terça-feira, 26 de maio de 2026
Setor Norte SETOR NORTE
Futebol

A convocação de Neymar que Ancelotti não quis, mas aceitou

O atacante chega à Copa com lesão confirmada, menos de 700 minutos na temporada e uma videochamada emocional como passaporte. A história por trás de uma decisão que não foi técnica.

Camila Bertoldo 5 min de leitura
Neymar jogando pela seleção brasileira
Neymar jogando pela seleção brasileira

Pouco antes de Ancelotti anunciar a lista final para a Copa, Casemiro fez uma videochamada com Neymar. O volante prometeu ao técnico que o atacante “não o decepcionaria”. Neymar prometeu o mesmo. Ancelotti ouviu e colocou o nome na lista — um jogador que havia acumulado 682 minutos em toda a Série A naquele momento, e que estava com edema de 2 mm na panturrilha direita quando o Brasil divulgou a convocação.

Essa é a cena que resume o estado do futebol brasileiro a três semanas do início do Mundial.

O que aconteceu: lobby, lesão e uma promessa

A convocação de Neymar não saiu do critério técnico de Ancelotti. Segundo reportagem da CNN Brasil baseada no jornal britânico The Sun, foi fruto de pressão interna do elenco. Casemiro liderou o lobby, defendendo que Neymar fosse incluído por sua liderança no vestiário — e propondo que valeria 30 minutos decisivos por jogo. Rodrygo disse que Copa sem Neymar “não teria a mesma graça”. Raphinha, do Barcelona, pediu a presença do camisa 10.

O próprio Ancelotti deixou escapar a real motivação ao justificar a chamada: “o carinho que tem no grupo, o ambiente que pode ajudar a criar”. Isso é capitão de torcida, não atacante de Copa do Mundo.

O Santos informou que a lesão não era grave. Mas “não grave” é relativo quando o jogador lesionou a panturrilha numa derrota para o Coritiba e a Copa começa em menos de 30 dias. A CBF sabia do edema e convocou assim mesmo, segundo apuração do Diário do Centro do Mundo.

Por que Messi em 2022 não é parâmetro

O paralelo que circula na imprensa é Messi na Copa do Qatar — 35 anos, temporada irregular pelo PSG, último Mundial, último baile.

O argumento tem um problema de base.

Messi chegou ao Qatar com 18 jogos pelo PSG na temporada anterior e 10 gols. Tinha um clube que o protegia taticamente, um sistema construído em torno das suas limitações físicas, e quatro anos de seleção argentina funcionando como uma unidade coesa com Jorge Scaloni. Chegou em forma relativa.

Neymar chega ao Mundial de 2026 com 682 minutos na Série A — menos do que a maioria dos titulares joga em dois meses. São 27 jogos de liga nos últimos três anos, conforme levantado pelo The Guardian. É um jogador que passou mais tempo na fisioterapia do que em campo desde 2023.

A diferença não é de grau. É de situação.

O que a convocação revela sobre o Brasil

Aqui está a leitura que ninguém conforta em fazer: a convocação de Neymar não é um erro de cálculo do Ancelotti. É um sintoma de um problema estrutural da seleção brasileira.

Desde 2014, o Brasil não consegue construir um time que funcione sem um messias individual. Neymar carregou essa função por doze anos — às vezes bem, mais vezes mal. Mas o problema não é dele. É que a CBF e a torcida nunca aceitaram um Brasil que funcionasse como coletivo, onde nenhum jogador fosse maior do que o sistema.

O lobby de Casemiro pela presença de Neymar é bem-intencionado. Mas revela que o elenco também comprou essa narrativa. Um time que precisa de um jogador machucado para “criar o ambiente” não tem liderança distribuída. Tem dependência.

Ancelotti, que em trinta anos de carreira construiu clubes onde o coletivo sempre suprimiu o ego individual, aceitou uma lógica que vai contra tudo que já fez de melhor. A pergunta é: por quê?

A resposta provável é que o técnico italiano entende o tamanho político da seleção brasileira. Chegar ao primeiro jogo da Copa sem Neymar — saudável ou não — seria um terremoto. Então ele resolveu a equação política mesmo sabendo que ela poderia custar caro na equação tática.

O que fazer com isso agora

Ancelotti tem alguns cenários razoáveis para Neymar:

  • Poupá-lo nas fases de grupo, principalmente nos dois primeiros jogos, e ativá-lo como recurso do banco na fase eliminatória
  • Usar a presença dele no vestiário de forma intencional para gerenciar o ambiente do grupo — que tende a ser tenso em Copas do Mundo
  • Aceitar que ele pode não jogar nada e ter um substituto pensado nos slots táticos onde ele atuaria

O que não pode acontecer é a seleção entrar em campo numa fase eliminatória esperando que Neymar, vindo de semanas de fisioterapia, resolva o jogo nos 20 minutos finais. Isso é o roteiro de 2014 sem o benefício de Neymar estar saudável.

Na minha leitura, Ancelotti tem condição de administrar isso bem — ele é um dos técnicos mais inteligentes da história no gerenciamento de grupos e de espetativas individuais. O risco real é que a narrativa escape do vestiário e vire a pauta externa do Brasil na Copa. Se Neymar entrar e tiver um jogo ruim, a pressão vai triplicar sobre um elenco que tem jogadores — Vinicius Jr., Rodrygo, Raphinha — capazes de ganhar esse Mundial sem carregar o peso de uma lenda em ressurreição forçada.

O Brasil tem talento real para chegar longe. O que não precisa é de um roteiro escrito pela saudade.

Fontes

Imagem gerada por IA (fal.ai)

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

Continue lendo · Futebol

Ver tudo →