sexta-feira, 19 de junho de 2026
Setor Norte SETOR NORTE
Tênis

Empunhaduras no tênis: Eastern, Semi-Western, Western e Continental — qual usar e por quê

A forma como você segura a raquete decide a altura da bola, o spin e até as lesões. Um guia honesto das quatro empunhaduras, com ranking por situação e a escolha que eu faria pra cada nível.

Camila Bertoldo 7 min de leitura
Empunhaduras no tênis: Eastern, Semi-Western, Western e Continental — qual usar e por quê

Pega uma raquete e repara numa coisa que quase ninguém olha: o cabo não é redondo. É um octógono — oito faces chatas, chamadas bevels. Profissional nenhum segura “do jeito que dá”. Cada um dos melhores tenistas do mundo posiciona a base do dedo indicador e a palma da mão numa face específica desse octógono, e essa decisão de milímetros muda tudo — a altura que a bola sai, quanto spin ela carrega, e se o cotovelo dele vai durar a carreira inteira ou render uma cirurgia aos 30.

Se você joga aos fins de semana e nunca pensou nisso, não tem problema — mas é provavelmente o motivo de aquela bola alta no seu forehand continuar voando pra fora. Vou destrinchar as quatro empunhaduras clássicas, dizer pra que cada uma serve de verdade e, no fim, dar a escolha que eu faria pra cada nível de jogo.

O que importa na hora de decidir

Antes do ranking, três critérios separam uma empunhadura boa de uma errada pro seu jogo:

  • Altura de contato. Cada grip tem uma “zona de conforto” de altura. Bater fora dela — bola muito alta ou muito baixa — é onde os erros nascem.
  • Spin vs. potência plana. Quanto mais a mão gira pra baixo do cabo, mais topspin você consegue gerar, e menos a bola sai reta e rasante. É um trade-off, não um upgrade.
  • Custo físico e versatilidade. Empunhaduras extremas cobram do punho e do antebraço, e algumas travam você num só tipo de jogada. A superfície entra aqui: o que funciona no saibro lento pode te atrapalhar na diferença entre saibro, grama e quadra rápida.

Uma referência rápida pra leitura: os bevels do cabo são numerados de 1 a 8. Pra um destro, o bevel 1 é o topo do cabo (mão “de martelo”, como se fosse cravar um prego), e os números crescem girando a mão no sentido horário por baixo. A face onde fica a base do dedo indicador é o que define o nome da empunhadura.

As quatro empunhaduras, do mais plano ao mais extremo

EmpunhaduraBevel (base do indicador)Melhor praAltura ideal de contatoLado fraco
Continental2Saque, voleio, slice, smashQualquer (drive, não)Topspin de fundo quase nulo
Eastern3Forehand plano e diretoCinturaPouco spin na bola alta
Semi-Western4Forehand all-court modernoCintura a peitoBola muito baixa
Western5Topspin pesado no saibroPeito a ombroBola baixa e rasante vira pesadelo

A Continental é a mais antiga e a mais incompreendida. Ninguém de bom senso bate forehand de fundo com ela hoje — a bola sai baixa e sem spin, e qualquer adversário decente devolve fácil. Mas ela continua insubstituível em três jogadas: o saque, o voleio e o slice. É a empunhadura “neutra” que deixa a face da raquete numa angulação versátil. Se você só vai memorizar uma pra subir à rede, é essa.

A Eastern é o forehand “apertar a mão na raquete” — você simplesmente cumprimenta o cabo. Por décadas foi o padrão (Federer cresceu próximo dela e ainda usa algo entre Eastern e Semi-Western). Dá uma bola plana, rápida e direta, com contato confortável na altura da cintura. O calcanhar de Aquiles é a bola alta: sem girar mais a mão pra baixo, gerar topspin pra controlar uma bola na altura do ombro fica difícil.

