terça-feira, 26 de maio de 2026
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O que o futebol inglês perde quando Guardiola apaga a luz

Pep Guardiola confirmou saída do Manchester City nesta sexta-feira. Mas a pergunta mais honesta não é sobre títulos — é sobre o que a Premier League vai fazer sem o treinador que reescreveu suas regras táticas.

Camila Bertoldo 5 min de leitura
Treinador em borda de campo em estádio moderno, luz dramática sobre o gramado
Treinador em borda de campo em estádio moderno, luz dramática sobre o gramado

Em 2016, quando Pep Guardiola chegou ao Etihad Stadium, o Manchester City era um clube rico que ainda não sabia exatamente o que queria ser. Em 2026, quando ele confirma a saída nesta sexta-feira, o City tem um estande recém-inaugurado com o nome dele gravado na fachada. E a Premier League tem um problema que poucos estão nomeando com clareza: ela foi moldada para bater no Guardiola — e agora vai precisar descobrir o que é sem ele.

A versão de 30 segundos

Dez anos, 17 títulos oficiais, seis Premier Leagues, uma Champions League, um treble. Guardiola vai embora depois que o Arsenal de Arteta finalmente quebrou o ciclo do City nesta temporada. A despedida oficial acontece no domingo contra o Aston Villa — e a tribuna norte do Etihad carregará o seu nome. Enzo Maresca, ex-assistente do próprio Guardiola, é o favorito para assumir.

O que importa para o futebol não é o número de troféus, que qualquer linha de Wikipedia vai listar. O que importa é a pergunta mais difícil: o jogo que Guardiola criou no City era sustentável por outra pessoa, ou era personagem único?

O que ele mudou de verdade

Guardiola não inventou a posse de bola. Não inventou a pressão alta. Não inventou o falso nove. Ele fez algo mais raro: pegou todos esses conceitos e os transformou em sistema replicável, não em genialidade intransferível.

Na primeira temporada, 2016-17, o City terminou em terceiro com 78 pontos — resultado medíocre para o investimento feito. Guardiola não entrou em pânico. Diagnosticou o problema específico: a equipe não tinha fullbacks que servissem como meias pelo lado. Na janela seguinte, comprou Benjamin Mendy, Kyle Walker e Danilo com foco cirúrgico nessa lacuna.

Aquilo não foi só uma contratação. Foi uma declaração tática: os fullbacks no sistema dele não são defensores que atacam quando podem. São meias que defendem quando precisam. A diferença parece sutil; na prática, muda o xG do time em pelo menos 0.3 por jogo quando funcionava no pico do sistema, segundo análises do FBref.

Na temporada 2017-18, o City chegou a 100 pontos e 106 gols. Esse número — cem pontos — ainda é o teto histórico da Premier League. Nenhum clube chegou perto desde então.

Como a liga se organizou para sobreviver a ele

A Premier League dos últimos cinco anos pode ser lida como uma corrida armamentista em câmera lenta contra o estilo de Guardiola.

Klopp respondeu com intensidade: o Liverpool do alemão não tentava jogar mais bonito que o City, tentava desorganizá-lo antes que o sistema se instalasse. Os 97 pontos de 2018-19 — que não renderam o título — resumem a crueldade desse período: o Liverpool foi quase perfeito e não ganhou, porque o City foi ainda mais.

Arteta respondeu com especificidade: estudou o sistema do mentor por dentro, saiu, e construiu um antídoto baseado em bolas paradas e saída de pressão estruturada. O Arsenal desta temporada marcou mais gols em situações de bola parada do que qualquer outra equipe inglesa desde 2004, segundo dados do Opta. E foi justamente essa frieza que finalmente quebrou o domínio do City — o empate do Bournemouth que entregou o título aos Gunners três dias atrás.

Há uma ironia cruel nisso. Arteta — o homem que aprendeu a ser treinador ao lado de Guardiola — foi quem finalmente o derrotou na despedida.

Onde a tese pode falhar

Minha leitura é que o legado de Guardiola na Premier League vai durar mais do que as próximas três ou quatro temporadas, porque os times que foram construídos para bater nele vão precisar se adaptar novamente. Arteta, Slot em Liverpool, Postecoglou ou quem vier — cada um vai herdar um campeonato taticalmente mais sofisticado do que o que existia em 2016.

Mas há um contra-argumento honesto: a maior parte do que Guardiola fez dependia de Guardiola. O City não era um sistema abstrato — era um sistema que precisava de um treinador capaz de fazer correções de jogo em tempo real com uma profundidade que poucos técnicos no mundo possuem.

Enzo Maresca herda um elenco ainda competitivo e um esquema que conhece por dentro. Mas a história dos substitutos de treinadores icônicos no futebol inglês não é otimista. Van Gaal depois de Ferguson, Rodgers depois de Dalglish. A sequência tende a ser longa.

O que esperar agora

Na prática, a saída de Guardiola reorganiza o equilíbrio da Premier League de uma forma que ainda vai levar meses para ficar clara.

O Arsenal de Arteta vira favorito natural para o bicampeonato — mas o próprio Arteta passou anos tentando construir algo à sombra do City. Sem Guardiola para servir de régua, não sabemos como o espanhol reage ao papel de liderança total.

O Liverpool de Slot, segundo lugar nesta temporada, tem Salah saindo e reconstrução no meio. Jovens como Foden e Palmer, cortados de Inglaterra por Tuchel nesta sexta-feira, vão chegar à Copa do Mundo sem lugar garantido nas seleções — e essa indefinição individual se reflete no coletivo dos clubes.

A Copa do Mundo começa em junho. Guardiola vai assistir como embaixador do City Football Group, não como treinador. E o Etihad vai abrir a tribuna norte com o nome dele na placa antes do apito final de domingo.

Dez anos, uma liga reescrita, e uma pergunta que o futebol inglês vai demorar para responder: o que é a Premier League quando a régua que ela aprendeu a medir muda de lugar?

Fontes

Imagem gerada por IA (fal.ai) — sem direitos de terceiros

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Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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