sexta-feira, 19 de junho de 2026
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Coaching no tênis: a regra que divide o circuito e por que ela importa mais do que parece

Dar instruções ao jogador durante um game é proibido no ATP, liberado no WTA e vira caso policial quando a câmera aponta pro banco. Entenda o que o coaching pode e não pode, e por que essa distinção muda o jogo.

Camila Bertoldo 7 min de leitura
Coaching no tênis: a regra que divide o circuito e por que ela importa mais do que parece

Em setembro de 2018, Serena Williams perdeu a final do US Open para Naomi Osaka. Antes disso, ela recebeu uma penalidade de ponto depois de uma advertência por coaching ilegal — Patrick Mouratoglou, seu técnico, admitiu depois que sinalizou da arquibancada, embora Serena dissesse que não viu. O episódio virou um dos debates mais inflamados dos últimos anos no tênis: o que exatamente o treinador pode ou não pode fazer durante um jogo? A resposta, dependendo se você assiste ao ATP ou ao WTA, é completamente diferente.

Essa assimetria de regra, que existe há décadas e ainda não foi resolvida de vez, revela algo sobre como o circuito enxerga a autonomia do jogador em quadra. E pra quem acompanha tênis com atenção, entender o limite do coaching ajuda a ler gestos, olhares e pausas que antes pareciam insignificantes.

O que aconteceu — e o que a regra dizia

Antes de ir ao detalhe técnico: o coaching é a comunicação de qualquer instrução tática ou técnica entre o treinador (ou qualquer membro do box do jogador) e o atleta durante a partida. Bater palma, gritar “vamos” e gesticular em comemoração não conta. Mostrar dois dedos no momento exato em que o adversário está sacando, ou cochilhar na direção do jogador no changeover — isso conta.

A regra vigente no ATP Tour é objetiva: coaching durante pontos e games é proibido (fonte: ATP Official Rulebook, edição 2025). O único momento em que um técnico pode se aproximar fisicamente do jogador é durante a pausa médica, desde que convocado pelo médico do torneio. Qualquer comunicação visual, gestual ou verbal a partir do banco durante o game resulta em advertência na primeira ocorrência e, na segunda, penalidade de ponto.

No WTA, a história é diferente. O circuito feminino introduziu o on-court coaching de forma experimental em 2009 e, após anos de debates, expandiu e formalizou o modelo: cada jogadora pode chamar seu técnico uma vez por set para uma conversa rápida de até noventa segundos no changeover (fonte: WTA Official Rulebook, 2025). É a única licença oficial para instrução direta durante uma partida de tênis profissional.

Por que a diferença existe — e quem tem razão

A lógica do ATP para manter o coaching proibido é filosófica: o tênis é um esporte individual por definição. O jogador entra em quadra sozinho, sem ninguém pra trocar a bola, colocar um substituto ou chamar um tempo. A inteligência tática é parte da performance. Se você deixa o técnico falar durante o game, transfere parte do duelo pra fora da quadra — e isso, argumentam os defensores da regra, distorce o que faz o tênis diferente de quase todo esporte coletivo.

O argumento contrário, que o WTA adotou na prática, é que o coaching já acontece de qualquer forma. Técnicos treinados há décadas para ler o jogo não passam dois horas sem comunicar nada. A câmera de TV lê os lábios, a linguagem corporal entrega o recado. A proibição do ATP não elimina o coaching — ela cria um jogo de esconde-esconde mal resolvido, onde alguns treinadores são mais discretos e outros simplesmente levam advertência pelo que seria uma instrução normal em qualquer outro esporte de alto rendimento.

Na minha leitura, ambos os argumentos têm base — mas o WTA chegou mais perto de uma solução honesta. Formalizar o que já ocorre é mais limpo do que criar uma zona cinzenta onde a aplicação depende do árbitro ter olhado pro banco no momento certo.

O que o coaching não pode fazer — nem no WTA

Aqui está o detalhe que pouca gente menciona: mesmo no WTA, onde o on-court coaching é permitido, o técnico não pode entrar em quadra durante os pontos. A conversa acontece no changeover (troca de lado entre games) e dura no máximo noventa segundos. Durante o próprio game, enquanto a bola está em jogo, qualquer instrução do banco — mesmo no circuito feminino — é irregularidade.

O que o técnico pode fazer no WTA, dentro da janela do coaching:

  • Ajustar a tática de saque ou de retorno
  • Corrigir posicionamento em quadra
  • Tratar de confiança e estado mental
  • Mostrar dados coletados durante o game (alguns técnicos chegam com tablet)

O que permanece proibido mesmo no WTA:

  • Entrar em quadra sem autorização médica
  • Comunicação durante o ponto em andamento
  • Instrução do banco após a janela de coaching encerrar

O que muda na leitura do jogo

Quando você sabe dessa regra, o comportamento dos jogadores em quadra ganha outra camada. Um atleta que olha pro banco no meio de um rally está buscando algo — validação, instrução, reação emocional? Uma cara fechada do técnico depois de um erro não-forçado pode ser só expressão facial ou pode ser comunicação deliberada que o árbitro vai ou não flagrar.

Os Grand Slams ainda seguem a regra do ATP de proibição geral (tanto no torneio masculino quanto no feminino), o que cria uma situação particular: jogadoras do WTA que estão habituadas ao coaching ao longo do ano chegam nos Slams sem esse recurso. Algumas técnicas lidam bem com isso — desenvolveram autonomia tática durante toda a carreira. Outras, que cresceram já com o modelo do on-court coaching, precisam tomar decisões em quadra que normalmente dividiriam com o banco.

Esse gap de adaptação é um dos fatores menos comentados quando se analisa a performance de jovens tenistas em Grand Slams versus torneios regulares do WTA. Para um estudo de caso próximo, o avanço de Bia Haddad em Roma 2026 mostra como uma jogadora experiente gerencia a transição entre esses contextos.

O que fazer com isso agora

Três coisas que mudam quando você assiste uma partida sabendo essa regra:

  1. Observe o banco durante os changeovers. No WTA, a janela de coaching é visível — o técnico se levanta e vai até o jogador, ou o jogador vai até o banco. No ATP, qualquer gesto no meio de um game é potencialmente irregular.

  2. Preste atenção em quem chama e quem não chama. No WTA, jogadoras como Swiatek usam o coaching de forma sistemática. Outras — e isso diz algo sobre o estilo de jogo — quase nunca acionam o técnico, mesmo com a possibilidade aberta. Para entender por que o resultado num set pode depender disso, vale conhecer como funciona o formato de sets e tie-breaks no tênis profissional.

  3. Em Grand Slams, a assimetria desaparece. Todo mundo joga pelas mesmas regras de proibição. É aí que o tênis exibe com mais clareza o que é autoral — o que o jogador resolve sem ninguém ao ouvido.

O debate sobre coaching vai continuar. O ATP tem conversas internas sobre liberalizar as regras; o WTA já provou que o formato funciona sem acabar com a essência do esporte. Mas enquanto não existe consenso, o circuito vai continuar sendo dois torneios com filosofias diferentes — e o banco vai continuar sendo o lugar mais monitorado de qualquer arena de tênis.

Para entender o contexto mais amplo do circuito e como pontos e rankings se acumulam em torno dessas partidas, o guia sobre como funciona o ranking ATP e WTA ajuda a situar onde cada jogo se encaixa na temporada. E se quiser ver como as regras de tempo interagem com a dinâmica tática — incluindo as pausas onde o coaching pode ou não acontecer —, o guia sobre shot clock e medical timeout cobre esse território.


Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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