A Semi-Western é o forehand do tênis moderno, ponto. A grande maioria do circuito atual mora aqui ou perto. Você gira a mão um bevel a mais que a Eastern, e ganha um equilíbrio que beira o ideal: topspin de sobra pra segurar a bola dentro da quadra, potência plana suficiente pra finalizar, e uma zona de contato alta que casa com o jogo de fundo pesado de hoje. O preço é a bola muito baixa — um slice rasante força você a flexionar muito os joelhos.

A Western (e a Full Western, ainda mais extrema) é a empunhadura do topspin monstruoso. Quem cresceu jogando saibro lento, onde a bola sobe e quica alto, costuma adotá-la naturalmente. Nadal é o cartaz dessa escola — a quantidade de rotação que ele impõe à bola só é possível com a mão bem embaixo do cabo. O problema aparece quando a bola não quica: numa grama baixa ou contra um slice rasante, o Western luta pra levantar a bola e os erros se multiplicam.

Minha escolha — e por que ela muda com o seu nível

Vou ser direta, porque é o que falta na maioria dos guias: não existe “a melhor empunhadura”. Existe a certa pro seu nível e pra onde você quer chegar.

Iniciante de verdade? Comece na Eastern no forehand. Ela perdoa. O contato na cintura é intuitivo, a bola sai reta e você aprende a sentir o tempo de batida sem brigar com o spin. Aprender topspin pesado antes de ter ritmo de bola é colocar o carro na frente dos bois.

Joga há um ano ou mais e leva a sério? Migre pra Semi-Western. É a empunhadura que mais aguenta o jogo evoluir junto com você. Vai te dar a margem de erro do topspin sem te trancar num estilo único.

Continental no saque e no voleio é inegociável, em qualquer nível. Se você saca com a empunhadura do forehand — erro clássico do amador — está jogando fora o slice e o kick que o saque pode ter. Aliás, é a mesma lógica de eficiência que vale na mecânica do saque, do let à dupla falta: a ferramenta certa pra cada gesto.

Western? Só se você vive no saibro e construiu o jogo todo em cima de spin. Pra quem alterna superfícies, é especialização cara demais. E aqui vale o paralelo com qualquer esporte de precisão: especializar-se num só padrão é a mesma armadilha de uma equipe que só sabe atacar de um jeito — funciona até o adversário ler, igual ao dilema de quando usar pressing alto ou bloco baixo no futebol. Versatilidade ganha temporada; rigidez ganha jogo.

Um detalhe que ninguém comenta: a empunhadura interage com o equipamento. Uma corda mais frouxa perdoa um pouco a falta de spin de uma Eastern, enquanto uma corda apertada combina com a rotação extra de uma Semi-Western. Se você quer entender essa parte, já falei sobre por que a tensão da corda muda tanto o jogo — empunhadura e encordoamento são um sistema, não duas escolhas separadas.

Perguntas que todo mundo faz

Posso mudar de empunhadura entre o forehand e o saque no meio do ponto? Sim, e os profissionais fazem isso o tempo todo — em frações de segundo. Quem joga bem subindo à rede troca pra Continental no caminho. Isso se chama grip change, e treiná-lo é tão importante quanto treinar a batida em si.

Qual empunhadura usar no backhand de duas mãos? A combinação mais comum é Continental na mão dominante (de baixo) e Eastern de forehand na mão de cima. Na prática, a mão de cima conduz a batida, o que dá ao backhand de duas mãos uma estabilidade que o de uma mão não tem.

Empunhadura errada causa lesão? Pode contribuir. Forçar topspin com uma empunhadura plana, ou bater bola alta repetidamente fora da zona de conforto do grip, sobrecarrega cotovelo e punho. O famoso “cotovelo de tenista” tem muitas causas, mas técnica inadequada é uma delas — daí o aviso lá em cima.

A empunhadura é a primeira decisão do jogador antes mesmo da bola chegar — invisível pra quem assiste, decisiva pra quem joga. Da próxima vez que vir um tenista ajeitar a mão no cabo entre um ponto e outro, repara: ele não está se arrumando. Está escolhendo o que a próxima bola vai ser.

Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

Continue lendo · Tênis

Ver tudo →