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sábado, 19 de setembro de 2026
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Os 90 minutos nunca duram 90 minutos: a conta escondida atrás do acréscimo no futebol

Raphael Claus deu 27min16s de acréscimo num jogo da Copa de 2022. Veja quem decide esse número, os cinco motivos que inflam a conta e por que "90 minutos" é a parte mais enganosa do futebol.

Camila Bertoldo 6 min de leitura
Quarto árbitro de futebol erguendo placar eletrônico com tempo de acréscimo à beira do gramado
Quarto árbitro de futebol erguendo placar eletrônico com tempo de acréscimo à beira do gramado

Faltavam, segundo o placar da Fifa, dois minutos pro fim do primeiro tempo entre Inglaterra e Irã, na Copa do Catar. O quarto árbitro ergueu a placa: 14 minutos e oito segundos de acréscimo. No segundo tempo, mais 13min08s - e ainda um pênalti chamado pelo VAR nos instantes finais, que rendeu mais três minutos em cima disso. No total, Raphael Claus, árbitro brasileiro, cravou 27min16s de acréscimo numa única partida - o maior número já registrado numa Copa do Mundo. O jogo que “duraria” 90 minutos passou de 117.

Ninguém no estádio reclamou de “cera”. O que aconteceu ali foi o oposto: o árbitro devolvendo, minuto por minuto, o tempo que a partida perdeu de verdade. E é esse cálculo - quem faz, com que critério, e por que ele mudou tanto desde 2022 - que a maioria de quem assiste futebol nunca parou pra entender.

Quem decide quanto tempo o jogo ainda tem

A Regra 7 da International Football Association Board (IFAB), a entidade que escreve as leis do jogo, é direta num ponto: o árbitro principal é a única autoridade pra determinar o acréscimo. Não existe fórmula pública, não existe planilha oficial. O que existe é uma estimativa qualificada, normalmente com o quarto árbitro cronometrando interrupção por interrupção pela lateral e passando o total pro juiz de campo perto do fim de cada etapa.

A placa que sobe à beira do gramado não é o fim do jogo - é o mínimo garantido. Se uma lesão, substituição ou revisão de VAR acontecer dentro desse tempo já acrescido, o árbitro soma mais, sem aviso prévio nenhum. É por isso que um jogo com “4 minutos” na placa às vezes segue rolando aos 96, 97, 98 - o número que você vê é um piso, não um teto.

Os cinco motivos que inflam a conta

A IFAB lista, na própria letra da Regra 7, o que precisa ser devolvido ao jogo:

  • Substituições - cada troca consome tempo real, cronometrado desde que o jogador sai até o novo entrar;
  • Atendimento médico e lesão - contagem desde a parada do jogo até a bola voltar a rolar;
  • Perda de tempo deliberada - “cera” clássica: goleiro segurando bola, jogador demorando pra cobrar lateral;
  • Sanções disciplinares - cartão mostrado, discussão com o árbitro, tudo isso pausa o cronômetro mental;
  • Revisão de VAR - a checagem em si, mais o tempo até o jogo ser reiniciado.

A Fifa deu instrução explícita pros árbitros da Copa de 2022 pra não economizar nesse cálculo - e a diferença apareceu na conta final: média de 12,6 minutos de acréscimo por jogo no torneio inteiro, chegando a 13,2 minutos na fase de grupos, contra a média histórica de “1 minuto no primeiro tempo, 3 no segundo” que valia até então. Não foi um árbitro isolado sendo rigoroso. Foi mudança de critério, aplicada em bloco.

De onde veio essa virada

Até 2022, o padrão informal era simples e curto: 1 a 2 minutos no primeiro tempo, 3 a 5 no segundo, quase sem variar de jogo pra jogo - o que hoje pareceria bola parada demais somada errado. O Catar foi o ponto de virada porque a Fifa pediu, pela primeira vez em bloco, pra devolver o tempo perdido de verdade, e os árbitros passaram a cronometrar cada substituição e cada gol comemorado como interrupção real.

