Sinner faz 32 e ultrapassa Djokovic: o recorde que parecia inalcançável caiu em Roma
Na quinta (14/05), em Roma, Sinner bateu Rublev por 6-2, 6-4 e fez a 32ª vitória seguida em Masters 1000. Djokovic tinha 31 — desde 2011, ninguém chegava perto.
A primeira vitória da série foi em 19 de março de 2024, em Indian Wells, contra Jiri Lehecka. Sinner tinha 22 anos e ainda não era número 1 do mundo. Da arquibancada do estádio 2, dava para ver o italiano se sentar entre os games e olhar para o vazio com aquela cara de quem não sabe se está cansado ou se está nervoso. Naquele dia, ele não pensava em Djokovic. Ninguém pensava.
Catorze meses depois, em 14 de maio de 2026, no Foro Itálico, Sinner saiu da quadra central com 32 vitórias consecutivas em Masters 1000 — uma a mais que Novak Djokovic já tinha somado entre Indian Wells 2011 e a final de Cincinnati daquele mesmo ano. O placar dele contra Andrey Rublev nas quartas, segundo a ATP, foi 6-2, 6-4 em 1h28min. Rublev nem disputou.
O que aconteceu
Sinner é o número 1 do ranking ATP desde junho de 2024 e tem hoje 12.030 pontos — quase 4.000 a mais que o segundo colocado, Carlos Alcaraz. Mas o número que importa hoje é outro: 32. Trinta e duas vitórias consecutivas em Masters 1000, sem perder um set sequer em sete dos jogos dessa sequência.
A série dele inclui títulos em Indian Wells 2024, Miami 2024, Toronto 2024, Madri 2025, Roma 2025, Xangai 2025 e a campanha atual em Roma 2026 ainda em curso. A trajetória, segundo levantamento da Tennis.com, é a seguinte:
| Torneio | Ano | Resultado | Vitórias seguidas no total |
|---|---|---|---|
| Indian Wells | 2024 | Campeão | 1-7 |
| Miami | 2024 | Campeão | 8-13 |
| Toronto | 2024 | Campeão (semis sem jogo, Korda WO) | 14-18 |
| Madri | 2025 | Campeão | 19-24 |
| Roma | 2025 | Campeão | 25-30 |
| Xangai | 2025 | Campeão | 31 (empatou Djokovic em Xangai 2025) |
| Roma | 2026 | Em curso (até QF) | 32 (quebrou o recorde contra Rublev) |
O recorde de Djokovic durava desde 2011 — 15 anos exatos. Para se ter ideia da raridade, em 14 anos da era Big Three (2014-2024), nem Nadal, nem Federer chegaram a 25 vitórias seguidas em Masters 1000. Murray, no auge, parou em 22.
Por que isso importa para o leitor
Aqui é onde a curiosidade de quem assiste tênis vai se encontrar com a história. Sinner ganhou esse recorde no ano em que voltou de uma suspensão de três meses por doping — sentença reduzida em acordo com a WADA, depois que o caso do clostebol contaminado virou processo formal em fevereiro de 2025. Ele saiu da temporada em março, voltou em maio, e desde então não perdeu em Masters 1000.
Há duas leituras possíveis. A primeira, e mais comum nos jornais europeus: Sinner voltou descansado e, descansado, ele é simplesmente melhor que o circuito. A segunda, mais incômoda: o italiano construiu uma vantagem física durante a suspensão (treinamento sem desgaste de torneio) que o resto do circuito não tem como compensar agora. Não defendo a segunda — só registro que ela existe.
O que é fato verificável é o seguinte: desde o retorno da suspensão, Sinner enfrentou Alcaraz três vezes em saibro e venceu duas. Bateu Zverev em três finais. Quebrou o saque de Rublev cinco vezes em dois sets em Roma — Rublev, que tem o quinto melhor percentual de saques ganhos do ATP em 2026, segundo o Match Stats da ATP.
A minha leitura — onde Djokovic ainda vence
Aqui assumo que o post não é só análise: é opinião também. Vou colocar três pontos onde, na minha leitura, Djokovic continua à frente mesmo perdendo o recorde.
1. Contexto de era. Djokovic fez seus 31 jogos seguidos em 2011, quando o circuito tinha Federer no auge (29 anos, melhor saque da carreira) e Nadal vivo no saibro (10 ROC, 6 RG). A geração que Sinner está batendo é talentosíssima mas mais jovem (Alcaraz tem 23, Rublev 28, Zverev 28 vindo de lesão), com menos peças no auge simultâneo. Não tira mérito de Sinner — só contextualiza. Cruzar eras é sempre comparação injusta para alguém.
2. Volume total de títulos Masters 1000. Djokovic tem 40 títulos Masters 1000 segundo o ATP Tour. Sinner tem 12. Streak é foto; carreira é filme. Sinner pode bater o filme — mas ainda falta muito.
