sexta-feira, 19 de junho de 2026
Setor Norte SETOR NORTE
Futebol

VAR no Brasil x Europa: por que reclamamos tanto aqui e (quase) nada na Premier League

VAR no Brasileirão e nas ligas europeias: tempo de revisão, calibração e transparência. Por que o protocolo é igual mas o resultado parece outro.

Camila Bertoldo 6 min de leitura
Árbitro de futebol consultando o monitor do VAR à beira do campo durante revisão de lance
Árbitro de futebol consultando o monitor do VAR à beira do campo durante revisão de lance

Numa quarta de Champions, Real Madrid x Manchester City. Lance duvidoso na área, mão na bola, o árbitro do campo segue jogando. O VAR chama, ele vai ao monitor, olha por 41 segundos, marca pênalti. Volta a bola. Ninguém parou de torcer.

No mesmo mês, Brasileirão. Lance duvidoso na área, mão na bola, o árbitro do campo segue jogando. O VAR chama, ele vai ao monitor, olha por 3 minutos e 12 segundos, marca pênalti. Volta a bola. Ninguém mais lembra qual era o jogo — a discussão virou “o VAR roubou”.

A pergunta que ninguém faz direito é: o protocolo é o mesmo. A IFAB escreveu as regras pros dois lados. Por que o resultado parece de planeta diferente?

A tese

VAR no Brasil e na Europa funciona em ritmos, padrões de comunicação e graus de transparência tão distintos que o leitor brasileiro tem razão em achar que aqui é pior — só erra ao culpar o “protocolo”. O problema é execução: o tempo médio, a falta de áudio público e a inconsistência de calibração entre rodadas fazem com que a mesma regra produza experiências opostas.

Evidência 1: tempo médio de revisão

A diferença mais grosseira é a velocidade. A UEFA divulga periodicamente o tempo médio de checagem do VAR nas suas competições — na temporada 2023/24 da Champions, ficou em torno de 60 a 65 segundos por intervenção que mudou decisão, segundo o relatório técnico publicado pela UEFA Refereeing Convention. Na Premier League, dados consolidados pela PGMOL (o órgão da arbitragem inglesa) mostram revisões que costumam ficar abaixo de 1 minuto e 30 segundos em 80% dos casos.

No Brasileirão, a CBF não publica média consolidada — e isso já é parte do problema. As estimativas independentes mais comentadas, feitas a partir do tempo acrescido em jogos transmitidos, indicam revisões que passam de 2 minutos com frequência. Reportagem do ge mostrou várias rodadas com paradas de 3 a 5 minutos por intervenção.

Por que isso muda tanto a percepção? Porque o tempo é o que decide se a revisão entra na narrativa do jogo ou substitui a narrativa do jogo. Aos 60 segundos, o estádio segue conectado ao lance. Aos 4 minutos, o estádio parou de torcer, o público pegou o celular, e o pênalti que vem depois é “do VAR”, não do jogador que sofreu.

Evidência 2: o áudio que sai (ou não sai) público

Na Major League Soccer e no futebol australiano, o diálogo entre árbitro de campo e cabine do VAR é tornado público — às vezes ao vivo no estádio, sempre depois em relatórios. A Premier League começou a publicar trechos de áudio em programas dedicados. A UEFA divulga clipes em explicações específicas após rodadas polêmicas de Champions e Europa.

No Brasil, a CBF anunciou em 2024 que iria divulgar áudios oficiais. A medida saiu, mas em regime parcial e atrasado: os áudios viram episódio dias depois, fora do ciclo da indignação, e selecionam lances já mastigados pela imprensa. Quem vê o lance ao vivo não tem como entender, no calor da hora, o que o VAR conversou com o árbitro — e essa lacuna vira teoria da conspiração antes do apito final.

Áudio público não faz a decisão ficar correta. Faz a decisão ficar legível. É a diferença entre “errou e a gente entendeu o erro” e “decidiu, sumiu, vira meme até domingo”.

