o resultado como legítimo.

O boicote da Uefa é blefe ou ameaça real?

A resposta mais honesta é “as duas coisas, dependendo do torneio”. A Uefa reafirmou na quinta-feira que a posição de boicote “continua de pé”, segundo reportagem do próprio Guardian, mesmo com o recuo da FFE. O primeiro teste prático chega cedo: o Mundial Sub-20 feminino, marcado para começar na Polônia em 5 de setembro. Klaveness disse esperar que a crise esteja resolvida antes disso — o que já é, por si só, uma admissão de que a Uefa não tem certeza de que vai cumprir a ameaça num torneio de segunda linha.

Isso não quer dizer que o boicote seja fachada. Boicotar um Mundial Sub-20 feminino custa relativamente pouco à Uefa em termos de receita e visibilidade — é o tipo de torneio onde dá pra “testar a arma” sem prejuízo grande. Boicotar competições de maior porte, como a Liga das Nações ou eliminatórias, seria outra conversa inteiramente, com dinheiro de patrocínio e direitos de TV envolvidos em escala muito maior. A Uefa está, na prática, escalando a pressão em etapas — e a etapa de setembro serve como termômetro pra saber se o resto do continente segue junto.

Onde isso pesa pra quem só quer saber de bola

Pra quem acompanhou de perto a lista de 26 nomes que a CBF levou pra essa Copa, essa crise de bastidor parece distante — mas não é. O calendário internacional (datas Fifa, formato de eliminatórias, distribuição de premiação por confederação) é decidido justamente nesses fóruns que estão em polvorosa agora. Se a Uefa realmente escalar o boicote pra competições de seleção nos próximos meses, o efeito cascata chega até o calendário de amistosos e Data Fifa que qualquer seleção sul-americana usa pra preparar o próximo ciclo.

Tem também o precedente do próprio caso Balogun. A ideia de que uma decisão de campo pode ser revertida por pressão política — não por erro técnico de arbitragem, tema que já tratei neste comparativo entre o VAR do Brasil e da Europa — é o tipo de precedente que qualquer federação, brasileira inclusive, deveria temer. Se um telefonema de chefe de Estado consegue mexer numa expulsão em Copa do Mundo, o problema deixa de ser só americano.

O contra-argumento que preciso admitir

Minha conta de votos assume que os blocos vão se comportar como blocos — e futebol internacional raramente é tão disciplinado assim. A CAF “unânime” hoje pode rachar se Infantino perder tração visível nas próximas semanas; a Ásia já demonstrou abertura a seguir a Uefa quando havia mais risco na mesa (a AFC apoiou a posição de Uefa e Concacaf enquanto a FFE ainda estava viva). Se a crise ética — Balogun, prêmio da paz, FFE — ganhar mais um capítulo forte antes de 18 de novembro, data em que fecha o prazo pra apresentar candidatos alternativos, a conta muda. Ainda acho pouco provável: falta tempo e falta um nome de peso disposto a concorrer contra um presidente que já mostrou disposição pra distribuir US$ 8 milhões por federação via Fifa Forward. Mas “pouco provável” não é “impossível”.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.

Continue lendo · Futebol

Ver tudo →