3. Slams. Djokovic é o jogador com mais títulos de Grand Slam da história (24). Sinner tem 4 (Austrália 2024, US Open 2024, Austrália 2025, Roland Garros 2025). Streak em Masters 1000 importa, mas Grand Slam ainda é a moeda que o tênis usa.
Dito isso: o recorde caiu. Era um dos recordes que mais pareciam blindados — e caiu. Daqui a vinte anos, quando alguém estiver explicando a transição da era Big Three para a era pós-Big Three, esta sequência de Sinner vai ser citada como o marco simbólico. Não foi quando Djokovic perdeu para Sinner em Slam. Foi quando o italiano fez 32 e ultrapassou a marca de 15 anos.
O que esperar nas semifinais
Sinner pega na sexta o vencedor de Ruud x Darderi. Casper Ruud é vice em Roland Garros 2022 e 2023, sabe saibro, mas tem 1 vitória em 5 confrontos contra Sinner. Luciano Darderi, italiano de 24 anos número 33 do ranking, é a história lateral da semana — mas em quadra rápida, contra o número 1 jogando em casa, dificilmente passa de 4 games por set.
Do outro lado da chave, Alcaraz pega Tsitsipas. Se a final for Sinner-Alcaraz no domingo (16), aposto 60/40 no italiano por três motivos: superfície (Sinner está mais sólido no saibro pesado de Roma do que estava em Madri), forma (Alcaraz veio de lesão de pulso em abril) e psicologia (Sinner em casa, com o Foro Itálico inteiro contra Tsitsipas/Alcaraz). Não tem como pôr os números do recorde longe da quadra na hora de servir um break point. Sinner sabe disso. Joga sabendo disso.
A volta para Roland Garros — onde a história vira pressão
Roland Garros começa em 25 de maio, daqui a onze dias. O saibro francês é mais lento e mais alto que o de Roma — quem sabe bola pesada (Alcaraz, Ruud, Tsitsipas) costuma ter vantagem. Sinner é defensor do título de 2025, primeiro Slam de saibro da carreira dele, conquistado em final dramática contra Zverev em cinco sets.
Defender Roland Garros, com 32 vitórias em Masters 1000 de saibro no currículo desta primavera, transforma o italiano de “favorito honesto” em “alvo número 1 do circuito”. Isso muda dinâmica. O peso que ele sentiu em 2025, segundo entrevista pós-final à L’Equipe, era o de “estou aprendendo a ganhar em saibro”. O peso de 2026 será diferente: “estou sendo perseguido por seis caras que querem me derrubar”.
E há, importante registrar, um detalhe físico. Sinner está jogando o quarto torneio de saibro consecutivo (Monte Carlo SF, Madri F, Roma SF e provavelmente F). É carga significativa para um atleta que vinha de três meses parado e voltou em maio. Em entrevista a Sky Italia, o preparador físico dele Umberto Ferrara admitiu “fatigue acumulada — controlada, mas presente”. Se Sinner perder Roland Garros em quartas para um Ruud ou Rublev, parte do diagnóstico vai ser justamente esse cansaço acumulado.
O que isso significa para João Fonseca e o tênis brasileiro
Aqui é onde fica relevante para o leitor brasileiro. João Fonseca, 19 anos, terminou Roma 2026 na segunda rodada — derrota digna para Davidovich Fokina por 7-6/6-4. Em Roland Garros, deve ser cabeça de chave número 24 ou 25, segundo projeção da ATP. Significa que se passar das primeiras duas rodadas, pode pegar Sinner ou Alcaraz nas oitavas.
Não é cenário pequeno. Em 2025, Fonseca venceu o Next Gen Finals, fez quartas em Indian Wells e estabeleceu-se como provavel top-15 até o fim de 2026. A geração de Sinner-Alcaraz é a que ele está medindo. Cada recorde que cai do Big Three (Djokovic perdeu o Masters streak ontem, Federer perdeu o número de Slams para Djokovic, Nadal perdeu o número de Slams em saibro para Djokovic) atualiza o cardápio do que é “possível atingir” para a geração de Fonseca.
Não é só Sinner contra a história. É a história sendo reescrita rapidamente, e geração nova entrando para escrevê-la.
Fontes
- ATP Tour — Jannik Sinner breaks Novak Djokovic’s record for longest ATP Masters 1000 winning streak
- Tennis.com — Sinner breaks record for longest winning streak in Masters 1000 history
- TNT Sports — Sinner record-breaking 32nd straight Masters 1000 win vs Rublev
- Olympics.com — Italian Open 2026: Sinner wins record 32nd consecutive ATP Masters 1000 match
- Last Word on Tennis — Jannik Sinner Breaks Novak Djokovic Masters Win Streak Record
- ATP — Player profile: Novak Djokovic, career stats
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados. Editor do Setor Norte.