Evidência 3: calibração inconsistente entre rodadas

Aqui está o ponto que dói mais pra quem assiste futebol brasileiro com olho técnico. O protocolo IFAB define que o VAR só intervém em erro claro e óbvio em quatro situações: gol/não-gol, pênalti/não-pênalti, cartão vermelho direto e troca de identidade. A palavra-chave é “claro e óbvio”.

Na Premier League, a leitura de “claro e óbvio” se manteve relativamente estável ao longo da temporada — o que faz com que torcedor preveja o que será revisado e o que será deixado passar. Na Champions, o critério é ainda mais conservador: o VAR praticamente só entra em lance que mudaria a partida (a filosofia de “high bar” que a UEFA pratica desde 2019).

No Brasileirão, o critério parece se mover de rodada em rodada. Pênalti que foi marcado na 8ª rodada não é marcado na 15ª. Mão que era natural em abril vira pênalti em maio. Análise do programa Bola da Vez da ESPN, retomada por veículos como o UOL Esporte, tem documentado essa flutuação com pareados de lances quase idênticos com decisões opostas em rodadas próximas. Sem padrão estável, o torcedor não consegue calibrar expectativa — e qualquer decisão vira polêmica.

A consequência prática: o mesmo VAR que na Europa é um sistema previsível (e portanto invisível na maior parte das vezes) no Brasil é um sistema imprevisível, o que o transforma no protagonista de cada jogo.

O contra-argumento honesto

Vale separar percepção de realidade. Em percentual de decisões certas, o VAR brasileiro não está tão atrás. Os relatórios da Comissão de Arbitragem da CBF, embora menos detalhados que os relatórios da PGMOL, indicam taxas de acerto acima de 95% nas intervenções — número compatível com a média europeia. Em termos puramente estatísticos, o sistema funciona.

O que está pior aqui não é o “acerto final” — é a experiência ao redor do acerto. Tempo, áudio, comunicação, calibração. São esses quatro vetores que sustentam a confiança do torcedor no sistema. A Europa cuida deles porque entendeu que VAR sem percepção pública de legitimidade vira pior que sem VAR. O Brasil ainda trata como detalhe.

Onde isso te leva (e o que esperar)

A previsão honesta: enquanto a CBF não publicar média de tempo por rodada, áudio integral em até 24 horas e um documento de critério atualizado a cada janela do campeonato, o ciclo “decisão → polêmica → conspiração” se repete. Não porque os árbitros aqui sejam piores — são bem treinados, alguns até com troca de experiência com a UEFA. É porque a Europa entendeu que VAR é tanto produto técnico quanto produto de comunicação, e o Brasil ainda trata só como produto técnico.

Pra quem assiste tentando entender o jogo, três hábitos ajudam:

  1. Cronometre a revisão. Se passou de 2 minutos, o protocolo já está sendo mal executado. Foco do VAR é checar erro claro — se demorou demais, ou não era claro, ou alguém na cabine está fazendo análise tática de novo, o que está fora do protocolo.
  2. Compare lances pareados na própria rodada. Mão na área de um lado, mão na área de outro, mesma posição do braço. Se a decisão difere, é problema de calibração — não de regra.
  3. Espere o áudio. Quando sair, vale ouvir. Em 70% dos casos, o “absurdo” se revela uma decisão dentro do protocolo. Nos outros 30%, o áudio prova que o problema era humano, não tecnológico — e isso, sim, merece a reclamação.

E se o assunto te interessa por dentro, o blog tem material para complementar: o esquema tático do Palmeiras de Abel com pressão alta, o guia de gegenpressing aplicado ao futebol europeu e o guia de xG no Brasileirão — três peças que ajudam a separar o que o VAR está olhando do que o jogo realmente está produzindo.

Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

Continue lendo · Futebol

Ver tudo →