terça-feira, 26 de maio de 2026
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Wawrinka volta a Paris pela última vez — e o saibro ainda lembra

Aos 41 anos e com wild card na mão, Stan Wawrinka estreia em Roland Garros numa despedida que ninguém pediu mas todo mundo vai sentir. O que este adeus diz sobre uma carreira fora do padrão.

Camila Bertoldo 4 min de leitura
Quadra de saibro vermelho de Roland Garros com jogador de tênis em posição de finalização de forehand
Quadra de saibro vermelho de Roland Garros com jogador de tênis em posição de finalização de forehand

Em maio de 2015, Novak Djokovic era o número 1 do mundo há mais de 200 semanas, tinha vencido os últimos dois Grand Slams e chegou a Roland Garros como o favorito mais incontestável da história recente do torneio. Stan Wawrinka entrou em quadra como oitavo cabeça de chave — e desmontou tudo em quatro sets. Forehand de dentro para fora no segundo set, backhand cruzado no terceiro. Djokovic saindo pela porta lateral, cabeça baixa. Wawrinka com o troféu.

Onze anos depois, o suíço voltou a Paris com wild card na mão, ranking 119 do mundo e 41 anos no passaporte. A estreia está marcada para os próximos dias — agora contra o holandês Jesper de Jong (109 ATP), já que Arthur Fils, o adversário original, se retirou do torneio com lesão no quadril. É a 21ª participação de Wawrinka em Roland Garros. E vai ser a última.

O que aconteceu entre 2015 e agora

Wawrinka terminou 2016 como campeão do US Open — terceiro Grand Slam em três tentativas de final. Para um homem que durante anos dividiu o espaço com Federer, Nadal, Djokovic e Murray, aquilo era a prova de que não era anomalia. Era talento genuíno, ativado tarde, mas inegável.

Depois vieram as lesões. Em 2017, cirurgia no joelho esquerdo. Em 2018, outra intervenção. O começo dos anos 2020 foi de lenta reconstrução — voltou a Top 50, chegou a oitavas de Grand Slam, nunca mais chegou às semanas finais. O ranking foi deslizando, a mídia foi desviando o olhar. Mas Wawrinka continuou jogando. Semana após semana, torneio após torneio, como alguém que ainda tem uma conta a acertar com o esporte.

Em 2026, a decisão foi tomada. Esta seria a última temporada. A FFT concedeu wild card — gesto protocolar em despedidas de lenda, mas aqui com peso maior. Porque Wawrinka não só jogou Roland Garros 21 vezes. Ele ganhou Roland Garros. Voltou como campeão, não como curiosidade.

Por que o adeus dele é mais difícil de processar do que os outros

Federer se foi com cerimônia planejada, transmissão global, lágrimas de Nadal ao lado. Djokovic ainda está jogando, caçando o 25º Grand Slam neste mesmo torneio. Nadal se despedeu em setembro passado na Davis, em casa, com a Espanha inteira aplaudindo.

Wawrinka sai diferente.

Não tem multidão no aeroporto. Não tem geração inteira que cresceu com pôster dele na parede. O que ele tem é um grupo menor, mais concentrado, de gente que entende o que estava vendo quando aquele backhand de uma mão passava batido pelos melhores do mundo. Quem assistiu ao jogo contra Djokovic em 2015 — não ao resultado, ao jogo — sabe do que estou falando.

Gael Monfils, outro que se aposenta neste Roland Garros, tem Paris ao seu lado. Estreou segunda-feira contra Hugo Gaston com a Philippe-Chatrier em festa, ex-companheiros de tour na bancada, esposa Elina Svitolina na plateia. A despedida do francês é uma produção. A de Wawrinka é uma última visita ao lugar que mais o definiu — silenciosa, pessoal, quase privada.

Segundo o próprio Wawrinka em entrevista ao site oficial do torneio, “cresci assistindo Roland Garros e sonhando em jogar aqui um dia. Isso faz parte de mim.” Não é frase de relações públicas. É o tipo de coisa que você diz quando chegou a algum lugar que não esperava chegar.

O que fazer com este adeus agora

Minha leitura: Wawrinka vai ganhar um set, talvez dois. De Jong é Top 110 mas não tem a experiência de Grand Slam que Wawrinka ainda carrega no músculo, mesmo aos 41. O suíço não vai além da segunda rodada — o nível de Top 60 que precisaria para isso não está disponível mais. Mas esse não é o ponto.

O ponto é que toda vez que ele entrar no Philippe-Chatrier ou na Suzanne-Lenglen esta semana, haverá um momento em que o estádio vai parar. Não por drama. Por reconhecimento tardio — aquela versão específica de reconhecimento que o tênis reserva para os jogadores que nunca foram os favoritos do público de massa mas que o público de tênis de verdade sempre soube o quanto valiam.

Stan Wawrinka tem três Grand Slams. Venceu em três superfícies diferentes. Bateu Djokovic em dois deles. Nunca foi número 1. Nunca foi o personagem principal da narrativa. Foi o suíço que não era Federer — e encontrou nisso uma forma de ser completamente ele mesmo.

Isso, no fim, é raro o suficiente pra merecer atenção no último capítulo.

Fontes

Imagem gerada por IA (fal.ai)

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Escrito por

Camila Bertoldo

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