sexta-feira, 19 de junho de 2026
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Primeiro e segundo saque no tênis: por que o segundo decide mais do que parece

Entenda a diferença entre o primeiro e o segundo saque no tênis, os critérios que separam um bom sacador de um grande, e por que a estatística de pontos ganhos no segundo saque revela mais sobre o resultado de uma partida do que qualquer ace.

Camila Bertoldo 6 min de leitura
Tenista em posição de saque durante partida profissional em quadra dura com expressão de concentração
Tenista em posição de saque durante partida profissional em quadra dura com expressão de concentração

Num torneio de Wimbledon 2022, Nick Kyrgios e Novak Djokovic foram pra final. Kyrgios terminou o jogo com 89% de pontos ganhos no primeiro saque — um número absurdo. Djokovic ganhou. O motivo não estava no primeiro saque. Estava no segundo.

Esse detalhe — o que acontece quando o primeiro bola não entra — separa analistas de torcedores. E é onde a maioria das pessoas para de olhar antes de entender o jogo de verdade.

O que define cada saque (e onde as pessoas erram)

O primeiro saque é arma. O segundo é gestão de risco.

No tênis, cada ponto começa com duas tentativas de saque. O sacador pode bater tão forte quanto quiser no primeiro — se errar, não perde o ponto. Mas no segundo saque, uma falta significa ponto pro adversário na hora: é a dupla falta. Então o segundo saque precisa entrar, e isso muda tudo sobre como ele é executado.

O erro comum de análise é usar só a porcentagem de primeiro saque como métrica de qualidade. Alguém chega com “ele acertou 72% de primeiros saques” e acha que foi um bom dia sacando. Pode ter sido um desastre. O que importa são três números juntos:

  1. Porcentagem de entrada do primeiro saque — quantas vezes a bola entrou na caixa
  2. Pontos ganhos no primeiro saque — quando entrou, ele ganhou o ponto?
  3. Pontos ganhos no segundo saque — quando o primeiro não entrou, como ele administrou?

O terceiro critério é o mais revelador e o menos falado.

Os critérios que separam os sacadores (de verdade)

CritérioO que medeReferência de elite
% 1º saque (entrada)Consistência da variante agressiva60–70% no masculino, 55–65% no feminino
% pontos ganhos no 1º saqueEficácia quando a arma funcionaacima de 75% é excelente
% pontos ganhos no 2º saqueGestão de risco sob pressãoacima de 55% é bom; abaixo de 50% é buraco
Duplas faltas / setCusto da agressividade mal calibradaabaixo de 1/set é saudável
Aces / duplas faltas (ratio)Relação entre recompensa e erroacima de 3:1 é sacador de qualidade

Num Grand Slam masculino típico, o sacador ganha entre 73% e 78% dos pontos quando o primeiro saque entra. Quando vai pro segundo, esse número cai pra 52% a 57% dependendo da superfície. Em Wimbledon, a grama ajuda o sacador até no segundo (55–58%). No Roland Garros, o saibro nivelou tanto o jogo que segundo saque fraco vira ponto perdido quase garantido.

Isso explica por que jogadores que acertam muito o primeiro saque, mas que têm segundo saque fraco, nunca ganham em Paris. E por que Nadal dominou o saibro por décadas não sendo o melhor sacador do tour — porque seu segundo saque girava a bola com tanta velocidade de rotação que o retornador não conseguia atacar.

O “kickserve” e por que ele existe

A maioria dos tenistas de elite não usa no segundo saque a mesma mecânica do primeiro. No primeiro, o movimento busca velocidade e ângulo. No segundo, a escolha mais comum é o kickserve — o saque com efeito topspin ou slice que faz a bola quicar alto ou em ângulo difícil.

O kickserve entra mais fácil porque a trajetória permite margem maior na rede. Mas a lógica vai além disso: ele força o retornador a golpear numa posição desconfortável, acima do ombro, com a bola se afastando do corpo. Se o retornador não for rápido de pernas e não tiver backhand sólido em situação alta, já entrou no padrão que o sacador queria.

O contraponto é que batedores de kickserve previsíveis viram alvo. Carlos Alcaraz tem um segundo saque tão pesado que os adversários já posicionam o corpo pra esquerda antes de a bola ser batida — e ainda assim não conseguem neutralizar. Isso é nível outro. Para a maioria dos tenistas, o segundo saque é sobrevivência bem calibrada.

Minha leitura: onde o segundo saque “quebra” um sacador no mapa do tour

Há um padrão que eu observo há anos assistindo ATP e WTA: sacadores que vivem de primeiro saque raramente ganham Slams. Não é correlação aleatória.

Quando você depende do primeiro saque pra ganhar a maioria dos pontos no serviço, você está implicitamente apostando que vai acertar 65–70% dos primeiros em cinco sets sob pressão no fifth set de um quarto de final. Essa aposta costuma perder. O nervosismo baixa a porcentagem de primeiro saque. E aí o sacador que nunca treinou o segundo saque como arma — só como escape — começa a dar pontos de graça. É a mesma lógica do clutch em outros esportes: a pressão não cria fraqueza, ela expõe a que já existia. Vale comparar com como o clutch time é medido na NBA — atletas que dependem de uma habilidade só colapsam exatamente quando ela deixa de funcionar.

É exatamente o que acontece em análises de break points no tênis: o retornador mira no segundo saque em situações de pressão porque sabe que o sacador vai abrir mão de agressividade pra só colocar a bola em campo.

Sinner é o exemplo atual mais claro do oposto. O segundo saque dele é tão pesado quanto o de muitos tenistas no primeiro. Nos Masters 1000 de 2025 e 2026, ele consistentemente ganhou acima de 58% dos pontos no segundo saque — número que seria bom pra primeiro saque de tenistas médios.

FAQ

Por que o saque no tênis tem duas tentativas? A regra é histórica, vem dos primórdios do esporte no século XIX, quando o saque era apenas forma de colocar a bola em jogo — não arma. A segunda tentativa ficou no regulamento como proteção contra a imprecisão. Hoje é parte central da tática.

Qual superfície beneficia mais o sacador no segundo saque? Grama, de longe. A bola quica baixo e rápido, o retornador tem menos tempo de preparação. Em quadras rápidas e saibro o jogo muda bastante — no saibro o quique alto dá mais tempo ao retornador, o que equaliza muito o segundo saque.

João Fonseca tem bom segundo saque? Sim, acima da média para a idade. O kickserve dele com bastante spin lateral já causou problemas a adversários mais experientes. É uma das razões pelas quais ele não perde posição na quadra durante pontos longos com tanta frequência quanto a maioria dos jovens do tour.

Como saber se um sacador está com problema no segundo saque durante a partida? Observe as duplas faltas e o número de pontos de break convertidos pelo adversário. Se o retornador está atacando agressivamente no retorno e ganhando, é sinal de que o segundo saque está entrando lento ou previsível. A telinha nos estádios mostra a velocidade — segundo saque abaixo de 130 km/h em masculino costuma ser atacável.


Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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