Sinner chega a Paris com 29 vitórias seguidas — e a história está nervosa
Com Alcaraz fora e sequência de 29 jogos invicto, Sinner entra em Roland Garros como favorito absoluto. O mapa do que ele precisa fazer pra bater Djokovic e possivelmente Borg.
Em 2011, Novak Djokovic construiu uma sequência de 43 vitórias consecutivas que sobreviveu a quatro gerações de tenistas — Lendl já havia saído do circuito, Sampras e Agassi também, Federer não conseguiu, Nadal não conseguiu, Murray não chegou perto. O número ficou lá, intocado, por 15 anos. Djokovic era o único que poderia igualar o próprio recorde, e o tempo foi tratando de tornar isso cada vez mais improvável.
Jannik Sinner chegou a Roland Garros 2026 com 29 vitórias seguidas. E a aritmética ficou de repente muito concreta.
A versão de 30 segundos
Sinner venceu tudo que entrou desde março: Indian Wells, Monte-Carlo, Madrid, Roma — os três Masters de saibro antes do Grand Slam. Seis títulos Masters 1000 consecutivos, feito inédito na história do tênis. Carlos Alcaraz, o único rival com histórico consistente de batê-lo no saibro, está fora de Roland Garros e de Wimbledon com lesão no pulso direito sofrida em abril em Barcelona. O favorito absoluto ao título na quadra Philippe-Chatrier, sem o concorrente direto que lhe tirou o troféu no ano passado em cinco horas e meia de jogo.
Se Sinner vencer Paris, a sequência chega a 36. Se vencer um torneio preparatório na grama, a 41. Se vencer Wimbledon, a 48. O recorde de Djokovic é 43.
O que Djokovic construiu em 2011 — e por que durou tanto
A série de Djokovic começou na Copa Davis em dezembro de 2010 e terminou nas semifinais de Roland Garros de 2011, quando Roger Federer o derrotou. Foi o ano em que Djokovic ganhou Australian Open, Indian Wells, Miami, Madri e Roma antes de Paris — basicamente a mesma sequência de Masters de saibro que Sinner fez agora, mais os dois Grand Slams de hard.
O número 43 resistiu porque nenhum jogador depois dele chegou sequer a 35. Federer ficou em 41 como segundo colocado all-time. Nadal, em 32. Murray, em 28. A distância entre primeiro e segundo — dois jogos — parece pequena, mas diz tudo sobre o abismo entre Djokovic e os contemporâneos naquele ciclo.
Sinner está a 14 partidas do recorde de Djokovic. Com Alcaraz fora, ele tem um caminho bastante limpo em Paris: sete vitórias. Depois, um torneio de grama antes de Wimbledon adiciona mais cinco se ele vencer. Wimbledon, mais sete. A conta bate em 48 — um jogo antes de igualar Borg, cinco jogos depois de ultrapassar Djokovic.
Segundo dados compilados pelo Last Word on Tennis, Djokovic ocupa o topo da lista de sequências desde 1990, seguido por Federer (41), Thomas Muster (35), Nadal (32), Sampras (29) e Murray (28). Sinner, com 29, já está empatado com Sampras em quinto lugar e vai passar dele a cada vitória que adicionar em Paris.
O que Alcaraz representava — e o que a ausência dele muda de verdade
Há um detalhe que a cobertura de jornalismo de tênis tende a simplificar demais: Alcaraz não era apenas “o rival de Sinner no saibro”. Era o único jogador no circuito com capacidade demonstrada de vencer Sinner num best-of-five num Grand Slam, em condições de briga plena. O título de 2025 veio exatamente dessa situação — três championship points salvos, cinco horas e meia, desfecho no limite.
Sem Alcaraz, o campo de Roland Garros 2026 não tem nenhum jogador com esse histórico. Novak Djokovic tem 39 anos, entrou no torneio com apenas uma partida disputada no saibro nesta temporada e ainda está atrás de título número 25 de Grand Slam. Alexander Zverev já chegou a uma final em Paris mas nunca teve um Grand Slam. Casper Ruud é azarão de saibro, não favorito ao título.
Na minha leitura, a ausência de Alcaraz não é “vantagem circunstancial” pra Sinner. É a diferença entre um favorito e um arquifavorito. Sinner chega com 29 vitórias em sequência, o melhor tênis da carreira, e sem o adversário que o conhece melhor. Isso é um alinhamento de fatores que não acontece toda temporada.
Onde o roteiro pode falhar
A leitura honesta: o recorde de Borg, 49, exige vencer tudo em três torneios seguidos — dois Grand Slams diferentes — em duas superfícies diferentes. Esse nível de perfeccionismo ao longo de três meses deixa zero margem. Um tornozelo virado no vestiário, um dia de febrezinha às vésperas de jogo, um adversário que acertou tudo no momento certo, e a sequência para.
Borg ganhou o seu 49 em 1978. Quarenta e oito anos depois ninguém chegou perto. Isso não é coincidência — é a estatística dizendo que esse nível de consistência sustentada ao longo do tempo é uma das coisas mais difíceis que o tênis exige.
O recorde de Djokovic (43) é outra conversa: mais realista, mais próximo, mais tangível. Se Sinner sair de Paris com o título na mão — o que as apostas e o contexto do chaveamento tornam bem plausível — estaremos olhando para um tenista que vai entrar em Wimbledon a 7 partidas de reescrever a era moderna.
O mapa completo: partida a partida
| Torneio | Vitórias necessárias | Sequência ao fim |
|---|---|---|
| Roland Garros (título) | 7 | 36 |
| Pré-Wimbledon (título) | 5 | 41 |
| Wimbledon (título) | 7 | 48 |
| 1ª rodada em Montreal ou Cincinnati | 1 | 49 (iguala Borg) |
| 2ª rodada | 1 | 50 (recorde absoluto) |
Cada linha da tabela depende da anterior. Qualquer derrota zera o contador. Mas esse é exatamente o quadro no qual estamos — e há muitos meses ele não parecia nem remotamente possível.
Djokovic, por sua vez, entra neste Roland Garros num cenário curioso: pela primeira vez em décadas, é o torcedor que quer que ele ganhe — não o adversário que quer que ele perca. Com Alcaraz fora e Sinner assumindo o papel do “robô intocável” que a torcida nunca abraça, Djokovic virou o underdog simpático. O homem de 39 anos, três títulos em Paris, tentando o 25º Grand Slam da carreira com a multidão do lado.
Essa reviravolta de narrativa, na mesma quadra onde ele quebrou o recorde all-time de Slams em 2023, é parte do que torna este Roland Garros mais interessante do que pareceria num chaveamento sem Alcaraz.
Fontes
Escrito por
Camila Bertoldo
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.