O pacote de regras que a CBF trouxe pro Brasileirão em agosto de 2026 - os cronômetros de cinco segundos pro lateral e o tiro de meta - ataca o problema pela outra ponta: em vez de só compensar o tempo perdido no fim, tenta impedir que ele se perca desde o início. As duas frentes - compensar no acréscimo e prevenir na cera - vêm da mesma pressão da IFAB, que também ampliou o alcance do VAR como parte do mesmo pacote pra 2026.

Minha conta: quanto do jogo já é ficção antes da bola rolar

Aqui é onde os dois números que ninguém junta se encontram. O tempo médio de bola rolando no Brasileirão 2025/26 gira em torno de 55 minutos dos 90 regulamentares - e isso é depois das regras novas da CBF, que já melhoraram o índice. Some a isso a média de acréscimo de uma Copa (12 a 13 minutos, quando o critério é aplicado a sério). Dá pra fazer a conta: se um jogo “de 90 minutos” tem 55 de bola rolando e ainda ganha 12 de acréscimo compensando parte da diferença, o placar oficial de “90’” nunca representou o tempo real de disputa - representou, na melhor das hipóteses, um cronômetro que já nasceu quebrado e que o acréscimo tenta remendar por cima. Ninguém anuncia isso no início da partida, mas é a conta que explica por que o público tem a sensação de que “o jogo demora mais do que devia”: ele demora, só que a demora é embutida, não é bônus.

Por que isso importa pra quem assiste

Pra quem só liga a TV nos 45 minutos anunciados, isso muda a leitura de três coisas na prática. Primeira: a placa do quarto árbitro nunca é o fim garantido - planejar sair de casa ou trocar de canal no minuto exato do acréscimo é aposta perdida, porque VAR e lesão podem esticar de novo. Segunda: comparar acréscimo entre ligas diferentes sem contexto é enganoso - uma liga que erra menos em “cera” tende a mostrar acréscimo menor, não porque o árbitro é mais rigoroso, e sim porque tem menos tempo pra devolver. Terceira: prorrogação e acréscimo são coisas completamente diferentes - o acréscimo compensa tempo perdido dentro dos 90 minutos regulamentares; já a prorrogação só entra em jogos de mata-mata que terminam empatados, com 30 minutos extras do zero, sem relação nenhuma com quanto tempo o árbitro “deveu” no tempo normal.

O que checar da próxima vez que a placa subir

  • Olhe o número como piso, não teto - VAR e lesão depois da placa somam mais, sem novo aviso.
  • Compare acréscimo do 1º e do 2º tempo: o segundo costuma ser maior porque acumula mais substituição e mais “cera” de time que está na frente.
  • Se o VAR revisar algo já dentro do acréscimo, espere o cronômetro esticar de novo - é regra, não capricho do árbitro.
  • Não confunda acréscimo com prorrogação: são mecanismos diferentes, resolvendo problemas diferentes.
  • Em Copa do Mundo e torneios com instrução explícita da Fifa, espere acréscimo mais alto que o padrão de liga nacional - é orientação de cima, não frouxidão da arbitragem local.

Perguntas frequentes

Existe um limite máximo de acréscimo que o árbitro pode dar?

Não. A Regra 7 não fixa teto - o árbitro soma o tempo que julgar necessário pra compensar as paralisações reais. O recorde de 27min16s numa Copa do Mundo mostra que o número pode passar bem longe da média.

O acréscimo do 1º tempo conta pro 2º tempo?

Não. Cada etapa tem seu próprio cálculo, começando do zero. O tempo perdido no primeiro tempo é compensado só dentro do próprio primeiro tempo.

Acréscimo e prorrogação são a mesma coisa?

Não. Acréscimo devolve tempo perdido dentro dos 90 minutos regulamentares, em qualquer jogo. Prorrogação é um período extra de 30 minutos que só existe em partidas de mata-mata terminadas empatadas.

Fontes

C

Escrito por

Camila Bertoldo

Cobertura esportiva com análise tática, contexto e dados.

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